sábado, 21 de fevereiro de 2009

Noites sem ti


Quando o silêncio da noite me atormenta
E pensamentos de um amor me invadem
Perco-me em curvas e trilhas
E nelas não vejo tuas mãos.
Somente meu olhar perdido
à procura de algo palpável
que possa transmitir o calor
O amor que tanto esperei.
Teu vulto, uma sombra fria,
Observa...
Sem querer suspeitar presença
Apenas espreita
Murmura,
Pensa e, trancado em palavras,
Desaparece deixando-me perdida e
Só em meus pensamentos.
A noite parece mais fria
Cheia de medos e lamentos.
Recolho minhas dores
Busca de pedaços de momentos
Acalentado numa saudade eterna.
Os dias passam
As noites frias retornam
E com elas todo esse vazio imenso
Toda uma saudade que consome.
Por vezes me pergunto, quem sou eu?
Pois tantas foram as vezes
que saí de mim para ser outro alguém.
Sou metade de mim
Sou pedaço de mim
Onde meu todo se perdeu.
***
(Tânia Carvalho)

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Encantamento


Vi as mulheres azuis do equinócio
voarem como pássaros cegos;
e os seus corpos sem asas afogarem-se,
devagar, nos lagosvulcânicos.
Os seus lábios vomitavam o fogo
que traziam de uma infância de magma calcinado.
A água ficava negra, à sua volta;
e os ramos das plantas submersas pelas chuvas primaveris
abraçavam-nas, puxando-as num estertor de imagens.
Tapei-as com o cobertordo verso;
estendi-as na areia grossa da margem,
vendo as cobras de água fugirem por entre os canaviais.
Espreitei-lhes o sexo por onde escorria o líquido branco de um início.
Pude dizer-lhes que as amava,
abraçando-as, como se estivessem vivas;
e ouvi um restolhar de crianças por entre os arbustos,
repetindo-me as frases com uma entoação de riso.
Onde estão essas mulheres?
Em que leito de rio dormem os seus corpos,
que os meus dedos procuram num gesto vago de inquietação?
Navego contra a corrente;
procuro a fonte, o silêncio frio de uma génese.
**
(Nuno Júdice)

domingo, 15 de fevereiro de 2009

O ponto de partida


Será este o ponto de partida,
obscuridade incerta
e sobre o fundo sombrio da morte?
A esperança nascerá deste branco vazio
e desta mão de cinza?
O viajante entrou num barco ou numa árvore
que o soergue, ainda hesitante, na imensidade
de uma sombra de astro.
Ele aproxima-se de formas vagas,
de espelhos entre pedras,
e junto a um muro sob as estrelas
uma figura de orvalho descalça sobre as ervas.
Tudo flutua ainda, dentro da poeira azul
e púrpura e tudo está esparso e reunido
como na primeira consciência deste mundo
tão longínquo e tão presente
como se o sol fosse um perfume
que da montanha descesse sobre as palavras ditas.
**
(António Ramos Rosa)

sábado, 14 de fevereiro de 2009

O sal da língua


Escuta, escuta:
tenho ainda uma coisa a dizer.
Não é importante, eu sei,
não vai salvar o mundo,
não mudará a vida de ninguém -
mas quem é hoje capaz de salvar o mundo
ou apenas mudar o sentido
da vida de alguém?
Escuta-me, não te demoro.
É coisa pouca, como a chuvinha
que vem vindo devagar.
São três, quatro palavras, pouco mais.
Palavras que te quero confiar,
para que não se extinga o seu lume,
o seu lume breve.
Palavras que muito amei,
que talvez ame ainda.
Elas são a casa, o sal da língua.
**
(Eugénio de Andrade)

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Uma Mulher


Um resto de Agosto.
Uma mulher conhece
o caminho da fonte
porque o seu corpo
é um desvio do mar.
Talvez ela nos mostre
um céu líquido
por detrás dos seus ombros.
Não só as mãos morrem
fatigadas de desejo.
Há cascatas de pedra
nos olhos da memória.
**
(Graça Pires)

Nunca mais


Nunca mais
Caminharás nos caminhos naturais.
Nunca mais te poderás sentir
Invulnerável, real e densa -
Para sempre está perdido
O que mais do que tudo procuraste
A plenitude de cada presença.
E será sempre o mesmo sonho, a mesma ausência.
**
(Sophia de Mello Breyner Andresen)

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Vens de noite no sonho


Vens de noite no sonho
sem pés
entre páginas
de gasta paciência
quando a música findou
e teu sorriso se desfez
como um grão de pólen.
*
Vens no veneno oculto
de meus dias
no silêncio
dos meus ossos
devagar
arrastando em queda
o nosso mundo.
*
Vens no espectro
da angústia
na escrita
inquieta
destes versos
no luto maternal
que me devolve a ti.
*
A escuridão desce então
sobre o meu corpo
quando o rosto da morte
adormece na almofada.
**
(Ana Marques Gastão)

domingo, 8 de fevereiro de 2009

Chove!


Chove…

Mas isso que importa,

se estou aqui abrigado nesta porta

a ouvir a chuva que cai do céu

uma melodia de silêncio

que ninguém mais ouve

senão eu?

*
Chove…

Mas é do destino

de quem ama

ouvir um violino

até na lama.

**

(José Gomes Ferreira)

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Na espera do verso...


Nos vértices da paixão está o que sinto
e nela as arestas não encontro
derramo-me no mel e não te minto
antes sofregamente te pressinto
e me dou
*
E o meu corpo transforma-se em papel
e nas palavras que escreves
me alimento
*
E é no sumir do tempo que eu me escondo
e na espera do verso que eu sou
Resguardo-me apenas do que é eterno
e sorvo o momento do efémero
No instante
em que te dás e que me dou
*
E cresco assim em horizonte
ao longe
mas no mais perto que sou
amando...
(Cris)

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Vou fazer amor contigo


Vou fazer amor contigo esta noite
como se fosse uma deusa
que nasceu para te amar...
Vou dançar no teu corpo num bailar de véus
e de sentidos até já não haver céu...
*
Vou levar-te a passear por entre as estrelas
num trilho de abraços e de luar
E prolongar os meus braços ao sal da tua pele
quando os meus lábios tocarem os teus
E as tuas mãos não souberem mais
como ocultar os teus anseios...
*
E os meus seios vão chamar pela lua
e pelos ventos e até pelas ondas do mar
Do ondular da tua língua
no epicentro do universo da minha vontade
e dos teus desejos...
Vou dançar este amor contigo
numa ilha sem nome ao som dos sussurros
que os teus lábios não conseguem guardar
*
E vou ouvi-los em forma de gemidos
entrelaçados no som do mar...
E ao arquejar do meu corpo,
a cada compasso dessa melodia que vamos cantar...
Saberás que te amo mais que à vida
e que dançarei até ao fim...
*
E de ti soltarás a nascente de fogo e de vida
que desaguará em mim...
E, de seguida...
estenderás os braços num abraço
para que adormeça em ti!
E eu sentirei o beijo
com que fechas as cortinas
da noite em que fiz amor contigo assim...
Amo-te!
(Cris)

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Poemas?



Na noite dos mil poemas
inventei em mim as palavras
que me ensinaram a amar...

Descobri um mar de conceitos,
procurei lá os meus defeitos
e desatei a poetar...
Poemas...

Criei poemas...
Inventei teoremas
cruzei, inverti,
mas sobretudo sonhei as palavras
que são uma parte de mim...

De cada poro que tenho
saiu um pouco de sumo,
do meu cigarro foi o fumo,
e da minha alma o sentir...

Depois foi apenas
sonhar...
Usar os dedos...
Criar!

São poemas o que criei?
Decididamente, não sei...
Mas são uma parte de mim!...

(Cris)

sábado, 31 de janeiro de 2009

Se às vezes digo que as flores sorriem


Se às vezes digo que as flores sorriem
E se eu disser que os rios cantam,
Não é porque eu julgue que há sorrisos nas flores
E cantos no correr dos rios...
É porque assim faço mais sentir aos homens falsos
A existência verdadeiramente real das flores e dos rios.
Porque escrevo para eles me lerem sacrifico-me às vezes
À sua estupidez de sentidos...
Não concordo comigo mas absolvo-me,
Porque só sou essa cousa séria, um intérprete da Natureza,
Porque há homens que não percebem a sua linguagem,
Por ela não ser linguagem nenhuma.
(Alberto Caeiro)

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Amo-te

Amo-te como a planta que não floriu
e tem dentro de si, escondida, a luz das flores,
e, graças ao teu amor, vive obscuro em meu corpo
o denso aroma que subiu da terra.
Amo-te sem saber como, nem quando, nem onde,
amo-te directamente sem problemas nem orgulho:
amo-te assim porque não sei amar de outra maneira
a não ser deste modo em que nem eu sou nem tu és,
tão perto que a tua mão no meu peito é minha,
tão perto que os teus olhos se fecham com meu sono.
(Pablo Neruda)

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

A miséria do meu ser


A miséria do meu ser,
Do ser que tenho a viver,
Tornou-se uma coisa vista.
Sou nesta vida um qualquer
Que roda fora da pista.
*
Ninguém conhece quem sou
Nem eu mesmo me conheço
E, se me conheço, esqueço,
Porque não vivo onde estou.
Rodo, e o meu rodar apresso.
*
É uma carreira invisível,
Salvo onde caio e sou visto,
Porque cair é sensível
Pelo ruído imprevisto...
Sou assim. Mas isto é crível?
(Fernando Pessoa)

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Tempo de ter tempo


Aqui pode ser longe dentro de mim:
há sempre a música imprevista de um verso novo
assomando no postigo do momento.

Quem dera que o tempo que tenho
fosse tempo de ter tempo
como não tenho agora.
Um qualquer tempo lento, sonolento
que, livre, me desse tempo para semear o meu tempo
Tempo de viajar vagarosamente
pelos meandros da memória.
Que não os silêncios que perdemos
no afã do tempo que não temos.

Sei que o tempo me consome,
que envelheço, que entristeço.
Que nesta procura do tempo que passa,
perco o tempo que procuro
na busca do tempo que não tenho

(Autor Desconhecido)

sábado, 24 de janeiro de 2009

Livro de Horas


Aqui, diante de mim,
Eu, pecador, me confesso
De ser assim como sou.
Me confesso o bom e o mau
Que vão em leme da nau
Nesta deriva em que vou.
Me confesso
Possesso
Das virtudes teologais,
Que são três,
E dos pecados mortais
Que são sete,
Quando a terra não repete
Que são mais.
Me confesso
O dono das minhas horas.
O das facadas cegas e raivosas
E das ternuras lúcidas e mansas.
E de ser de qualquer modo
Andanças
Do mesmo todo.
Me confesso de ser charco
E luar de charco, à mistura.
De ser a corda do arco
Que atira setas acima
E abaixo da minha altura.
Me confesso de ser tudo
Que possa nascer em mim.
De ter raízes no chão
Desta minha condição.
Me confesso de Abel e de Caim.
Me confesso de ser Homem.
De ser o anjo caído
Do tal céu que Deus governa;
De ser o monstro saído
Do buraco mais fundo da caverna.
Me confesso de ser eu.
Eu, tal e qual como vim
Para dizer que sou eu
Aqui, diante de mim!
(Miguel Torga)

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

...


Mal nos conhecemos
Inauguramos a palavra amigo!
Amigo é um sorriso
De boca em boca,
Um olhar bem limpo
Uma casa,
mesmo modesta, que se oferece.


Um coração pronto a pulsar
Na nossa mão!
Amigo
(recordam-se, vocês aí,
Escrupulosos detritos?)
Amigo é o contrário de inimigo!
Amigo é o erro corrigido,
Não o erro perseguido, explorado.


É a verdade partilhada, praticada.
Amigo é a solidão derrotada!
Amigo é uma grande tarefa,
Um trabalho sem fim,
Um espaço útil, um tempo fértil,
Amigo vai ser,
é já uma grande festa!

(Alexandre O'Neill

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Amiga...


Tu sempre foste una
e sempre foste minha,
ainda quando a cor e a forma tua se fundiam
com outra forma e cor que tu não tinhas.
Por isto é que te falo de umas coisas
que não lembras
nem nunca lembrarias
de tais coisas entre mim e ti
ainda quando tu não me sabias
e dividida em outras te mostravas
e assim dispersa me ouvias.
*
Tu sempre foste uma
ainda quando o corpo teu
com outro corpo a sós se punha,
pois o que me tinhas a dar
a outro nunca o deste
e nunca o doarias.
*
Por isto é que te sintocom tanta intimidade
e te possuo com tanta singeleza
desde quando recém vinda
ostentavas nos teus olhos grande espanto
de quem não compreendia
a antiguidade desse amor que em mim fluía.
*
(Affonso Romano de Sant'Anna)

sábado, 17 de janeiro de 2009

Silêncio Gritante


O silêncio da tua voz e do teu olhar,
neste instante me chega tão gritante…
como fosse do íntimo do mundo…
tão mais alto que em outros de antes.
Vem com a dor dos degredos…
se instala e me emudece…
me estanca dentro de mim mesmo.
Chega-me misto de lamento profundoe prece.
Fogem-me as palavras ao vento
como fossem grãos de areia por entre os dedos.
Fica-me o coração choroso de versos
e as mãos conchas vazias de segredos.

(António Miranda Fernandes)

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Há um tempo



Há um tempo em que é preciso

abandonar as roupas usadas,

que já têm a forma do nosso corpo,

e esquecer os nossos caminhos,

que nos levam sempre aos mesmos lugares.

É o tempo da travessia:

e, se não ousarmos fazê-la,

teremos ficado, para sempre,

à margem de nós mesmos.

(Fernando Teixeira de Andrade)

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Desilusão de Pigmaleão



Tão longe mas tão perto
Um destino incerto...

Ouvindo o teu riso
Lembro-me do que senti
Incerto
Inseguro
Somos uns românticos
Tão perto mas tão longe
Um destino bem certo...

Ouvindo a tua voz
Esqueço-me que senti

É certo
E seguro
Fomos uns românticos
(Santiago)

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

...


Acima de tudo
deste-me dias mais claros
de uma poesia diferente.
Recordo ainda
o sabor de uma lágrima tua
ainda quente, antes do cais,
e enraivece-me o meu constante
talvez, quem sabe...nunca mais!

Percorro lugares onde fui algo
já que não te percorro a ti
pelos trilhos que me abriste
e depois tapaste.
Que importa afinal?
As sebes em redor,
feitas de uma sempre serena razão,
eram sempre tão altas.
E eu sem as conseguir saltar.

Resta-me o papel e a caneta,
os acordares obcecados pela noite fora,
o sorriso do "Noodles",
a flauta e o ver-te,
o ter-te perto, que demora.
(José Tormes)

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Chove!


Chove…
Mas isso que importa!
Se estou aqui abrigado nesta porta
a ouvir a chuva que cai do céu
uma melodia de silêncio
que ninguém mais ouve
senão eu?
*
Chove…
Mas é do destino
de quem ama
ouvir um violino
até na lama.
(José Gomes Ferreira)

sábado, 22 de novembro de 2008

Não sei


Não sei de mim
se daquilo que parece ser
me perdi.
Deixei que a vida me vivesse e,
perdendo-me da vida,
a vida perdeu-se.

E menti muito,
para ser melhor poeta.
(Fátima Andersen)

domingo, 16 de novembro de 2008

...


Não sei...
se a vida é curta ou longa demais pra nós,
mas sei que nada do que vivemos tem sentido,
se não tocamos o coração das pessoas.
Muitas vezes basta ser: colo que acolhe, braço que envolve,
palavra que conforta, silêncio que respeita,
alegria que contagia, lágrima que corre, olhar que acaricia,
desejo que sacia, amor que promove.

E isso não é coisa de outro mundo,
é o que dá sentido à vida.
É o que faz com que ela não seja nem curta
nem longa demais,
mas que seja intensa, verdadeira, pura...
...enquanto durar...
(Cora Coralina)

sábado, 15 de novembro de 2008

Versos Vertentes


O dia amanheceu cinzento.
Fui lá fora ver a chuva.
A água que descia lavando a rua
– precipitando a vida –
era torrencial,…
transbordava nas frestas da calçada.
Frente às poças que se formavam
tive a lembrança dos versos.
Num suspiro de saudade…
emergiu de minha alma
uma enxurrada de palavras.
Enquanto chovia fiz rascunhos
na página nua das horas.
Um poema onde, em verdade,
sorvo uma gota da face,
resumindo o que senti e desejei
da tua poesia dos verbos
que, ao ler,…
sei estarem todos no plural.
(Rita Costa)

terça-feira, 11 de novembro de 2008

Sonho vago


Um sonho alado que nasceu um instante
Erguido ao alto em horas de demência...
Gotas de água que tombam em cadência
Na minha alma tristíssima, distante...
*
Onde está ele, o desejado? O infame?
O que há de vir e amar-me em doida ardência?
O das horasde mágoa e penitência?
O príncipe encantado? O eleito? O amante?
*
E neste sonho eu já nem sei quem sou...
O brando marulhar dum longo beijo
Que não chegou a dar-se e que passou...
*
Um fogo fátuo rútilo, talvez...
Eu ando a procurar-te e já te vejo!
E tu já me encontraste e não me vês!
(Florbela Espanca)

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Estrelas


Olhar o céu infinito
Admirar as estrelas
Tocá-las com os dedos da imaginação
Vibrar com o brilho delas.

Brincar de fazer mundos
Usar os sentimentos mais puros
Mais profundos.

Para onde vai aquela estrela?
Um pontinho no céu a caminhar?
E olha lá... do outro lado
Outra estrela a vagar!

São meus sonhos... esperanças...
De um mundo melhor encontrar
Que realizo e conquisto
No brilho do seu olhar!
(Léia Pantoni)

sábado, 8 de novembro de 2008

Pudesse eu florir


Pudesse eu florir em cada flor
no pretexto do sonho em que te envolvo
do meu corpo, no teu corpo, em desalinho.
E tu beberes o conforto
que em cada momento te ofereço
no líquido híbrido
dos meus olhos de águia presa,
no anseio e no fascínio.
Este cálice de sangue e vida,
esta taça pálida d'amargurada orquídea.
Ser-te seiva, suor e linfa...
Pudesse eu, amado, florir e madrugar
nas pupilas do teu olhar tristonho.
Ser o teu mar, o teu mais alto sonho,
ser finda melancolia.
Ser novo dia a beber da claridade
na febre da tua lira.
Ser ninfa, de cobiçosos horizontes,
d’eternidades e tu poesia a explodir-se
na fonte de meu corpo, amado.
Concubinos, viajante de um mesmo sonho,
de mãos unidas,
elevados ao êxtase do canto egrégio
na voz do silêncio de solidão extinta.
Sermos dos amantes a voz que explode,
a voz que grita,
na flama de quem se ama
sem razão ou medida,
na praça e na avenida,
na alma nua, no chão da rua,
na purificaçãodo sal e mel.
No sorriso, na adoração,
na pacificação da dor…
Pudesse eu florir em cada flor de ti, amor!
Pudesse eu!
(Mel de Carvalho)

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Já sobre a fonte


Já sobre a fronte vã se me acinzenta
O cabelo do jovem que perdi.
Meus olhos brilham menos.
Já não tem jus a beijos minha boca.
Se me ainda amas, por amor não ames:
Traíras-me comigo.
(Ricardo Reis)

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Green God


Trazia consigo a graça
das fontes quando anoitece.
Era o corpo como um rio
em sereno desafio
com as margens quando desce.

Andava como quem passa
sem ter tempo de parar.
Ervas nasciam dos passos,
cresciam troncos dos braços
quando os erguia no ar.

Sorria como quem dança.
E desfolhava ao dançar o corpo,
que lhe tremia num ritmo que ele sabia
que os deuses devem usar.

E seguia o seu caminho,
porque era um deus que passava.
Alheio a tudo o que via,
enleado na melodia duma flauta que tocava
***.

(Eugénio de Andrade)

terça-feira, 4 de novembro de 2008

Quase um poema de amor


Há muito tempo já
que não escrevo um poema
De amor.
E é o que eu sei fazer
com mais delicadeza!
A nossa natureza
Lusitana
Tem essa humana
Graça
Feiticeira
De tornar de cristal
A mais sentimental
E baça
Bebedeira.

Mas ou seja que vou envelhecendo
E ninguém me deseje apaixonado,
Ou que a antiga paixão
Me mantenha calado
O coração
Num íntimo pudor,
--- Há muito tempo já
que não escrevo um poema
De amor
(Miguel Torga)

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

O fogo que na branda cera ardia


O fogo que na branda cera ardia,
Vendo o rosto gentil que na alma vejo.
Se acendeu de outro fogo do desejo,
Por alcançar a luz que vence o dia.

Como de dois ardores se incendia,
Da grande impaciência fez despejo,
E, remetendo com furor sobejo,
Vos foi beijar na parte onde se via.

Ditosa aquela flama, que se atreve
Apagar seus ardores e tormentos
Na vista do que o mundo tremer deve!

Namoram-se, Senhora, os Elementos
De vós, e queima o fogo aquela nave
Que queima corações e pensamentos.
***
(Luís de Camões)

domingo, 2 de novembro de 2008

Ter tempo


Aqui pode ser longe dentro de mim
Há sempre a música imprevista de um verso novo
Assomando no postigo do momento.
Quem dera que o tempo que tenho
Fosse tempo de ter tempo como não tenho agora.
Um qualquer tempo lento, sonolento
Que, livre, me desse tempo para semear o meu tempo
Tempo de viajar vagarosamente
Pelos meandros da memória.
Que não os silêncios que perdemos
No afã do tempo que não temos.
Sei que o tempo me consome,
que envelheço, que entristeço.
Que nesta procura do tempo que passa,
perco o tempo que procuro
Na busca do tempo que não tenho.
(Autor Desconhecido)

sábado, 1 de novembro de 2008

A miséria do meu ser


A miséria do meu ser,
Do ser que tenho a viver,
Tornou-se uma coisa vista.
Sou nesta vida um qualquer
Que roda fora da pista.

Ninguém conhece quem sou
Nem eu mesmo me conheço
E, se me conheço, esqueço,
Porque não vivo onde estou.
Rodo, e o meu rodar apresso.

É uma carreira invisível,
Salvo onde caio e sou visto,
Porque cair é sensível
Pelo ruído imprevisto...
Sou assim. Mas isto é crível?
***
(Fernando Pessoa)

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Flores de cactus


Flores de cactus resplandecentes,
Espelhantes, encarnadas!
Rubras gargalhadas
De cortesãs…
Embriagam-se de sol,
Pelas doiradas manhãs,
Viçosas e ardentes!
Bela flor imprudente!
Brilha melhor o sol rutilante
Nas suas pétalas vermelhas…
É sugestivo
O ar insolente e petulante,
Como se deixam morder
Pelas doiradas abelhas!
Nascem para ser beijadas
E possuídas
Pelo sol abrasador…
Lascivas,
Predestinadas
Para os mistérios do amor!
Eu gosto desta flor pagã
E sensual,
Que num místico ritual
Se entrega toda aberta
Aos beijos fulvos do sol!
Oh! Flor do cactus enrubescida!
No teu vermelho, há sangue, há vida…
- E eu tenho uma enorme sede de viver!
***
(Judith Teixeira)

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

SONETO LXXXVIII


Quando me tratas mau e, desprezado,
Sinto que o meu valor vês com desdém,
Lutando contra mim, fico a teu lado
E, inda perjuro, provo que és um bem.
Conhecendo melhor meus próprios erros,
A te apoiar te ponho a par da história
De ocultas faltas, onde estou enfermo;
Então, ao me perder, tens toda a glória.
Mas lucro também tiro desse ofício:
Curvando sobre ti amor tamanho,
Mal que me faço me traz benefício,
Pois o que ganhas duas vezes ganho.
Assim é o meu amor e a ti o reporto:
Por ti todas as culpas eu suporto.
***
(William Shakespeare)

sábado, 25 de outubro de 2008

Seus olhos


Seus olhos - se eu sei pintar
O que os meus olhos cegou
Não tinham luz de brilhar.
Era chama de queimar;
E o fogo que a ateou
Vivaz, eterno, divino,
Como facho do Destino.
*
Divino, eterno! - e suave
Ao mesmo tempo: mas grave
E de tão fatal poder,
Que, num só momento que a vi,
Queimar toda alma senti...
Nem ficou mais de meu ser,
Senão a cinza em que ardi.
***
(Almeida Garret)

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Desejo


Ah! que eu não morra sem provar, ao menos
Sequer por um instante, nesta vida
Amor igual ao meu!
Dá, Senhor Deus, que eu sobre a terra encontre
Um anjo, uma mulher, uma obra tua,
Que sinta o meu sentir;

Uma alma que me entenda, irmã da minha,
Que escute o meu silêncio, que me siga
Dos ares na amplidão!
Que em laço estreito unidas, juntas, presas,
Deixando a terra e o lodo, aos céus remontem
Num êxtase de amor!
(Gonçalves Dias)

terça-feira, 21 de outubro de 2008

Era fácil


Era fácil sair de mim
e colher o prazer.
Mas conto os dias,
as horas,
os segundos
nem sei para quê.
Acredito, não sei porquê,
que esta angústia,
esta dor,
esta ferida,
se esvai,
se adoça,
se cura.
Que este sentir não dura.
Mas os dias passam,
a angústia aperta,
a dor cresce,
a ferida afunda
e tudo à minha volta
sucumbe cinzento,
sem um alento,
no meu desvario
que me preenche,
me inunda.
(Helena Guimarães)

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Solidão


Não mais fujas de mim, ó minha amiga,
para sempre fiques guardada no meu peito,
Que me acompanhes nas noites em que me deito,
sempre que de dia a minha alma é vencida.
*
Juntos no mesmo mundo, no mesmo leito,
todo o teu conforto será a minha guarida,
assim teremos a vida de nos esquecida,
seremos a divina união, o casal perfeito.
*
E juntos neste singular exilio, vamos viver,
guardar todas as mágoas no meu coração,
como reliquias que para sempre vou esconder.
*
Serei de todos os mortais, o mais feliz então,
por este tesouro, dentro de mim eu poder ter,
por estares sempre ao meu lado... solidão.
(Eduardo Mesquita)

terça-feira, 14 de outubro de 2008

Abro-me ao mundo...

Sonhando vou por aí,
sinto-me entre a terra e o céu!
Percorro montes e vales,
rios e oceanos,
países e continentes.
E o que vejo?
*
Fome e miséria,
iminentes mortes.
Bem-estar,
muito bem-estar,
ignorando os carentes.
*
Atroz egoísmo
num planeta com guerras,
ódios, invejas;
amor onde páras?
*
O sonho vai partindo
e deixa-me a imagem
de que existem dois mundos!!!
(José Manuel Brazão)

domingo, 12 de outubro de 2008

Nascer do Sol


Por detrás das grades vi uma claridade,
que fez no meu peito nascer uma esperanca,
senti que poderia terminar a tempestade,
e que finalmente chegaria a bonança.
*
Foi como um elixir, uma sagrada dança,
com rituais bordados pela ansiedade,
foi como se um feiticeiro, chegasse a verdade,
sem ter que manejar, a sua "sábia lança".
*
Foi um raio de luz, que entrou no meu mundo,
e reacendeu de novo a minha alma,
que caíra num precipício bem fundo.
*
Bastou um momento, minha voz se acalma,
com esse resplandecente suspiro e profundo .
Nasceu mais um dia, numa manhã calma.
(Eduardo Mesquita)

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

O amor quando se revela...


O amor, quando se revela,
Não se sabe revelar.
Sabe bem olhar p'ra ela,
Mas não lhe sabe falar.
*
Quem quer dizer o que sente
Não sabe o que há de dizer.
Fala: parece que mente
Cala: parece esquecer
*
Ah, mas se ela adivinhasse,
Se pudesse ouvir o olhar,
E se um olhar lhe bastasse
Pra saber que a estão a amar!
*
Mas quem sente muito, cala;
Quem quer dizer quanto sente
Fica sem alma nem fala,
Fica só, inteiramente!
*
Mas se isto puder contar-lhe
O que não lhe ouso contar,
Já não terei que falar-lhe
Porque lhe estou a falar...
(Fernando Pessoa)

sábado, 20 de setembro de 2008

O impossível carinho


Escuta, eu não quero contar-te o meu desejo
Quero apenas contar-te a minha ternura
Ah!... Se em troca de tanta felicidade que me dás
Eu te pudesse repor
- Eu soubesse repor -
No coração despedaçado
As mais puras alegrias de tua infância!
(Manuel Bandeira)

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

O teu riso


Tira-me o pão, se quiseres,
tira-me o ar,
mas não me tires o teu riso.
*
Não me tires a rosa,
a lança que desfolhas,
a água que de súbito
brota da tua alegria,
a repentina onda
de prata que em ti nasce.
*
A minha luta é dura
e regresso com os olhos cansados
às vezes por ver
que a terra não muda,
mas ao entrar teu riso
sobe ao céu a procurar-me
e abre-me todasas portas da vida.
*
Meu amor,
nos momentos mais escuros
solta o teu riso e,
se de súbito vires que o meu sangue
mancha as pedras da rua,
ri,
porque o teu riso será para as minhas mãos
como uma espada fresca.
*
À beira do mar, no outono,
teu riso deve erguer sua cascata de espuma,
e na primavera, amor,
quero teu riso como a flor que esperava,
a flor azul,
a rosa da minha pátria sonora.
*
Ri-te da noite,
do dia, da lua,
ri-te das ruas tortas da ilha,
ri-te deste grosseiro rapaz que te ama,
mas quando abro os olhos e os fecho,
quando meus passos vão,
quando voltam meus passos,
nega-me o pão, o ar,
a luz, a primavera,
mas nunca o teu riso,
porque então morreria.
(Pablo Neruda)

domingo, 14 de setembro de 2008

Amor é...


Estar em ti e simplesmente ser e sentir...
É fechar os olhos e sonhar um sonho,
que não quero que acabe nunca...
É inalar o doce aroma que acaricia os nossos momentos...
É escutar um hino que escrevemos juntos,
Em nós, no nosso silêncio...
É viajar por entre o universo,

Onde se perde o infinito.
É subir ao céu e tocar as estrelas...
É deixar-me envolver pelas suas asas,

Sabendo que na sua plumagem se esconde uma espada...
É acreditar na voz que pode quebrar os meus sonhos,

Como o vento do Inverno que sacode os jardins...
É sentir-me árvore cujo sol acaricia os meus frágeis ramos,

Como também abana e sacode as minhas raízes de apego à terra...
É ser crivado pelas mãos do artesão,

Com a subtileza de quem separa o trigo do joio....
É ser moído e triturado,

até ao mais puro e singelo branco...
É ser amassado e ficar maleável,

Pronto para crescer no teu fogo...
É percorrer o caminho da Vida...

Onde posso rir todos os meus risos,
Onde posso chorar todas as minhas lágrimas...
Assim é o Amor.

O amor que se alimenta de si próprio,
O amor cujo rio não deve ser guiado...
É conhecer a dor da excessiva ternura,

É sangrar feliz.
É acordar preenchido e agradecer mais um dia,

É repousar a meio do dia e ser invadido pelo pensamento
Estival de uma tarde de Outono.
É regressar a casa no corolário das emoções,

Adormecer enroscado num beijo teu...
Se assim é o Amor,

Então descobri em ti o caminho da minha vida,
O caminho do meu conhecimento.
Elevo a minha voz aos céus,

E com a força da imensidão do mar,
Mas com a fragilidade e ternura da sua espuma,

Digo-te...
Amo-te, luz de minh’alma...
Amo-te, pedaço de mim...
(Catherine*)

Se eu pudesse...

Se eu pudesse trincar a terra toda
E sentir-lhe um paladar,
Seria mais feliz um momento...
Mas eu nem sempre quero ser feliz,
É preciso ser de vez quando infeliz
Para se poder ser natural...
*
Nem tudo é dias de sol,
E a chuva, quando falta muito, pede-se.
Por isso tomo a infelicidade com a felicidade
Naturalmente, como quem não estranha
Que haja montanhas e planícies
E que haja rochedos e erva...
*
O que é preciso é ser-se natural e calmo
Na felicidade ou na infelicidade,
Sentir como quem olha,
Pensar como quem anda,
E quando se vai morrer,
Lembrar-se de que o dia morre,
E que o poente é belo e é bela a noite que fica...
Assim é e assim seja...
(Alberto Caeiro)

O Vento


Queria transformar o vento.
Dar ao vento uma forma concreta e apta a foto.
Eu precisava pelo menos de enxergar uma parte física do vento:
uma costela, o olho...
Mas a forma do vento me fugia que nem as formas de uma voz.
Quando se disse que o vento empurrava a canoa do índio para o barranco
Imaginei um vento pintado de urucum a empurrar a canoa do índio para o barranco.
Mas essa imagem me pareceu imprecisa ainda.
Estava quase a desistir quando me lembrei do menino montado no cavalo do vento
- que lera em Shakespeare.
Imaginei as crinas soltas do vento a disparar pelos prados com o menino.
Fotografei aquele vento de crinas soltas.

(Manoel de Barros)

sábado, 13 de setembro de 2008

Simples, mágica


De repente você chega em minha vida
De mansinho se aconchega nos meus braços
E me fala de amor e de carinho
E se enrosca docemente em meu abraço
*
De repente você entra no meu mundo
E descobre subtilmente os meus segredos
E me envolve com esses olhos tão profundos
E me beija com essa boca tão macia
*
Ah, você quem será, linda, mágica
Ah, você quem será, linda, mágica
*
Esse riso tão gostoso, esse seu jeito
Esse rosto e essa pele que me queima
Essa coisa tão bonita no meu peito
Esse amor que o coração não faz segredo
*
Eu me deixo envolver por seus carinhos
Nada importa eu já não tenho o que temer
Docemente eu desvendo seus caminhos
E descanso no seu corpo os meus sonhos de amor
*
Livre, solto, simples mágica
Ah, você, quem será, linda, mágica
(Roberto Carlos)