sábado, 27 de junho de 2009

Meu mundo e nada mais


Quando eu fui ferido vi tudo mudar
Das verdades que eu sabia
Só sobraram restos e eu não esqueci
Toda aquela paz que eu tinha
*
Eu que tinha tudo hoje estou mudo, estou mudado
À meia-noite, à meia luz, pensando
Daria tudo por um modo de esquecer
*
Eu queria tanto estar no escuro do meu quarto
À meia-noite, à meia luz, sonhando
Daria tudo por meu mundo e nada mais
*
Não estou bem certo se ainda vou sorrir
Sem um traço de amargura
Como ser mais livre, como ser capaz
de enxergar um novo dia
*
Eu que tinha tudo hoje estou mudo, estou mudado
À meia-noite, à meia luz, pensando
Daria tudo por um modo de esquecer
*
Eu queria tanto estar no escuro do meu quarto
À meia-noite, à meia luz, sonhando
Daria tudo por meu mundo e nada mais
***
(Guilherme Arantes)

sexta-feira, 26 de junho de 2009

Traduzir-se


Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.
*
uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.
*
Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.
*
Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.
*
Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.
*
Traduzir-se uma parte
na outra parte
-que é uma questão
de vida ou morte
-será arte?
***
(Ferreira Gullar)

quarta-feira, 24 de junho de 2009

Revelações de mim

Se um dia eu entrar em tua casa não te assustes

Foi a saudade que apertou demais meu coração...

Se sentires uma presença em teu quarto não te alardes

Sou eu que venho implorar teu amor

É o desejo que sinto por ti...

Se um dia tocarem teu corpo não te assustes

Sou eu, venho conferir o amor que me juras

Não que não acredite em tuas palavras

Mas meu corpo necessita sentir teu calor...

Se chegar sem muito falar, olhe bem em meus olhos

Escute o que eles têm para te falar

Não te surpreendas com o que ouvires deles

Será a verdade guardada em meu peito que eles te dirão...

Se eu nada disser, não fiques preocupada, relaxa

Apenas me abras teus braços e digas que me amas

Não quero ouvir mais nada...

Quero apenas sentir teu ritmo em contacto com meu corpo!

Se invadir tua intimidade não te preocupes com teus segredos

Estarão todos guardados dentro de mim

E de lá jamais sairão...

Mas não me negues teu carinho e teu amor

Chegarei como um mendigo faminto!

Saberás o que desejo com apenas um olhar

Mata minha fome e a sede que tenho de ti!

Não ficarei muito tempo, não quero roubar-te o sossego

Ficarei o suficiente para marcar teu coração

Para matar minha vontade de ti

E para matar tua sede de mim...

Assim como entrei, sairei de tua vida

Mas nunca mais seremos os mesmos...

Sentiremos na alma que a felicidade é real

Apenas ainda não podemos alcançá-lá.

Levarei o gosto de tua boca

O sal de teu suor em contato com minha língua

Levarei além de tua doce lembrança

A certeza de que não somos apenas um caso

Somos duas almas a caminho da perfeição

(Eduardo Baqueiro)

terça-feira, 9 de junho de 2009

Definição


A música do oceano promete emoção,
as ondas agigantam o momento
o sonho...
A teimosia repetitiva das marés
lembra que outros dias virão, o sol
virá de novo
mas o vento
frio
recorda o vazio
a falta da mão, do abraço, do peito
do beijo terno
o frio rudemente define
a tua falta
(Olga Fonseca)

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Quando sentires...

Amor...
Quando sentires minha falta
Quando quiseres me ver
Quando não couberes em si de tanta saudade
Quando puderes sentir meu beijo, meu desejo
Não tema, procure-me
Estarei no brilho de um olhar
Sempre a espera de você chegar
Serei teu aconchego,
Teu delírio,
Teu martírio,
Teu calor
Serei a vontade de tudo
Serei a felicidade
O extremo
A igualdade
Serei a vida, não mais esquecida
Serei você
Amor...
***
(Fernanda Ferraz)

terça-feira, 26 de maio de 2009

Pensando em você

Nas madrugadas, madruguei
Nas noites caminhei...
Nos sonhos te encontrei
Em êxtase te beijei...
A saudade abracei
O desejo sufoquei
Sem jeito fiquei...
Pois sem teu amor
Te amei

***

(Clicia Pavan)

segunda-feira, 18 de maio de 2009

Caminho Encontrado


Razão e loucura
Abismo de mãos
E gestos em fúria
Palavras
Silêncios
E corpos suspensos
Nas bocas a febre
Nos olhos delírio
Regresso de noite
Caminho encontrado.
***
(Manuela Amaral)

domingo, 17 de maio de 2009

Estou a amar-te


Estou a amar-te como o frio
corta os lábios.
A arrancar-te a raiz
ao mais diminuto dos rios.
A inundar-te de facas,
de saliva esperma lume.
Estou a rodear de agulhas
a boca mais vulnerável.
A marcar sobre os teus flancos
o itinerário da espuma.
Assim é o amor: mortal e navegável.
***
(Eugénio de Andrade)

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Freedom


Quem ama não prende, liberta.
Por isso eu te liberto.
Deixo-te ir. Segue o teu rumo, meu amor.
Desejo-te toda a felicidade do Mundo.
Se isso significa ver-te partir para o outro lado do planeta,
a quilometros de distância, que seja.
Se para encontrares a felicidade
tenhas de estar nos braços de outra mulher, seja.
Quero do fundo do coração que sejas muito feliz.
Por isso te liberto.
Para o Mundo.
Para ela.
Para o que seja.
Vai.
Segue o teu rumo.
Que o caminho se faça de dias de sol.
Também eu seguirei o meu rumo.
Contigo no coração.
Mas sem ti.
Gostando muito do que fomos juntos,
mas não te amando como então.
A vida seguirá.
Os dias passarão.
As luas cheias por cima de nós...
Quem sabe se um dia
a tua estrada se cruzará com a minha?
***
(Alfacinha)

Sussurro


Desfolho-me...
e
pétala a pétala
deito o descobrir da minha pele nas tuas mãos
e escorrego o sabor do meu suor nos teus lábios
ainda secos
*
Começo a acordar-me
no sorriso que descubro na ponta dos teus dedos
e
escuto o sussurro dos teus poros já abertos
sorrio-te
e
entrego-me
Suspiro...
***

(Cris)

terça-feira, 12 de maio de 2009

Nua

I
Nua como Eva.
A cabeleira
beija-lhe o rosto oval e flutua;
o corpo é água de torrente...
Eva adolescente,
com reflexos de lua e tons de aurora...!
Roseira que enflora...!
Desflorada por tanta gente...
**
II
Teu corpo,
mal o toquei...
Só te abracei
de leve...
Foi todo neve
o sonho que alonguei...
Asas em voo, quem, um dia, as teve?
Os sonhos que eu sonhei!
**
III
Jeito de ave
e criança,
suave
como a dança do ramo de árvore
que o vento beija e balança!
Nave
de sonho
no temporal medonho
silvando agoiro!
Quem destrançou os teus cabelos de oiro?
**
IV
Corpo fino,
delicado,
sereno, sem desejos...
Tão macio,
tão modelado...
Beijos... Beijos... Beijos...
**
V
No meu sono
ela flutua a cada passo...
Nua,
riscando o espaço
numa névoa de outono...
Apenas nos cabelos
um azulado laço...
E assim enlaço
a imagem sua...
***
(Saúl Dias)

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Procuro-te


Procuro a ternura súbita,
os olhos ou o sol por nascer
do tamanho do mundo,
o sangue que nenhuma espada viu,
o ar onde a respiração é doce,
um pássaro no bosque
com a forma de um grito de alegria.
*
Oh, a carícia da terra,
a juventude suspensa,
a fugidia voz da água entre o azul do prado
e de um corpo estendido.
*
Procuro-te: fruto ou nuvem ou música.
Chamo por ti,
e o teu nome ilumina as coisas mais simples:
o pão e a água, a cama e a mesa,
os pequenos e dóceis animais,
onde também quero que chegue o meu canto
e a manhã de maio.
*
Um pássaro e um navio são a mesma coisa
quando te procuro de rosto cravado na luz.
Eu sei que há diferenças,
mas não quando se ama,
não quando apertamos contra o peito
uma flor ávida de orvalho.
*
Ter só dedos e dentes é muito triste:
dedos para amortalhar crianças,
dentes para roer a solidão,
enquanto o verão pinta de azul o céu
e o mar é devassado pelas estrelas.
*
Porém eu procuro-te.
Antes que a morte se aproxime,
procuro-te.
Nas ruas, nos barcos, na cama,
com amor, com ódio,
ao sol, à chuva, de noite, de dia,
triste, alegre
— procuro-te.
***
(Eugénio de Andrade)

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Sem Rumo

Não sei onde me levam os caminhos
Da peregrinação a que me dei:
Se a planaltos azuis de rosmaninhos,
Se a cavernas de bárbaros, não sei.
*
Ouvi cantar no céu a voz dos ninhos,
E, à voz dos ninhos vivos, acordei.
Peguei no meu bordão, todo de espinhos,
Fiz-me à jornada e nunca mais parei.
*
Sangram-me os pés de só pisar abrolhos.
São dez chagas vermelhas os meus dedos
E dois galhos trementes os meus braços.
*
Entrou a noite dentro dos meus olhos.
Anjo da Guarda, ensina-me os segredos
De andar na vida sem perder os passos.
***
(Moreira das Neves)

segunda-feira, 4 de maio de 2009

Ódio?


Ódio por ele? Não... Se o amei tanto,
Se tanto bem lhe quis no meu passado,
Se o encontrei depois de o ter sonhado,
Se à vida assim roubei todo o encanto...
*
Que importa se mentiu?
E se hoje o pranto
Turva o meu triste olhar, marmorizado,
Olhar de monja, trágico, gelado
Como um soturno e enorme Campo Santo!
*
Ah! nunca mais amá-lo é já bastante!
Quero senti-lo d’outra, bem distante,
Como se fora meu, calma e serena!
*
Ódio seria em mim saudade infinda,
Mágoa de o ter perdido, amor ainda.
Ódio por ele? Não... não vale a pena...
***
(Florbela Espanca)

domingo, 3 de maio de 2009

História de Amor


Na hora certa do plantio, num chuvoso Abril,
semente sedenta de vida,
caíste no solo do meu coração que te esperava.
Germinaste, cresceste, criaste raízes.
*
Teus braços verdes se levantaram para o céu.
Chegaram as douradas flores,
seguidas de frutos generosos,
frutos que saciaram todas as minhas fomes.
*
Na tua sombra me abriguei,
no teu perfume me embriaguei.
No verde de tuas folhas, encontrei esperança.
Nas tuas flores, novos mundos de beleza.
*
As tuas raízes penetraram profundas
no solo ansioso e fértil do meu coração,
num eterno abraço de amor,
e me ligaram a ti, inseparavelmente, para sempre.
***

(Joseph E. de Sousa)

Amor Vagabundo


Amor vagabundo
Amor sem dona amor sem rumo
Á noite em teu leito de amor
Sussurras ao meu ouvido
Palavras quentes e doces
Proteges-me com o calor do teu corpo
E fico acordada a ouvir
O bater do teu coração
A sentir o teu suor escorrendo
Pelo meu corpo cansado
E pela manhã a surpresa
Abafas-me o peito
Como se eu fosse uma criança
Beijas-me com tal ternura
Que sinto algo disparar dentro de mim
E colo os meus lábios aos teus
Enrolo-me mais uma vez no teu corpo
Para sentir o teu calor
E tu partes deixando-me trémula,
imaginando as tuas mãos em minha pele
O teu suor a pingar em mim
Numa dança sem passo certo
Até á exaustão total...
***
(TattooBlue)

sexta-feira, 1 de maio de 2009

O Grito

Dos dias, sim, mas das noites
quem pergunta pelo nome
essas flores selvagens
(seriam flores?)
trazidas pelo teu assobio

A beleza nunca é clara
no modo em que se aproxima
Somos com certas coisas
um mundo ainda terrível
incapaz de explicações
sem nenhuma das certezas
mesmo aquelas, ínfimas, que sustentam
uma palavra, um olhar ou um grito

Só nos resta a maneira
mais pura:
de igual para igual
tão desconhecidos
***
(José Tolentino de Mendonça)

quinta-feira, 30 de abril de 2009

A Magnólia


A exaltação do mínimo,
e o magnífico relâmpago
do acontecimento mestre
restituem-me a forma
o meu esplendor
Um diminuto berço me recolhe
onde a palavra se elide
na matéria - na metáfora
-necessária, e leve, a cada um
onde se ecoa e resvala.
A magnólia,
o som que se desenvolve nela
quando pronunciada,
é um exaltado aroma
perdido na tempestade,
um mínimo ente magnífico
desfolhando relâmpagos
sobre mim.
***
(Luísa Neto Jorge)

O Sonho


Pelo Sonho é que vamos,
comovidos e mudos.
Chegamos? Não chegamos?
Haja ou não haja frutos,
pelo sonho é que vamos.

Basta a fé no que temos,
Basta a esperança naquilo
que talvez não teremos.
Basta que a alma demos,
com a mesma alegria,
ao que desconhecemos
e ao que é do dia-a-dia.

Chegamos? Não chegamos?

- Partimos. Vamos. Somos.
***
(Sebastião da Gama)

...

Toda a palavra tem um sentir próprio.
Entardecer.
Sentimento morno num tempo ausente que o meu peito toma,
redenção, expiação com termo certo, troça?
Mas meu peito flui, vai e vem, respiro, interrogo-me.
Jazem certezas na calçada, perdidas, como os passos.
A que caminho tardio me levam estes passos
- às vezes lar de sonho tornado de viagem -
senão à inquietação destas noites,
passo por passo repisada em meu peito?
Quem é esta Lua, estupenda fêmea intrometida
entre mim e o Rei que faz o dia,
senão a circunstância da noite?
Circunstancial eu,
julgo rasgar a sangue e fogo os muros do tempo,
desvelado leito minhas mãos súplicas do sonho fresco
que, de quando em vez, alenta minha lassidão....mas não!!!
No canto de um pássaro chega a claridade da manhã.
- cegam-me ainda as luas da tua pele nua -
É ela, apenas ela, que alivia esta agonia cega
em peito nocturno, sem circunstância.
Será fé este halo que sobe do rio até mim?
Toda a palavra tem um sentir. Me. Te. Nos.
Transcendental.
Este meu julgar-me nesta luz
de contas acertadas com a entrega.

***

(Paula Paiva)

quarta-feira, 29 de abril de 2009

...


Desfolhar uma rosa
é poesia
ou prosa?
***
(Cruzeiro Seixas)

terça-feira, 28 de abril de 2009

Acolho-me


Acolho-me ao lençol do teu cabelo
no amor pedido do teu rosto ilúcido
e entrego-me à irisada luz
que zelaos lábios na sombria flor cedida.
A sépala descobre o centro dela
uma a uma dá o corpo à descoberta
na liturgia dos sentidos dados
à reza na capela como oferta.
Cavalgo na palavra que me dás
alado nos pequenos montes eros
percorro os sons cativos dos teus ais
aromas luzes são momentos raros.p
Passeando pela flor acesa o fogo
centelha a cada pétala que apago.
***
(José Félix)

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Noite


É de noite que as palavras se soltam,
sem destinos nem contornos,
vagueando plurais em seus sentidos,
omitindo-se e revelando-se.

É de noite que me solto no sentir,
quando no adormecido silêncio
as palavras se fantasiam e libertam.

É de noite que acordo o poema
na sonolência do verbo,
na indigência dos significados,
na suavidade dos desvarios
consumados.

É de noite, na noite de mim,
que diariamente me exponho
nos silêncios libertados.
***
(Helena Monteiro)

O vínculo do meu amor à felicidade


Transformei-te num corpo
Vi-te num sonho.
Deste-me na lua
os raios brilhantes
de uma fantasia.
Que quando esquecer
volta a ser poesia!
Ergui-te com força
na sombra da mente
Voltei a erguer-te
com paixão ardente!
Só sonhei contigo
mas encontrei
toda a gente!
***
(Luís Lourenço)

Almas dos Poetas


Ai as almas dos poetas
Não as entende ninguém;
São almas de violetas
Que são poetas também.
*
Andam perdidas na vida,
Como as estrelas no ar;
Sentem o vento gemer
Ouvem as rosas chorar!
*
Só quem embala no peito
Dores amargas e secretas
É que em noites de luar
Pode entender os poetas
*
E eu que arrasto amarguras
Que nunca arrastou ninguém
Tenho alma pra sentir
A dos poetas também!
***
(Florbela Espanca)

domingo, 26 de abril de 2009

Exílio


Oh tempo tempo tempo,
tempo de colher
o que temos maduro:
o lume dos olhos
a luzir no escuro.
***
(Eugénio de Andrade)

Doçura do Silêncio


O céu escureceu e a chuva veio rápida
Fez pessoas correrem pisando poças d’água
Com passos desencontrados

Hipnotizou sob as marquises toda gente
E os olhares se tornaram distantes
Perdidos em quietudes e coisas do coração

Do lado de dentro de uma das janelas
Uma moça olhava o embaçado do vidro
Com a ponta do dedo e riscos de inundação

Inventou a imagem de um namorado
Desejou que ele permanecesse
Ficou imóvel como esperasse um beijo
Para não acordar a doçura do silêncio
***
(Antonio Miranda Fernandes)

És...


És
Viagem perfumada
por entre beijos e carinhos!
Abraços longos e demorados!
Sorrisos rasgados!
Memória constante!
Um raio de luz, numa noite de trevas!
O teu amor dá-me paz!
Tranquilidade!
Calma!
O teu amor é o fogo
que incendeia a minha alma!
Bailamos ao ritmo do amor!!!!
Perco-me no teu olhar...
Nas esquinas do teu coração...
O que eu quero é apenas amar-te lentamente,
Como se todo o tempo fosse nosso,
Como se todo o tempo fosse pouco,
Como se este amor fosse uma vida ou um instante!
Sonhamos porque a vida agora não mudará os nossos sentidos!
- Amei-te assim que te vi,
e o meu carinho ficou claro...
para sempre ao teu lado.
***
(Andreas - "WrongNick_")

sábado, 25 de abril de 2009

A esperança semeada


(Aos homens do 25 de Abril)
*

O sangue aqui renasce.

Na terra revolvida
rebentam ervas novas
(as horas más passaram).

O Sol - um outro sol - aqui se inventa
por sobre a lenta
erosão da estrada.

Aqui ou nunca.
Ou nada!

A voz aqui rebenta
e é não mais calada.


Por novas leis se fundam
de fibra as pulsações:

o corpo-a-corpo antigo a antiga pele
não mais hão-de pisar
a esperança semeada.

Ardentes leivas vivas avivaram
nossa canção maior.

Um girassol prossegue.

Renasce o sangue aqui
em flores de dádiva.
***
(João Rui de Sousa)

sexta-feira, 24 de abril de 2009

Negar


Porque insisto em negar o que todo o meu corpo
Repete vezes sem conta cada vez que respiro
Porque tento não ouvir o que me cantam os olhos
Sempre que te vejo numa inventada esquina
Onde me cruzo contigo e me prendes os sentidos
Porque insisto em chorar se tanto de ti me preenche
O dia, a noite, o adormecer e o acordar...
Porque duvido eternamente
De todos os sorrisos que me ensinas
De todos os beijos que me roubas.
É como viver sem querer viver
Sempre rejeitando a vida para não morrer
*
Como se não fosse claro
Que preciso de sofrer para melhor te amar
Que preciso de chorar para melhor te cuidar
Porque insisto em negar que te amo
Se tudo à minha volta é uma infinita canção de amor
Que me leva até ao fim de todos os caminhos
Ao princípio de todos os mares
Num momento de amor que imagino partilhando contigo
*
Porque insisto em negar
Que te amo
Se tudo em meu redor
Já o descobriu...
***

sábado, 21 de fevereiro de 2009

Noites sem ti


Quando o silêncio da noite me atormenta
E pensamentos de um amor me invadem
Perco-me em curvas e trilhas
E nelas não vejo tuas mãos.
Somente meu olhar perdido
à procura de algo palpável
que possa transmitir o calor
O amor que tanto esperei.
Teu vulto, uma sombra fria,
Observa...
Sem querer suspeitar presença
Apenas espreita
Murmura,
Pensa e, trancado em palavras,
Desaparece deixando-me perdida e
Só em meus pensamentos.
A noite parece mais fria
Cheia de medos e lamentos.
Recolho minhas dores
Busca de pedaços de momentos
Acalentado numa saudade eterna.
Os dias passam
As noites frias retornam
E com elas todo esse vazio imenso
Toda uma saudade que consome.
Por vezes me pergunto, quem sou eu?
Pois tantas foram as vezes
que saí de mim para ser outro alguém.
Sou metade de mim
Sou pedaço de mim
Onde meu todo se perdeu.
***
(Tânia Carvalho)

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Encantamento


Vi as mulheres azuis do equinócio
voarem como pássaros cegos;
e os seus corpos sem asas afogarem-se,
devagar, nos lagosvulcânicos.
Os seus lábios vomitavam o fogo
que traziam de uma infância de magma calcinado.
A água ficava negra, à sua volta;
e os ramos das plantas submersas pelas chuvas primaveris
abraçavam-nas, puxando-as num estertor de imagens.
Tapei-as com o cobertordo verso;
estendi-as na areia grossa da margem,
vendo as cobras de água fugirem por entre os canaviais.
Espreitei-lhes o sexo por onde escorria o líquido branco de um início.
Pude dizer-lhes que as amava,
abraçando-as, como se estivessem vivas;
e ouvi um restolhar de crianças por entre os arbustos,
repetindo-me as frases com uma entoação de riso.
Onde estão essas mulheres?
Em que leito de rio dormem os seus corpos,
que os meus dedos procuram num gesto vago de inquietação?
Navego contra a corrente;
procuro a fonte, o silêncio frio de uma génese.
**
(Nuno Júdice)

domingo, 15 de fevereiro de 2009

O ponto de partida


Será este o ponto de partida,
obscuridade incerta
e sobre o fundo sombrio da morte?
A esperança nascerá deste branco vazio
e desta mão de cinza?
O viajante entrou num barco ou numa árvore
que o soergue, ainda hesitante, na imensidade
de uma sombra de astro.
Ele aproxima-se de formas vagas,
de espelhos entre pedras,
e junto a um muro sob as estrelas
uma figura de orvalho descalça sobre as ervas.
Tudo flutua ainda, dentro da poeira azul
e púrpura e tudo está esparso e reunido
como na primeira consciência deste mundo
tão longínquo e tão presente
como se o sol fosse um perfume
que da montanha descesse sobre as palavras ditas.
**
(António Ramos Rosa)

sábado, 14 de fevereiro de 2009

O sal da língua


Escuta, escuta:
tenho ainda uma coisa a dizer.
Não é importante, eu sei,
não vai salvar o mundo,
não mudará a vida de ninguém -
mas quem é hoje capaz de salvar o mundo
ou apenas mudar o sentido
da vida de alguém?
Escuta-me, não te demoro.
É coisa pouca, como a chuvinha
que vem vindo devagar.
São três, quatro palavras, pouco mais.
Palavras que te quero confiar,
para que não se extinga o seu lume,
o seu lume breve.
Palavras que muito amei,
que talvez ame ainda.
Elas são a casa, o sal da língua.
**
(Eugénio de Andrade)

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Uma Mulher


Um resto de Agosto.
Uma mulher conhece
o caminho da fonte
porque o seu corpo
é um desvio do mar.
Talvez ela nos mostre
um céu líquido
por detrás dos seus ombros.
Não só as mãos morrem
fatigadas de desejo.
Há cascatas de pedra
nos olhos da memória.
**
(Graça Pires)

Nunca mais


Nunca mais
Caminharás nos caminhos naturais.
Nunca mais te poderás sentir
Invulnerável, real e densa -
Para sempre está perdido
O que mais do que tudo procuraste
A plenitude de cada presença.
E será sempre o mesmo sonho, a mesma ausência.
**
(Sophia de Mello Breyner Andresen)

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Vens de noite no sonho


Vens de noite no sonho
sem pés
entre páginas
de gasta paciência
quando a música findou
e teu sorriso se desfez
como um grão de pólen.
*
Vens no veneno oculto
de meus dias
no silêncio
dos meus ossos
devagar
arrastando em queda
o nosso mundo.
*
Vens no espectro
da angústia
na escrita
inquieta
destes versos
no luto maternal
que me devolve a ti.
*
A escuridão desce então
sobre o meu corpo
quando o rosto da morte
adormece na almofada.
**
(Ana Marques Gastão)

domingo, 8 de fevereiro de 2009

Chove!


Chove…

Mas isso que importa,

se estou aqui abrigado nesta porta

a ouvir a chuva que cai do céu

uma melodia de silêncio

que ninguém mais ouve

senão eu?

*
Chove…

Mas é do destino

de quem ama

ouvir um violino

até na lama.

**

(José Gomes Ferreira)

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Na espera do verso...


Nos vértices da paixão está o que sinto
e nela as arestas não encontro
derramo-me no mel e não te minto
antes sofregamente te pressinto
e me dou
*
E o meu corpo transforma-se em papel
e nas palavras que escreves
me alimento
*
E é no sumir do tempo que eu me escondo
e na espera do verso que eu sou
Resguardo-me apenas do que é eterno
e sorvo o momento do efémero
No instante
em que te dás e que me dou
*
E cresco assim em horizonte
ao longe
mas no mais perto que sou
amando...
(Cris)

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Vou fazer amor contigo


Vou fazer amor contigo esta noite
como se fosse uma deusa
que nasceu para te amar...
Vou dançar no teu corpo num bailar de véus
e de sentidos até já não haver céu...
*
Vou levar-te a passear por entre as estrelas
num trilho de abraços e de luar
E prolongar os meus braços ao sal da tua pele
quando os meus lábios tocarem os teus
E as tuas mãos não souberem mais
como ocultar os teus anseios...
*
E os meus seios vão chamar pela lua
e pelos ventos e até pelas ondas do mar
Do ondular da tua língua
no epicentro do universo da minha vontade
e dos teus desejos...
Vou dançar este amor contigo
numa ilha sem nome ao som dos sussurros
que os teus lábios não conseguem guardar
*
E vou ouvi-los em forma de gemidos
entrelaçados no som do mar...
E ao arquejar do meu corpo,
a cada compasso dessa melodia que vamos cantar...
Saberás que te amo mais que à vida
e que dançarei até ao fim...
*
E de ti soltarás a nascente de fogo e de vida
que desaguará em mim...
E, de seguida...
estenderás os braços num abraço
para que adormeça em ti!
E eu sentirei o beijo
com que fechas as cortinas
da noite em que fiz amor contigo assim...
Amo-te!
(Cris)

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Poemas?



Na noite dos mil poemas
inventei em mim as palavras
que me ensinaram a amar...

Descobri um mar de conceitos,
procurei lá os meus defeitos
e desatei a poetar...
Poemas...

Criei poemas...
Inventei teoremas
cruzei, inverti,
mas sobretudo sonhei as palavras
que são uma parte de mim...

De cada poro que tenho
saiu um pouco de sumo,
do meu cigarro foi o fumo,
e da minha alma o sentir...

Depois foi apenas
sonhar...
Usar os dedos...
Criar!

São poemas o que criei?
Decididamente, não sei...
Mas são uma parte de mim!...

(Cris)

sábado, 31 de janeiro de 2009

Se às vezes digo que as flores sorriem


Se às vezes digo que as flores sorriem
E se eu disser que os rios cantam,
Não é porque eu julgue que há sorrisos nas flores
E cantos no correr dos rios...
É porque assim faço mais sentir aos homens falsos
A existência verdadeiramente real das flores e dos rios.
Porque escrevo para eles me lerem sacrifico-me às vezes
À sua estupidez de sentidos...
Não concordo comigo mas absolvo-me,
Porque só sou essa cousa séria, um intérprete da Natureza,
Porque há homens que não percebem a sua linguagem,
Por ela não ser linguagem nenhuma.
(Alberto Caeiro)

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Amo-te

Amo-te como a planta que não floriu
e tem dentro de si, escondida, a luz das flores,
e, graças ao teu amor, vive obscuro em meu corpo
o denso aroma que subiu da terra.
Amo-te sem saber como, nem quando, nem onde,
amo-te directamente sem problemas nem orgulho:
amo-te assim porque não sei amar de outra maneira
a não ser deste modo em que nem eu sou nem tu és,
tão perto que a tua mão no meu peito é minha,
tão perto que os teus olhos se fecham com meu sono.
(Pablo Neruda)

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

A miséria do meu ser


A miséria do meu ser,
Do ser que tenho a viver,
Tornou-se uma coisa vista.
Sou nesta vida um qualquer
Que roda fora da pista.
*
Ninguém conhece quem sou
Nem eu mesmo me conheço
E, se me conheço, esqueço,
Porque não vivo onde estou.
Rodo, e o meu rodar apresso.
*
É uma carreira invisível,
Salvo onde caio e sou visto,
Porque cair é sensível
Pelo ruído imprevisto...
Sou assim. Mas isto é crível?
(Fernando Pessoa)

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Tempo de ter tempo


Aqui pode ser longe dentro de mim:
há sempre a música imprevista de um verso novo
assomando no postigo do momento.

Quem dera que o tempo que tenho
fosse tempo de ter tempo
como não tenho agora.
Um qualquer tempo lento, sonolento
que, livre, me desse tempo para semear o meu tempo
Tempo de viajar vagarosamente
pelos meandros da memória.
Que não os silêncios que perdemos
no afã do tempo que não temos.

Sei que o tempo me consome,
que envelheço, que entristeço.
Que nesta procura do tempo que passa,
perco o tempo que procuro
na busca do tempo que não tenho

(Autor Desconhecido)

sábado, 24 de janeiro de 2009

Livro de Horas


Aqui, diante de mim,
Eu, pecador, me confesso
De ser assim como sou.
Me confesso o bom e o mau
Que vão em leme da nau
Nesta deriva em que vou.
Me confesso
Possesso
Das virtudes teologais,
Que são três,
E dos pecados mortais
Que são sete,
Quando a terra não repete
Que são mais.
Me confesso
O dono das minhas horas.
O das facadas cegas e raivosas
E das ternuras lúcidas e mansas.
E de ser de qualquer modo
Andanças
Do mesmo todo.
Me confesso de ser charco
E luar de charco, à mistura.
De ser a corda do arco
Que atira setas acima
E abaixo da minha altura.
Me confesso de ser tudo
Que possa nascer em mim.
De ter raízes no chão
Desta minha condição.
Me confesso de Abel e de Caim.
Me confesso de ser Homem.
De ser o anjo caído
Do tal céu que Deus governa;
De ser o monstro saído
Do buraco mais fundo da caverna.
Me confesso de ser eu.
Eu, tal e qual como vim
Para dizer que sou eu
Aqui, diante de mim!
(Miguel Torga)

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

...


Mal nos conhecemos
Inauguramos a palavra amigo!
Amigo é um sorriso
De boca em boca,
Um olhar bem limpo
Uma casa,
mesmo modesta, que se oferece.


Um coração pronto a pulsar
Na nossa mão!
Amigo
(recordam-se, vocês aí,
Escrupulosos detritos?)
Amigo é o contrário de inimigo!
Amigo é o erro corrigido,
Não o erro perseguido, explorado.


É a verdade partilhada, praticada.
Amigo é a solidão derrotada!
Amigo é uma grande tarefa,
Um trabalho sem fim,
Um espaço útil, um tempo fértil,
Amigo vai ser,
é já uma grande festa!

(Alexandre O'Neill

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Amiga...


Tu sempre foste una
e sempre foste minha,
ainda quando a cor e a forma tua se fundiam
com outra forma e cor que tu não tinhas.
Por isto é que te falo de umas coisas
que não lembras
nem nunca lembrarias
de tais coisas entre mim e ti
ainda quando tu não me sabias
e dividida em outras te mostravas
e assim dispersa me ouvias.
*
Tu sempre foste uma
ainda quando o corpo teu
com outro corpo a sós se punha,
pois o que me tinhas a dar
a outro nunca o deste
e nunca o doarias.
*
Por isto é que te sintocom tanta intimidade
e te possuo com tanta singeleza
desde quando recém vinda
ostentavas nos teus olhos grande espanto
de quem não compreendia
a antiguidade desse amor que em mim fluía.
*
(Affonso Romano de Sant'Anna)

sábado, 17 de janeiro de 2009

Silêncio Gritante


O silêncio da tua voz e do teu olhar,
neste instante me chega tão gritante…
como fosse do íntimo do mundo…
tão mais alto que em outros de antes.
Vem com a dor dos degredos…
se instala e me emudece…
me estanca dentro de mim mesmo.
Chega-me misto de lamento profundoe prece.
Fogem-me as palavras ao vento
como fossem grãos de areia por entre os dedos.
Fica-me o coração choroso de versos
e as mãos conchas vazias de segredos.

(António Miranda Fernandes)

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Há um tempo



Há um tempo em que é preciso

abandonar as roupas usadas,

que já têm a forma do nosso corpo,

e esquecer os nossos caminhos,

que nos levam sempre aos mesmos lugares.

É o tempo da travessia:

e, se não ousarmos fazê-la,

teremos ficado, para sempre,

à margem de nós mesmos.

(Fernando Teixeira de Andrade)