Até breve

É com esta bela imagem que encerro o meu blogue por tempo indeterminado.
Uma imagem que desejo poder ver um dia, ao vivo e a cores, com vida e protagonizada por uma das muitas crianças que sofrem neste momento.
Farei a minha parte, o que me for possível para a tornar uma realidade.

Gosto desta partilha, gosto de ter este blogue e foi e será sempre um prazer mantê-lo, mas, por agora, outros valores falam mais alto e me levam para longe daqui.
Daqui, onde a maior parte de nós se queixa ser difícil viver e critica tudo e todos, mas se pensarmos bem, se olharmos à nossa volta e prestarmos atenção ao que se passa lá fora, perceberemos que talvez nem tenhamos sequer o direito de nos queixarmos de nada, tal é a desgraça, a miséria e a tristeza que se vê por este mundo fora.

A todas as pessoas que seguiram este cantinho de Poesia em Flor, o meu obrigada e o meu desejo de que sejam muito felizes.
Até breve...

Os dois horizontes


Dois horizontes fecham nossa vida:
Um horizonte, — a saudade
Do que não há de voltar;
Outro horizonte, — a esperança
Dos tempos que hão de chegar;
No presente, — sempre escuro,—
Vive a alma ambiciosa
Na ilusão voluptuosa
Do passado e do futuro.
*
Os doces brincos da infância
Sob as asas maternais,
O vôo das andorinhas,
A onda viva e os rosais;
O gozo do amor, sonhado
Num olhar profundo e ardente,
Tal é na hora presente
O horizonte do passado.
*
Ou ambição de grandeza
Que no espírito calou,
Desejo de amor sincero
Que o coração não gozou;
Ou um viver calmo e puro
À alma convalescente,
Tal é na hora presente
O horizonte do futuro.
*
No breve correr dos dias
Sob o azul do céu, — tais são
Limites no mar da vida:
Saudade ou aspiração;
Ao nosso espírito ardente,
Na avidez do bem sonhado,
Nunca o presente é passado,
Nunca o futuro é presente.
*
Que cismas, homem?
– Perdido
No mar das recordações,
Escuto um eco sentido
Das passadas ilusões.
Que buscas, homem? – Procuro,
Através da imensidade,
Ler a doce realidade
Das ilusões do futuro.
*
Dois horizontes fecham nossa vida.
***
(Machado de Assis)

Lágrimas


As lágrimas que rolam no meu rosto
são sinais
da tristeza e do desgosto
por não aguentar mais.
*
Se o sal das lágrimas temperasse
as mágoas do dia a dia
e houvesse quem as secasse
mais feliz me sentiria.
*
Se as lágrimas fossem flores
tudo ao meu redor estaria florido
perfumando as minhas dores
e tudo que tenho sofrido.
***
(Micá)

À procura


A palavra solta-se alada
Correndo para além dos limites.
Tangível,
Tocante
Provocadoramente imemorial.
Na volta do tampo,
No rodar da saia
Vai
À procura do som do vento
À procura de uma boca para morar
No sorriso,
Para varrer as sombras da noite
Relembrando o canto do rouxinol.

A palavra dança na boca do sonho.
O sonho sonha com o riso da água,
A água sente o chapinhar do menino
Na borda do rio.
A palavra ancorada no fio da luz
Solta gemidos sentidos,
Leva recados do tempo
Vai até ti.
***
(Maria José Areal)

20 Aniversario Palabras




20 años de estar juntos
esta tarde se han cumplido
para ti flores, perfumes
para mi, algunos libros
No te he dicho grandes cosas
porque no me habrian salido
ya sabes cosas de viejos
requemor de no haber sido.
Hace tiempo que intentamos
abonar nuestro destino
tu bajabas la persiana
yo apuraba mi ultimo vino.
Hoy en esta noche fria
casi como ignorando el sabor
del la soledad compartida
quise hacerte una cancion
para cantar despacito
como se duerme a los niños
y ya ves,solo palabras
sobre notas me han salido
que al igual que tu y que yo
ni se importan ni se estorban
se soportan amistosas.
mas no son una cancion
que helada esta casa !
sera que esta cerca el rio
o es que estamos en invierno
y estan llegando,estan llegando...
los frios.
20 años de estar juntos
esta tarde se han cumplido
para ti flores, perfumes
para mi, algunos libros

***

(Patxi Andion)

(Dedico este lindo poema ao meu irmão Duarte e minha cunhada Esmeralda)

As máscaras


Piedade para estes séculos e seus sobreviventes
alegres ou maltratados, o que não fizemos
foi por culpa de ninguém, faltou aço:
nós o gastamos em tanta inútil destruição,
não importa no balanço nada disto:
os anos padeceram de pústulas e guerras,
anos desfalecentes quando tremeu a esperança
no fundo das garrafas inimigas.
Muito bem, falaremos alguma vez, algumas vezes,
com uma andorinha para que ninguém escute:
tenho vergonha, temos o pudor dos viúvos:
morreu a verdade e apodreceu em tantas fossas:
é melhor recordar o que vai acontecer:
neste ano nupcial não há derrotados:
coloquemo-nos, cada um, máscaras vitoriosas.
***
(Pablo Neruda)

Lúbrica


Mandaste-me dizer,
No teu bilhete ardente,
Que hás de por mim morrer,
Morrer muito contente.
*
Lançaste no papel
As mais lascivas frases;
A carta era um painel
De cenas de rapazes!
*
Ó cálida mulher,
Teus dedos delicados
Traçaram do prazer
Os quadros depravados!
*
Contudo, um teu olhar
É muito mais fogoso,
Que a febre epistolar
Do teu bilhete ansioso:
*
Do teu rostinho oval
Os olhos tão nefandos
Traduzem menos mal
Os vícios execrandos.
*
Teus olhos sensuais,
Libidinosa Marta,
Teus olhos dizem mais
Que a tua própria carta.
*
As grandes comoções
Tu, neles, sempre espelhas;
São lúbricas paixões
As vívidas centelhas…
*
Teus olhos imorais,
Mulher, que me dissecas,
Teus olhos dizem mais,
Que muitas bibliotecas!
***
(Cesário Verde)

Soneto Antigo


Responder a perguntas não respondo.
Perguntas impossíveis não pergunto.
Só do que sei de mim aos outros conto:
de mim, atravessada pelo mundo.
*
Toda a minha experiência, o meu estudo,
sou eu mesma que, em solidão paciente,
recolho do que em mim observo e escuto
muda lição, que ninguém mais entende.
*
O que sou vale mais do que o meu canto.
Apenas em linguagem vou dizendo
caminhos invisíveis por onde ando.
*
Tudo é secreto e de remoto exemplo.
Todos ouvimos, longe, o apelo do Anjo.
E todos somos pura flor de vento.
***
(Cecília Meireles)

Primeira água


Apaguei os olhos e me deitei no luar
aprisionando algumas estrelas em mim.
O canto dos ventos nas rochas era lento
assim como uma cantiga de ninar criança
estendida além das horas, além do tempo.
Na boca ainda guardava o sabor carmim
do vinho que sorvi com a alegria que buscava.
Pude ouvir a chegada do silêncio devagar
no navegar asas abertas dos meus sonhos.
Pude sentir o frescor da fonte e enchi
meu copo vazio. Primeira água da manhã.
Bebi gole longo e com ele veio o sol
emergindo do horizonte como a bola de
sabão se solta do canudo,vagarosamente,
se libertando na brisa acordando o dia.
Abri meus braços com preguiça, como fazem
as gaivotas com os papos cheios de peixes.
Abri as cortinas do meu olhar e percebi
que o mundo havia virado poema novamente
Então cantarolei como nunca antes e sorri.
***
(António Miranda Fernandes)

Caminho de uma vida


Vida tão concisa,
Sentida na sua futilidade,
Segue seu rumo e nunca avisa,
Traça e desenha a minha personalidade.

Alma só e tão vazia,
Vive rodeada de existência,
Um sorriso oferecido dia após dia,
Irreconhecível na sua essência.

Neste caminho sem sentido,
Arduamente percorrido,
Pedaços de mim deixo ficar,
Sinto-me mudar.

Uma mudança gélida e forçada,
Que molda lentamente,
Esta alma triste e cansada,
Tornando-a frígida e descrente.

O Presente é demoroso,
Sente-se ofegante,
Nervoso e saudoso,
Por um Futuro que é distante.
***
(Patrícia Santos)

Olho a sua boca


Olho a sua boca.
Tanto que vem
o punhal da luz
levar-me os olhos.
O carvão, a cinza dos
meus olhos.
Os seus.
A sua boca,o sulco
onde me pergunta
e eu respondo.
A morrer,
a olhar anavalhado
o seu brilho bravio.
Sons de sirenes, uivos,
estrondos, desabamentos,
ravinas donde rompe o amor.
A sua boca.
***

(Joaquim Manuel Magalhães)

Até ao fim


Mas é assim o poema:
construído devagar,
palavra a palavra,
e mesmo verso a verso,
até ao fim.
O que não sei é como acabá-lo;
ou, até, se o poema quer acabar.
Então, peço-te ajuda:
puxo o teu corpo
para o meio dele,
deito-o na cama da estrofe,
dispo-o de frases
e de adjectivos até te ver,
tu,
o mais nu dos pronomes.
Ficamos assim.
Para trás,
palavras e versos,
e tudo o que
não é preciso dizer:
eu e tu,
chamando o amor
para que o poema acabe.
***
(Nuno Júdice)

Feliz 2010


Votos de um 2010 repleto de alegrias, boas surpresas, muito amor e, claro, muita poesia... para os que gostam.

Receita de Ano novo


Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor de arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação
como todo o tempo já vivido
(mal vivido ou talvez sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser,
novo até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanhe ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens? passa telegramas?).
Não precisa fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar de arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar que,
por decreto da esperança,
a partir de Janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados,
começando pelo direito augusto de viver.
Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo de novo,
eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.
***
(Carlos Drummond de Andrade)

Feliz Aniversário (*)


Durante a noite viajei até ao cume mais alto da estrela polar.
É onde se encontram as flores mais frescas e luminosas jamais vistas pelo homem.
Comigo levei um bando de libelinhas, coordenado pelas fadas do mundo interior.
Disseram-me elas que esta é a forma mais terna de transpostar a verdadeira essência de um perfume, cuja pureza é sorvido pelo esvoaçar das suas asas...
Carregamento efectuado!
Pelo caminho ainda peguei num punhado de estrelas e moldei-as em jeito de caixinha...
Chegados ao meu jardim, a azáfama foi tremenda.
Todos vestidos a rigor preparavam a festança que se avizinha!
Na minha caixinha de estrelas coloquei duas tulipas brancas e pulverizei-as com o mais puro dos perfumes vertido pelas asas das libelinhas.
Os duendes bordavam um tapete de seda com letras multicolores...sorriam e catarolavam!
Fui ao lago das sereias buscar a mais linda e cristalina melodia e impregnei-a na caixinha...
Quando regressei ao vale, onde se situa o meu jardim, estava tudo pronto e sorridente.
Elevei a caixinha aos céus e uma espiral de luz desceu, abraçando-a num gesto terno e de muito carinho...
É hora e chegou o dia!
O tapete eleva-se...as letras irradiam uma luminosidade translúcida...
" Parabéns, Cristiana! "
Cerro a caixa e enlaço-a com a via láctea!...
Um anjo descerá e depositará em ti esta caixinha mágica...sempre que a abrires, escutarás a melodia das sereias, sentirás a dança das tulipas e inalarás o perfume que emanam...
Feliz aniversário!
***
(Nuno)
(*) Não é um poema, mas está recheado de poesia. Não foi escrito por um poeta, mas foi escrito por uma pessoa que me é querida, o que por si só, e se mais razão alguma não existisse, já justificaria deixá-lo aqui exposto.
É um texto lindíssimo e por isso mesmo nunca deixaria de publicar neste meu jardim.
Faço-o não por vaidade, embora me sinta muito lisongeada, mas sim porque merece este destaque.
Merece o texto e merece o autor. Obrigada, Nuno)

Poesia de Natal


Chove. É dia de Natal.
Lá para o Norte é melhor:
Há a neve que faz mal,
E o frio que ainda é pior.
*
E toda a gente é contente
Porque é dia de o ficar.
Chove no Natal presente.
Antes isso que nevar.
*
Pois apesar de ser esse
O Natal da convenção,
Quando o corpo me arrefece
Tenho o frio e Natal não.
*
Deixo sentir a quem a quadra
E o Natal a quem o fez,
Pois se escrevo ainda outra quadra
Fico gelado dos pés.
***
(Fernando Pessoa)
(Aproveito para desejar um Natal muito feliz a todas as pessoas que por aqui têm passado, muito em especial ao José Luís.)

Tarde


A tarde trabalhava
sem rumor
no âmbito feliz das suas nuvens,
conjugava
cintilações e frémitos,
rimava
as ténues vibrações do mundo,
quando vi
o poema organizado nas alturas
reflectir-se aqui,
em ritmos, desenhos,
estruturas
duma sintaxe que produz
coisas aéreas como o vento e a luz.
***
(Carlos de Oliveira)

Cais


Nunca parti deste cais
e tenho o mundo na mão!
Para mim nunca é demais
responder sim
cinquenta vezes a cada não.
Por cada barco que me negou
cinquenta partem por mim
e o mar é plano e o céu azul sempre que vou!
Mundo pequeno para quem ficou...
***
(Manuel Lopes)

A minha solidão


A minha solidão
não é uma invenção
para enfeitar noites estreladas…

… Mas este querer arrancar a própria sombra do chão
e ir com ela pelas ruas de mãos dadas.

… Mas este sufocar entre coisas mortas
e pedras de frio
onde nem sequer há portas
para o calafrio.

… Mas este rir-me de repente
no poço das noites amarelas…
- única chama consciente
com boca nas estrelas.
… Mas este eterno Só-Um
(mesmo quando me queima a pele o teu suor)-
sem carne em comum
com o mundo em redor.

… Mas este haver entre mim e a vida
sempre uma sombra que me impede
de gozar na boca ressequida
o sabor da própria sede.

… Mas este sonho indeciso
de querer salvar o mundo
- e descobrir afinal que não piso
o mesmo chão do pobre e do vagabundo.

… Mas este saber que tudo me repele
no vento vestido de areia…
e até, quando a toco, a própria pele
me parece alheia…

Não. A minha solidão
Não é uma invenção
Para enfeitar o céu estrelado…

… mas este deitar-me de súbito a chorar no chão
e agarrar a terra para sentir um Corpo Vivo a meu lado.
***
(José Gomes Ferreira)

Fuga


Aos ventos espalhei a cinza dos meus gestos.
Num desprezo de mim, fiz-me poeta,
traí os meus sonhos, enchendo vãos papéis
de traços sem sentido e talvez falsos.
Fui poeta como alguns se suicidam,
como outros partem sem destino certo.
Sonhei-me longe de tudo o que possuo
- longe de mim, longe de quem?-
afastado, sem contas a prestar...
Foi longo o meu engano.
Agora vejo
que nunca de mim eu me afastei...
***
(Adolfo Casais Monteiro)

Versos quase tristes



Trago no sangue o mistério
daquele resto de estrada
que não andei...
E era talvez ali
que eu ia ser feliz:
ali

que viriam as Fadas pra contar-me
os contos lindos das Princesas
e de Palácios
e de Florestas
que ficaram por contar;
ali que havia de abrir-se
o tal jardim
com flores que nunca morrem
ou, se morrem, há-de ser
na pujança da frescura
por medo de envelhecer...

Mas não passei além da curva...
O meu alento
já dobrou o joelho, desistiu.
E eu sei tão bem que há Glória que me chama
e que tudo que digo aqui, ou faço,
é só arremedar, adivinhar,
o que, pra lá da curva que não passo,
havia de fazer ou de dizer!

E eu sei tão bem
que sem tomar nas mãos a Glória apetecida
me não contento!...
- Por que é que tu és só pressentimento,
minha vida?
***
(Sebastião da Gama)

Reconhecimento à loucura


Já alguém sentiu a loucura
vestir de repente o nosso corpo?
Já.
E tomar a forma dos objectos?
Sim.
E acender relâmpagos no pensamento?
Também.
E às vezes parecer ser o fim?
Exactamente.
Como o cavalo do soneto de Ângelo de Lima?
Tal e qual.
E depois mostrar-nos o que há-de vir
muito melhor do que está?
E dar-nos a cheirar uma cor
que nos faz seguir viagem
sem paragem
nem resignação?
E sentirmo-nos empurrados pelos rins
na aula de descer abismos
e fazer dos abismos descidas de recreio
e covas de encher novidade?
E de uns fazer gigantes
e de outros alienados?
E fazer frente ao impossível
atrevidamente
e ganhar-Ihe, e ganhar-Ihe
a ponto do impossível ficar possível?
E quando tudo parece perfeito
poder-se ir ainda mais além?
E isto de desencantar vidas
aos que julgam que a vida é só uma?
E isto de haver sempre, ainda mais,
uma maneira pra tudo?
Tu só, loucura, és capaz de transformar o mundo
tantas vezes quantas sejam as necessárias
para olhos individuais
Só tu és capaz de fazer que tenham razão
tantas razões que hão-de viver juntas.
Tudo, excepto tu, é rotina peganhenta.
Só tu tens asas para dar
a quem tas vier buscar.
***
(José de Almada Negreiros)

Imprevisto corrigido


Se minto? Quantas vezes!
Mas em palavras.
Não nos meus olhos castanhos,
Nestas linhas atávicas da mão…
Se minto?... Minto, pois!
Mas nas orais palavras que vos digo,
Não nas que estão a sós comigo,
E em que enfim deixo de ser dois.
Não nas que entrego a músicas, miragens,
Alegorias, fábulas, mentiras,
Cadências, símbolos, imagens,
Ecos da minha e mil milhões de liras.
Se minto?... Minto!
É regra de viver.
Mas não quando, poeta, me desnudo,
E a mim me visto de inocência e a tudo.
Venha quem saiba ver!
Venha quem saiba ler!
***
(José Régio)

As palavras


Há palavras que são sombras de árvores
ou um bálsamo da terra,
um pressentimento de espuma,
um incêndio do tacto,
uma reverência ao desconhecido.
Amo as palavras que são às vezes sonâmbulos cavalos,
satélites de granito,
raparigas cegas no fundo das casas,
veias de uma estrela submarina.
Como não amá-las pela brisa
se são pétalas de um clamor silencioso
ou anjos sossegados dormindo sobre a terra
ou lúcidas e ébrias, majestosas e puras,
magníficas como um dorso recamado de estrelas,
intacta revelação de invioladas luas?
Desconfio das palavras, mas às vezes são leves, musicais
aves que planam sobre uma cidade branca,
ilhas mágicas, selados vasos, cordeiros recém-nascidos,
caravanas vermelhas, armadilhas de cristal,
amoroso tremor da matéria terrestre.
Como um boi nocturno das águas eu procuro
essas guitarras plantadas nas plantas
que através de eclipses e da distância
erguem uma árvore de música ou uma pirâmide
ou as lianas vivas que me defendem dos abismos.
Como estátuas de ar as palavras levantam-se
na harmonia delirante do nómada do deserto.
Quer sejam suspiros entre os arbustos ou sonâmbulas melodias
estão sempre à altura dos seus próprios desejos.
Quer o cérebro sangre ou a terra estremeça
o seu cerimonial é inesgotável, as suas relíquias vivas.
São abelhas ou astros que buscam alimento
nos ninhos de amêndoas ou nos espelhos da lua?
Amo as palavras, acredito nos seus cristais secretos,
nos seus cavalos subterrâneos, nos seus densos diamantes.
Escrevo-as com minucioso ardor entre nascentes e sombras,
sei que são anjos de argila, antiquíssmos arqueiros
que disparam as flechas de erva sobre estrelas vivas.

***
(António Ramos Rosa)

A pequena angústia


Mais perto de mim são as estrelas
neste jardim,
do que os homens
sentados a meu lado.
As estrelas brilham.
Os homens falam lá entre eles.
Não escutam o silêncio
os homens que falam
neste jardim.
As estrelas falam
perto de mim.
***

(Ruy Cinatti)

Quase perfeito



Sabe bem ter-te por perto
Sabe bem tudo tão certo
Sabe bem quando te espero
Sabe bem beber quem quero
*
Quase que não chegava
A tempo de me deliciar
Quase que não chegava
A horas de te abraçar
Quase que não recebia
A prenda prometida
Quase que não devia
Existir tal companhia
*
Não me lembras o céu
Nem nada que se pareça
Não me lembras a lua
Nem nada que se escureça
Se um dia me sinto nua
Tomara que a terra estremeça
Que a minha boca na tua
Eu confesso não sai da cabeça
*
Se um beijo é quase perfeito
Perdidos num rio sem leito
Que dirá se o tempo nos der
O tempo a que temos direito
*
Se um dia um anjo fizer
A seta bater-te no peito
Se um dia o diabo quiser
Faremos o crime perfeito
***
(Miguel A. Majer)
Obs: Música cantada pelos Donna Maria

A sofreguidão de um instante


Tudo renegarei menos o afecto,
e trago um ceptro e uma coroa,
o primeiro de ferro, a segunda de urze,
para ser o rei efémero
desse amor único e breve
que se dilui em partidas
e se fragmenta em perguntas
iguais às das amantes
que a claridade atordoa e converte.
Deixa-me reinar em ti
o tempo apenas de um relâmpago
a incendiar a erva seca dos cumes.
E se tiver que montar guarda,
que seja em redor do teu sono,
num êxtase de lábios sobre a relva,
num delírio de beijos sobre o ventre,
num assombro de dedos sob a roupa.
Eu estava morto e não sabia, sabes,
que há um tempo dentro deste tempo
para renascermos com os corais
e sermos eternos na sofreguidão de um instante.
***
(José Jorge Letria)

Um outro tanto


Não sei como consigo
amar-te tanto
se querer-te assim na minha fantasia
é amar-te em mim
e não saber já quando
de querer-te mais eu vou morrer um dia
perseguir a paixão até ao fim é pouco
exijo tudo até perder-me
enquanto, e de um jeito tal que desconhecia,
poder amar-te ainda
um outro tanto.
***
(Maria Teresa Horta)

Nascimento último



Como se não tivesse substância e de membros apagados.
Desejaria enrolar-me numa folha e dormir na sombra.
E germinar no sono, germinar na árvore.
Tudo acabaria na noite, lentamente, sob uma chuva densa.
Tudo acabaria pelo mais alto desejo num sorriso de nada.
No encontro e no abandono, na última nudez,
respiraria ao ritmo do vento, na relação mais viva.
Seria de novo o gérmen que fui, o rosto indivisível.
E ébrias as palavras diriam o vinho e a argila
e o repouso do ser no ser, os seus obscuros terraços.
Entre rumores e rios a morte perder-se-ia.
***
(António Ramos Rosa)

Vento

Hoje abandonei-me ao vento,
deixei-o passar pelos meus cabelos
e inalei o teu imenso alento.
Do meu corpo despojei as mágoas
e deixei-me enfeitiçar.
*
Sabia bem que estivesses aqui,
que me desses a mão e me abraçasses.
Sentavas-te a meu lado e sorrias.
Sorrias sempre que eu abrisse
os olhos do pestanejar lento.
*
Sabe-me bem a tua voz a ressuscitar
aos pulos este coração outrora demente.
Deixa-te estar pertinho do meu ouvido.
Deixa-te ficar pertinho do meu coração
enquanto ele te fizer sorrir.
*
Tu és tudo para mim...
***
(Dana Marte)

Angela Adonica



Hoje deitei-me junto a uma jovem pura
como se na margem de um oceano branco,
como se no centro de uma ardente estrela
de lento espaço.
*
Do seu olhar largamente verde
a luz caía como uma água seca,
em transparentes e profundos círculos
de fresca força.
*
Seu peito como um fogo de duas chamas
ardia em duas regiões levantado,
e num duplo rio chegava a seus pés,
grandes e claros.
*
Um clima de ouro madrugava apenas
as diurnas longitudes do seu corpo
enchendo-o de frutas extendidas
e oculto fogo.
***
(Pablo Neruda)

Estudo de nu


Essa linha que nasce nos teus ombros,
Que se prolonga em braço, depois mão,
Esses círculos tangentes, geminados,
Cujo centro em cones se resolve,
Agudamente erguidos para os lábios
Que dos teus se desprenderam, ansiosos.
*
Essas duas parábolas que te apertam
No quebrar onduloso da cintura,
As calipígias ciclóides sobrepostas
Ao risco das colunas invertidas:
Tépidas coxas de linhas envolventes,
Contornada espiral que não se extingue.
*
Essa curva quase nada que desenha
No teu ventre um arco repousado,
Esse triângulo de treva cintilante,
Caminho e selo da porta do teu corpo,
Onde o estudo de nu que vou fazendo
Se transforma no quadro terminado.
***
(José Saramago)

Dois poemas


Em que idioma te direi
este amor sem nome
que é servo e rei?
*
Como o direi?
Como o calarei?
*
É como se a noite se molhasse
repentinamente, quando choras.
É como se o dia se demorasse,
quando te espero e tu te demoras.
***
(Albano Martins)

De esperas construímos o amor...


De esperas construímos o amor intenso e súbito
que encheu as tuas mãos de sol e a tua boca de beijos.
Em estranhos desencontros nos amamos.
Havia o rio mas sempre ficávamos na margem.
Eu tocava o teu peito e os teus olhos e, nas minhas mãos,
a tarde projectava as suas grandes sombras
enquanto as gaivotas disputavam sobre a água
talvez um peixe inquieto, algo que nunca pudemos ver.
As nossas bocas procuravam-se sempre, ávidas e macias
E por muito tempo permaneciam assim, unidas,
machucando-se, torturando as nossas línguas quase enlouquecidas.
Depois olhávamo-nos nos olhos.
No mais profundo silêncio.
E, sem palavras,partíamos com as mãos docemente amarradas
e os corações estoirando uma alegria breve
Quando a noite descia apaixonada
Como o longo beijo da nossas despedida.
***
(Joaquim Pessoa)

Acho que é isso...


tem os que passam
e tudo se passa
com passos já passados
tem os que partem
da pedra ao vidro
e tem, ainda bem,
os que deixam
a vaga impressão
de ter ficado
***
(Alice Ruiz)

O amor é uma companhia


Já não sei andar só pelos caminhos,
Porque já não posso andar só.
Um pensamento visível
faz-me andar mais depressa
E ver menos, e ao mesmo tempo
gostar bem de ir vendo tudo.
Mesmo a ausência dela
é uma coisa que está comigo.
E eu gosto tanto dela
que não sei como a desejar.
Se a não vejo, imagino-a
e sou forte como as árvores altas.
Mas se a vejo, tremo,
não sei o que é feito
do que sinto na ausência dela.
Todo eu sou qualquer força
que me abandona.
Toda a realidade olha para mim
como um girassol
com a cara dela no meio.
***
(Alberto Caeiro)

Amor


Apesar de tudo,
há um caso de amor
entre mim e a vida.
***
(António de Lacerda)

Amor da palavra, amor do corpo


A nudez da palavra que te despe.
Que treme, esquiva.
Com os olhos dela te quero ver,
que te não vejo.
Boca na boca, através de que boca
posso eu abrir-te e ver-te?
É meu receio que escreve e não o gosto
do sol de ver-te?
Todo o espaço dou ao espelho vivo
e do vazio te escuto.
Silêncio de vertigem, pausa, côncavo
de onde nasces, morres, brilhas, branca?
És palavra ou és corpo unido em nada?
É de mim que nasces ou do mundo solta?
Amorosa confusão, te perco e te acho,
à beira de nasceres tua boca toco
e o beijo é já perder-te.
***
(António Ramos Rosa)

Caminho encontrado


Razão e loucura
Abismo de mãos
E gestos em fúria
Palavras
Silêncios
E corpos suspensos
Nas bocas a febre
Nos olhos delírio
Regresso de noite
Caminho encontrado.
***
(Manuela Amaral)

Os teus lábios


Inclina para mim os teus lábios
e que ao sair da minha boca
a minha alma volte a entrar dentro de ti.
***
(Denis Diderot)

Breve


É só o tempo de acordar
suspenso nas cores de um paraíso
que embriaga esta nossa corrida.
É só o instante de sentir
o perfume da flor escondida
que as mãos não saberão colher.
É só o momento de querer
abraçar outro eu que está só
algures à espera de um sorrir.
É só o tempo de ser breve,
beber num sopro este existir
e morrer sem outro acordar.
***
(Miguel do Carmo)

...


Original é o poeta
que se origina a si mesmo
que numa sílaba é seta
noutro pasmo ou cataclismo
o que se atira ao poema
como se fosse um abismo
e faz um filho às palavras
na cama do romantismo.
Original é o poeta
capaz de escrever um sismo.

Original é o poeta
de origem clara e comum
que sendo de toda a parte
não é de lugar algum.
O que gera a própria arte
na força de ser só um
por todos a quem a sorte
faz devorar um jejum.
Original é o poeta
que de todos for só um.
Original é o poeta
expulso do paraíso
por saber compreender
o que é o choro e o riso;
aquele que desce á rua
bebe copos quebra nozes
e ferra em quem tem juízo
versos brancos e ferozes.
Original é o poeta
que é gato de sete vozes.
Original é o poeta
que chega ao despudor
de escrever todos os dias
como se fizesse amor.
Esse que despe a poesia
como se fosse uma mulher
e nela emprenha a alegria
de ser um homem qualquer.
***
(Ary dos Santos)
(Singela homenagem a este grande poeta nascido neste dia, em 1937)

A falha do destino


Por vezes a razão das
sombras é tão concreta
que escurece até o
querer dos próprios
passos
Por vezes não se pode
ser mais que um ponto
no vazio, um respirar
contra vontade
o gume de uma dor
que pode ser
Por vezes, todos os
caminhos se transformam
em escarpas, uns, os outros
em abismos e a falha
traiçoeira do destino
não deixa hoje acreditar
nas armas que amanhã
empunharemos
***
(Vasco Pontes)

Bandeira Branca

E a estrela perdeu-se na noite deserta...
Tentar procurá-la, para quê, se era em vão?
Deixaram-me em casa com a porta aberta
Mas eu bem compreendo que estou em prisão.
*
Talvez que pensassem mal imaginário
a mágoa de uns olhos em rosto bravio
Mas eu bem me sinto peixe em aquário
e sei a amargura de sonhá-lo num rio.
*
Mas eu bem compreendo o cruel desalento
dos gestos frustrados, perdidos no ar.
Foi curta a mensagem, findou meu tormento.
E não vale a pena o que está por contar.
***
(Maria Manuela Couto Viana)

Sozinha


solidão que tanto temem
que tanto ignoram o bem que faz
sozinha não minto, não finjo
não causo nenhum escarcéu
sozinha não maltrato, não disfarço
não há pesquisa que me sonde
sozinha não retruco, não provoco
não deixo ninguém sem resposta
sozinha não julgo nem condeno
não trato ninguém como réu
sozinha não grito, não rogo praga
não renego meu deleite
sozinha não trapaceio, não peco
não falto nem chego atrasada
sozinha não sumo, não volto
não tenho presença notada
sozinha eu sou quem eu posso
sozinha eu faço o que quero
sozinha não há céu que me rejeite
***
(Martha Medeiros)

Na sensação do partilhar


Quero um amor que não se desvaneça
no meio da noite
e que em cada percurso
tenha em mente
o ir e o vir...
Assim viverei
sem aqueles temores
que abalam só a juventude
dos relacionamentos...
Poderei bailar nas estrelas,
mergulhar no oceano,
sentir-me leve como as brumas da manhã,
banhar-me na chuva
contando com o aconchego
do agasalho amparando-me
e me elevando na sensação de partilhar.
***
(Carmen Lúcia da Silva)

Poema ao amor


Me encantam teus olhos que brilham
Tuas suaves mãos que me acalantam,
Teus traços bem feitos onde trilham
Meus doces beijos que te encantam.
*
E tua voz murmurando em meu ouvido
Faz minha pele todinha se arrepiar,
Sabes que esta vida não teria sentido,
Se eu fosse proibida de te amar.
*
E me flagro com teu rosto em minha mente
Alternando tuas palavras em meus pensamentos,
Lembro-me cada verso, cada semente
Semeada em nossa alma em todos os momentos.
*
E, pudesse eu, cantaria agora ao mundo,
Que te amo e que este amor é tão bonito!
Registraria em todo canto, a cada segundo,
Maior que o meu amor, nem mesmo o infinito!
***
(Ivone da Conceição R. Carvalho)

Entre o real e o imaginário


Às vezes choramos
encostados a uma saudade
ou entristecemos
eivados de melancolia.
Outras vezes voltamos
numa dor distante
sem razão de ser.
É assim o tempo
dividido entre o real e o imaginário,
sentimo-nos cercados
e lamenta-se o tempo perdido.
É tempo de romper com tudo,
é tempo de libertar
as imagens e as palavras.
É tempo de unir o peito
a outro peito
e fingir que tudo é perfeito.
***
(Desconheço o autor)

Poema de amor - Colar de pérolas


Eu tenho um colar de pérolas
Enfiado para te dar:
As pérolas são os meus beijos,
O fio é o meu pesar.
***
(Fernando Pessoa)

Para ti


Fiquei louco, fiquei tonto
meus beijos foram sem conto
apertei-te contra mim
enlacei-te nos meus braços
embriaguei-me de abraços
fiquei louco e foi assim
dá-me beijos, dá-me tantos
que enleado em teus encantos
preso nos abraços teus
eu não sinta a própria vida
nem minha alma, ave perdida
no azul amor dos teus céus
***
(Fernando Pessoa)

O amor quando se revela


O amor, quando se revela,
não se sabe revelar.
Sabe bem olhar p’ra ela,
mas não lhe sabe falar.
*
Quem quer dizer o que sente
não sabe o que há de dizer.
Fala: parece que mente.
Cala: parece esquecer.
*
Ah, mas se ela adivinhasse,
se pudesse ouvir o olhar,
e se um olhar lhe bastasse
pra saber que a estão a amar!
*
Mas quem sente muito, cala;
quem quer dizer quanto sente
fica sem alma nem fala,
fica só, inteiramente!
*
Mas se isto puder contar-lhe
o que não lhe ouso contar,
já não terei que falar-lhe
porque lhe estou a falar…
***
(Fernando Pessoa)

Apelo


Atravessa os caminhos da noite
e vem.
Nas fontes, vivas,
do meu corpo
saciarás a tua sede.
Os ramos dos meus braços
serão sombra rumorejante
ao teu sono, exausto.
Atravessa os campos da noite
e vem.
***
(Luísa Dacosta)

Na palma da tua mão


e na palma da tua mão
busco ternura
sem contar meses,
anos,dias,
sem saber dizer
se já te chorei
por inteiro
o suficiente
para não voltar
a perder-te
***
(Vasco Gato)

***


Eu, sempre
me soube
defender
em todas
as circunstâncias…
menos na circunstância
de te amar
***
(Luís Mendes)

Perfil de Primavera


Perfil de Primavera
Nas mãos que eu ergo acima desta ausência.
O meu sangue desperta, cria raízes no teu sangue
Nos jardins desertos da nossa solidão.
As minhas mãos, as tuas mãos, os corpos abraçados
E a única cidade construída para o nosso amor:
Nua, inquieta, clandestina.
A tua boca no meu peito.
Os beijos demorados.
E todos os silêncios.
As ruas que eu abri no teu olhar
Começam nos meus dedos.
Vem,
Eu amo-te.
***
(Joaquim Pessoa)

Para ti


Foi para ti
que desfolhei a chuva
para ti soltei o perfume da terra
toquei no nada
e para ti foi tudo
Para ti criei todas as palavras
e todas me faltaram
no minuto em que talhei
o sabor do sempre
Para ti dei voz
às minhas mãos
abri os gomos do tempo
assaltei o mundo
e pensei que tudo estava em nós
nesse doce engano
de tudo sermos donos
sem nada termos
simplesmente porque era de noite
e não dormíamos
eu descia em teu peito
para me procurar
e antes que a escuridão
nos cingisse a cintura
ficávamos nos olhos
vivendo de um só
amando de uma só vida
***
(Mia Couto)

Receber-te


É mais fácil de longe imaginar
o que seria ter-te aqui presente
do que seria ter-te e não saber
com que forma do corpo receber-te…
***
(António Franco Alexandre)

O sorriso


Falta-me ainda construir o poema
que sem rodeios cantará
a festa de estar contigo.
Entretanto, exploro um tema,
sedento de palavras que não há
para dizer o que digo:
o infindável tema do sorriso
que te marca o olhar.
E de nada mais preciso
para continuar.
***
(Torquato da Luz)

Entraste...


Entraste na casa do meu corpo,
desarrumaste as salas todas
e já não sei quem sou, onde estou.
O amor sabe.
O amor é um pássaro cego
que nunca se perde no seu voo.
***
(Casimiro de Brito)

Duas faces


Sou o espanto
sou a dor
sou o desencanto.
No entanto,
tão serena
sou amor,
só amor.
***
(Odaísa T. do Nascimento Narcizo)

A luz que vibre


A luz que vibre
sobre o teu rosto
O mar que oscile
sob os teus ombros
O que me atinge
vem de mais longe
lá dos confins
em que te sonho
***
(David Mourão-Ferreira)

Soneto 1


Passei ontem a noite junto dela.
Do camarote a divisão se erguia
Apenas entre nós – e eu vivia
No doce alento dessa virgem bela…
*
Tanto amor, tanto fogo se revela
Naqueles olhos negros! Só a via!
Música mais do céu, mais harmonia
Aspirando nessa alma de donzela!
*
Como era doce aquele seio arfando!
Nos lábios que sorriso feiticeiro!
Daquelas horas lembro-me chorando!
*
Mas o que é triste e dói ao mundo inteiro
É sentir todo o seio palpitando…
Cheio de amores! E dormir solteiro!
***
(Álvares de Azevedo)

Doçura do silêncio


O céu escureceu e a chuva veio rápida
Fez pessoas correrem pisando poças d’água
Com passos desencontrados
*
Hipnotizou sob as marquises toda gente
E os olhares se tornaram distantes
Perdidos em quietudes e coisas do coração
*
Do lado de dentro de uma das janelas
Uma moça olhava o embaçado do vidro
*
Com a ponta do dedo e riscos de inundação
Inventou a imagem de um namorado
*
Desejou que ele permanecesse
Ficou imóvel como esperasse um beijo
Para não acordar a doçura do silêncio
***
(António Miranda Fernandes)

Sonho Cristalino


Quando fecho os olhos
Sinto o silêncio da tua alma no meu corpo
E a brisa fresca da noite gela-me os sentidos
Perco a noção da vida, esqueço-me de viver.
A madrugada leva-me longe,
Longe do mundo e da saudade,
Dos gritos frios da monotonia.
Quanta calma, quanta paz
Abraça o meu cansaço
E despe de mim as roupas da nostalgia
Lá longe não sei aonde, aonde tudo é cristalino
Como as águas que nascem no horizonte.
Os desejos são eternos e as vontades mendigas
São como a luz de quem não vê e os olhos
Que tudo invejam
Quando fecho os olhos, não durmo, viajo
Para lá da eternidade...
***
(Conceição Bernardino)

Sei de...


Sei de tudo.
sei de tudo o que não vês,
sei de tudo o que não sentes.

Sei de ontem
da fome que se desprende de ti,
Sei de hoje
a vontade que te promete auroras boreais.

Sei de mim
de tudo o que sinto
e de tudo que queria não ter.

Sei de mim
do rego cavado no peito
e do cheiro deste amor desatinado.

Sei de nós
do que somos e queremos,
do que temos e tememos
dos nacos de luz que nos iluminam,
dos fios azuis que nos atam à vida.

Sei de ti.
Sei de mim
Será que sei de nós?
***
(Maria José Areal)

O amor é


O amor é
um nome de mulher
na boca de um homem.
*
O amor é
uma flor perfeita
na lapela de um homem só.
*
O amor é
um continente sem fronteiras
para que tudo aconteça.
*
O amor é
a alegria do corpo
sem vergonha de amar.
*
O amor é
dividir somente
o que se pode partilhar.
*
O amor é
uma cidade azul
no dorso de uma nuvem.
*
O amor é
um rapaz loucamente
apaixonado por uma rapariga.
*
O amor é
tão fácil e tão simples
que até se torna difícil.
*
O amor é
tudo aquilo que um dia
ganhamos coragem para ser.
*
O amor é
gostarmos de nós
e sabermos porquê.
***
(José Jorge Letria)

Sopra um vento


Sopra um vento entre mim e ti
nascido como todos
quando escavávamos dentro de nós
escavando a distância
foi já tempestade fechada em nevoeiro
hoje é apenas brisa
afrouxada na distância
recebo esse sopro suave como uma carícia
de quem ao largo me acena
enquanto parte
sempre entre nós um vento
ar com que te respiro
enquanto o longe nos escava
a distância
***
(Ana Viana)

Não basta


Não.
Não basta saber que existes.
É como estar sedenta
E saber que existe água
É como estar faminta
E saber que há pão
É doer, definhar
E saber que existe um bálsamo.
Não.
Não basta saber que existes
É preciso que estejas.
***
(Encandescente)

Cantiga


Deixa-te estar na minha vida
Como um navio sobre o mar.
Se o vento sopra e rasga as velas
E a noite é gélida e comprida
E a voz ecoa das procelas,
Deixa-te estar na minha vida.
Se erguem as ondas mãos de espuma
Aos céus, em cólera incontida,
E o ar se tolda e cresce a bruma,
Deixa-te estar na minha vida.
À praia, um dia, erma e esquecida,
Hei, com amor, de te levar.
Deixa-te estar na minha vida.
Como um navio sobre o mar.
***
(Cabral do Nascimento)

A canção possível


Poderei ainda, amor, cantar
o exercício da insuportável ternura
sem que a vida sucumba
às cicatrizes do passado?
*
Por mais que digamos,
as nossas bocas morrendo uma na outra,
entre espasmos,
ainda a rosa é pálida
e os nossos dedos não passarão de mendigos
que se tocam na espuma dos dias.
*
Por mais que digamos,
as palavras jamais saberão o caminho
que lhes é devido,
o caminho das flores do silêncio
esse o único que salva o amor,
cravando-o na boca de Deus.
*
É noite, ainda, meu amor,
e a lua vem beijar-te os ombros
o teu corpo procura o lugar do meu,
como se nenhum outro coubesse dentro dele
antigo como a noite.
*
E os dedos serão ainda em torno da luz,
buscando a chama, o fruto,
a ferida que as tuas palavras
rasgaram no meu corpo
em volta dessa insuportável ternura.
***
(Maria João Cantinho)

Escrevo de pé andando



assim mesmo, sim, cabisbaixo
declamo frases prontas, teorias
na passarela, coisa de mostruário
*
(a vida pulsa nas calçadas
e o vento nos envolve
— indistintamente — ,
portas entreabertas)
*
pássaros sem asas, telefones mudos
caminhos sem destino, inquietação
— estamos no umbral sem fundo.
*
janelas sem paisagens, muros cariados,
estamos sendo devorados
e festejamos nosso conformismo
*
acho que estão nos filmando
e disfarço, busco o gesto adequado
— vou ser visto, lido
— um horror!
*
a palavra imortaliza, mas eu passo.
eu tergiverso, busco as engrenagens
e antecipo a morte — liquefaço.
*
deixo um rastro de palavras ocas
ecos de vozes instigantes, que cobram
atropelam— eu fluo e fujo, às vezes
***
(António Miranda)

Vôo sobre fogo


Poemas são pássaros,
palavras, passo a passo, à disposição do acaso
ou desvelando indesejáveis verdades
Sem alarde - silencioso sofrimento -
passam no fim de tarde - sílabas de poente solidão -
aquarelando saudades nunca imaginadas...
*
Destino já não há, apenas um eterno seguir
Seguir em busca da idealizada liberdade sob o sol
E não importa o tempo, entregue ao vento,
o intento só perderá seu alento
quando a montanha transformar-se em pó
*
Estes pássaros-poemas, voando a esmo neste espaço,
são refrações, significâncias pouco traduzíveis...
Letras que se desprendem de uma triste história
e despencam nesta cinza tarde de inverno
A memória traz quadros de onde fogem figuras
e o que permanece são vazias e inquietantes molduras
Estes pássaros, em meio a tantas tormentas,
já não acreditam ser possível encontrar o oásis
O verdadeiro porto-seguro é o invisível vôo,
pois o futuro - olhos fechados - tropeça em coisas e pessoas
*
O cansaço é mais uma peça pregada pelo destino
E por mais que precisem e tentem, regresso já não,
Pois - nas nuvens - apagadas foram todas as pegadas
Por entre as últimas réstias do sol,
aos pássaros só resta alçar mais um vôo pelos desvãos do céu
Mas com eles também pesadamente vão
a certeza de desperdício e o completo desencanto
*
Não tem talvez: estes pássaros-poemas sou eu mesmo,
Mergulhando, sem qualquer preocupação com a volta,
profundamente no dilema da vez.
***
(Raimundo Gadelha)

Chove


Chove...
Mas isso que importa,
se estou aqui abrigado nesta porta
a ouvir a chuva que cai do céu
uma melodia de silêncio
que ninguém mais ouve
senão eu?
Chove...
Mas é do destino
de quem ama
ouvir um violino
até na lama.
***
(José Gomes Ferreira)

A mão torturada por um olhar


Somos duas chamas ardentes,
somos duas estrelas cadentes.
Somos como cão e gato,
como um ser inadaptado
com vontade de viver
e condenados a amar.
A mão torturada por um olhar
um lírio e uma margarida amando-se,
sem deixar de abrir a cúpula de uma ferida
sentida e de vida sofrida.
No entanto, a sereia canta como lira de Orfeu
para aliviar a alma do seu amor ateu...
***
(Tília Ramos)

Renúncia


Renunciar. Todo o bem que a vida trouxe,
Toda a expressão do humano sofrimento
A gente esquece assim como se fosse
Um vôo de andorinha em céu nevoento.
*
Anoiteceu de súbito. Acabou-se.
Tudo… A miragem do deslumbramento…
Se a vida que rolou no esquecimento
Era doce, a saudade inda é mais doce.
*
Sofre de ânimo forte, alma intranquila!
Resume na lembrança de um momento
Teu amor. Olha a noite: ele cintila.
*
Que o grande amor, quando a renúncia o invade,
Fica mais puro porque é pensamento,
Fica muito maior porque é saudade.
***
(Carneiro da Cunha)

Pobre Amor


Calcula, minha amiga, que tortura!
Amo-te muito e muito, e, todavia,
Preferira morrer a ver-te um dia
Merecer o labéu de esposa impura!
*
Que te não enterneça esta loucura,
Que te não mova nunca esta agonia,
Que eu muito sofra porque és casta e pura,
Que, se o não foras, quanto eu sofreria!
*
Ah! Quanto eu sofreria se alegrasses
Com teus beijos de amor, meus lábios tristes,
Com teus beijos de amor, as minhas faces!
*
Persiste na moral em que persistes.
Ah! Quanto eu sofreria se pecasses,
Mas quanto sofro mais porque resistes!
***
(Aluísio Azevedo)

Motivo


Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.
*
Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.
*
Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
— não sei, não sei.
Não sei se fico ou passo.
*
Sei que canto.
E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
— mais nada.
***
(Cecília Meireles)

Talvez


Talvez até a Vida seja simples.
Os meus lábios são, por exemplo,
feitos de vento
e a minha voz é uma cortina de fumo
para me defender do frio.
*
Lembrei-me um dia
de cortar os dedos
para não mais escrever poesia.
(Nunca chorei tanto
em toda a minha Vida!...)
*
Hoje tenho a convicção das dunas,
sei que os meus cabelos
escrevem 365 livros por ano
e procuro sozinha o Infinito.
***
(Maria Azenha)

O poeta e a vida


Contra a angústia,
a solidão e o medo
ergo os versos
e não cedo.
*
Quebro-os
– lança imaginária –
na página da Vida.
E é por ela
que os escrevo.
***
(Carlos Carranca)

O Pai


Terra de semente inculta e bravia,
terra onde não há esteiros ou caminhos,
sob o sol minha vida se alonga e estremece.
*
Pai, nada podem teus olhos doces,
como nada puderam as estrelas
que me abrasam os olhos e as faces.
*
Escureceu-me a vista o mal de amor
e na doce fonte do meu sonho
outra fonte tremida se reflecte.
*
Depois... Pergunta a Deus
porque me deram o que me deram
e porque depois conheci a solidão do céu e da terra.
*
Olha, minha juventude foi um puro botão
que ficou por rebentar
e perde a sua doçura de seiva e de sangue.
*
O sol que cai e cai eternamente cansou-se de a beijar...
E o Outono.
Pai, nada podem teus olhos doces.
*
Escutarei de noite as tuas palavras:
... menino, meu menino...
*
E na noite imensa
com as feridas de ambos seguirei.
***
(Pablo Neruda)
(Poema lindíssimo que dedico ao meu pai com eterna saudade.)

Tem de haver um tempo


Tem de haver um tempo
para a vida e para a morte
tem de haver um espaço
onde concentrar
as lágrimas e o riso.
*
Um abismo
onde as árvores cresçam
em esquecimento
e claridade.
*
Uma porta rarefeita
por onde escoar
o que resta da solidão.
***
(Luís Serrano)

Canção do verdadeiro abandono


Podem todos rir de mim,
podem correr-me à pedrada,
podem espreitar-me à janela
e ter a porta fechada.
*
Com palavras de ilusão
não me convence ninguém.
Tudo o que guardo na mão
não tem vislumbres de além.
*
Não sou irmã das estrelas,
nem das pombas nem dos astros.
Tenho uma dor consciente de bicho
que sofre as pedras e se desloca de rastos.
***
(Natércia Freire)

Final


De mãos escassas nuas
a flor frágil renasce sem motivo
senão vê-la tardia nos caminhos
que até aqui me trouxeram,
e a surpresa, a nitidez dos colos tranquilos
onde as searas são o dia-a-dia
já maduras e a estrada que entre os campos
me leva desconheço hoje para onde
nem como nem porquê entre cidades
e plainos navegando e vendo as árvores
e o seu perfil exacto contra o céu.
Digo-me tanto aqui hei-de passar
que um dia o silêncio se abrirá
no rasto que existia na memória
e as lembranças se irão, morto estava
o desejo de flores e as mãos escassas
preparavam o seu fim
sem que a pena ou o medo as desviasse.
***
(Nuno Dempster)

Anos sem fim, à luz do mar aceso


Anos sem fim, à luz do mar aceso,
te vi nudez quase total, tão grácil
figura juvenil, ambígua e fácil,
e ao longe às vezes totalmente nua
em só relance de malícia crua.
Tudo isso me atraía e me afastava,
embora a vista retornando escrava,
a teus lugares me tivesse preso.
E quase sempre então tua figura,
sentada estátua, ou falsa sesta impura,
lá era, ao sol, o tempo congelado.
Hoje, subitamente, tu não viste
ninguém senão o meu olhar quebrado,
e com lenta inocência te despiste.
Mas quantas rugas no sorriso ansiado!
***
(Jorge de Sena)

A sombra sou eu


A minha sombra sou eu,
ela não me segue,
eu estou na minha sombra
e não vou em mim.
Sombra de mim que recebo a luz,
sombra atrelada ao que eu nasci,
distância imutável de minha sombra a mim,
toco-me e não me atinjo,
só sei do que seria
se de minha sombra chegasse a mim.
Passa-se tudo em seguir-me
e finjo que sou eu que sigo,
finjo que sou eu que vou
e não que me persigo.
Faço por confundir a minha sombra comigo:
estou sempre às portas da vida,
sempre lá, sempre às portas de mim!
***
(Almada Negreiros)

A última lágrima


A chama arde.
O coração bate.
A cera escorre.
A lágrima desce.
O calor morre,
E a vida de esperança carece.
A cera evapora.
O suspiro vai embora.
Outra alma padece,
E para o além ela corre.
O calor se expande,
Esquenta a face,
Molhada diante
Da mais dura perda.
E a vela se esvai.
A última lágrima cai.
Todos os seus sentimentos,
Todos os seus pensamentos,
Tudo se mistura,
Num momento de tortura
Que explode e perdura.
Os olhos reluzem.
Os gestos traduzem
Os segredos de um amor
Convertido em dor.
E o choro irrompe,
Gritos surdos de sofrimento.
E uma voz interrompe
A solidão do momento.
Um suspiro repentino,
Como se toda a vida se esvaísse.
Um sussurro inaudível,
Mas que revelaria para quem o ouvisse
O amor escondido,
Não correspondido.
E a dor se torna terrível,
Impossível.
E a última cera escorre,
E a última lágrima desce,
E o último sangue jorra,
E tudo que era vivo morre,
E tudo que era feliz entristece,
E todo o fogo vai embora,
E só há escuridão.
Afoga-se em sua própria solidão,
Fica apenas a memória
Da tortura e da decepção
Causadas por um amor mútuo,
Não correspondido
Por ambos os lados.
Viveu escondido
E morre enterrado
Na mais profunda escuridão.
***
(Jannerson Xavier)

Pensar em ti


Pensar em ti é coisa delicada.
É um diluir de tinta espessa e farta
e o passá-la em finíssima aguada
com um pincel de marta.
*
Um pesar grãos de nada em mínima balança
um armar de arames cauteloso e atento,
um proteger a chama contra o vento,
pentear cabelinhos de criança.
*
Um desembaraçar de linhas de costura,
um correr sobre lã que ninguém saiba e oiça,
um planar de gaivota como um lábio a sorrir.
*
Penso em ti com tamanha ternura
como se fosses vidro ou película de loiça
que apenas como o pensar te pudesses partir.
***
(António Gedeão)

As Primeiras Chuvas


As primeiras chuvas estavam tão perto
de ser música
que esquecemos que o Verão acabara:
uma súbita alegria,
súbita e bárbara, subia e coroava
a terra de água,
e Deus, que tanto demorara,
ardia no coração da palavra.
***
(Eugénio de Andrade)

Eros e Psique


Conta a lenda que dormia
Uma Princesa encantada
A quem só despertaria
Um Infante que viria
De além do muro da estrada
*
Ele tinha, que , tentado
Vencer o mal e o bem,
Antes que, já libertado,
Deixasse o caminho errado
Por o que à Princesa vem.
*
A Princesa Adormecida,
Se espera, dormindo espera.
Sonha em morta a sua vida,
E orna-lhe a fronte esquecida,
Verde, uma grinalda de hera.
*
Longe o Infante, esforçado
Sem saber que intuito tem,
Rompe o caminho fadado.
Ele dela é ignorado
Ela pra ele é ninguém.
*
Mas cada um cumpre o Destino
- Ela dormindo encantada,
Ele buscando-a sem tino
Pelo processo divino
Que faz existir a estrada.
*
E, se bem que seja obscuro
Tudo pela estrada fora,
E falso, ele vem seguro
E, vencendo estrada e muro,
Chega onde em sono ela mora.
*
E, inda tonto do que houvera,
À cabeça em maresia,
Ergue a mão , e encontra hera
E vê que ele mesmo era
A Princesa que dormia.
***
(Fernando Pessoa)

Quem Me Quiser

Quem me quiser há-de saber as conchas
a cantigas dos búzios e do mar.
Quem me quiser há-de saber as ondas
e a verde tentação de naufragar.
*
Quem me quiser há-de saber as fontes,
a laranjeira em flor, a cor do feno,
à saudade lilás que há nos poentes,
o cheiro de maçãs que há no Inverno.
*
Quem me quiser há-de saber a chuva
que põe colares de pérolas nos ombros
há-de saber os beijos e as uvas
há-de saber as asas e os pombos.
*
Quem me quiser há-de saber os medos
que passam nos abismos infinitos
a nudez clamorosa dos meus dedos
o salmo penitente dos meus gritos.
*
Quem me quiser há-de saber a espuma
em que sou turbilhão, subitamente
- Ou então não saber a coisa nenhuma
e embalar-me ao peito, simplesmente.
***
(Rosa Lobato de Faria)

O Céu


Assoam-se-me à alma
quem como eu traz desfraldado o coração
sabe o que querem dizer estas palavras.
A pele serve de céu ao coração.
***
(Luís Miguel Nava)

Coisa Amar


Contar-te longamente
as perigosas coisas do mar.
Contar-te o amor ardente
e as ilhas que só há no verbo amar.
Contar-te longamente longamente.
*
Amor ardente. Amor ardente.
E mar.
Contar-te longamente
as misteriosas maravilhas do verbo navegar.
E mar.
*
Amar: as coisas perigosas.
Contar-te longamente
que já foi num tempo doce coisa amar.
E mar.
*
Contar-te longamente
como doi desembarcar nas ilhas misteriosas.
Contar-te o mar ardente e o verbo amar.
E longamente as coisas perigosas.
***
(Manuel Alegre)

Soneto CV


Não chame o meu amor de Idolatria
Nem de Ídolo realce a quem eu amo,
Pois todo o meu cantar a um só se alia,
E de uma só maneira eu o proclamo.
É hoje e sempre o meu amor galante,
Inalterável, em grande excelência;
Por isso a minha rima é tão constante
A uma só coisa e exclui a diferença.
'Beleza, Bem, Verdade', eis o que exprimo;
'Beleza, Bem, Verdade', todo o acento;
E em tal mudança está tudo o que primo,
Em um, três temas, de amplo movimento.
'Beleza, Bem, Verdade' sós, outrora;
Num mesmo ser vivem juntos agora.
***
(William Shakespeare)

Assim eu vejo a vida


A vida tem duas faces:
Positiva e negativa
O passado foi duro mas deixou o seu legado
Saber viver é a grande sabedoria
Que eu possa dignificar
Minha condição de mulher,
Aceitar suas limitações
E me fazer pedra de segurança
dos valores que vão desmoronando.
Nasci em tempos rudes
Aceitei contradições lutas e pedras
como lições de vida e delas me sirvo
Aprendi a viver.
***
(Cora Coralina )

Dever de Sonhar


Eu tenho uma espécie de dever,
dever de sonhar,
de sonhar sempre,
pois sendo mais do que um espectáculo de mim mesmo,
eu tenho que ter o melhor espectáculo que posso.
E, assim, me construo a ouro e sedas,
em salas supostas, invento palco,
cenário para viver o meu sonho
entre luzes brandas e músicas invisíveis.
***
(Fernando Pessoa)

A Mulher Mais Bonita do Mundo


estás tão bonita hoje. quando digo que nasceram flores novas na terra do jardim,
quero dizer que estás bonita.
entro na casa, entro no quarto, abro o armário, abro uma gaveta,
abro uma caixa onde está o teu fio de ouro.
entre os dedos, seguro o teu fino fio de ouro, como se tocasse a pele do teu pescoço.
há o céu, a casa, o quarto, e tu estás dentro de mim.
estás tão bonita hoje. os teus cabelos, a testa, os olhos, o nariz, os lábios.
estás dentro de algo que está dentro de todas as coisas,
a minha voz nomeia-te para descrever a beleza.
os teus cabelos, a testa, os olhos, o nariz, os lábios.
de encontro ao silêncio, dentro do mundo,
estás tão bonita é aquilo que quero dizer.
***
(José Luís Peixoto)

A um ausente


Tenho razão de sentir saudade,
tenho razão de te acusar.
Houve um pacto implícito que rompeste
e sem te despedires foste embora.
Detonaste o pacto.
Detonaste a vida geral, a comum aquiescência
de viver e explorar os rumos de obscuridade
sem prazo sem consulta sem provocação
até o limite das folhas caídas na hora de cair.
Antecipaste a hora.
Teu ponteiro enlouqueceu, enlouquecendo nossas horas.
Que poderias ter feito de mais grave
do que o acto sem continuação, o acto em si,
o acto que não ousamos nem sabemos ousar
porque depois dele não há nada?
Tenho razão para sentir saudade de ti,
de nossa convivência em falas camaradas,
simples apertar de mãos, nem isso, voz
modulando sílabas conhecidas e banais
que eram sempre certeza e segurança.
Sim, tenho saudades.
Sim, acuso-te porque fizeste
o não previsto nas leis da amizade e da natureza
nem nos deixaste sequer o direito de indagar
porque o fizeste, porque te foste.
***
(Carlos Drummond de Andrade)

A Flor Que És


A flor que és, não a que dás, eu quero.
Porque me negas o que te não peço.
Tempo há para negares
Depois de teres dado.
Flor, sê-me flor!
Se te colher avaro
A mão da infausta esfinge,
tu perere Sombra errarás absurda,
Buscando o que não deste.
***

(Ricardo Reis)

Sonho e não realidade!


Quando estou sozinha
Eu canto danço, eu choro
Sob o peso do pranto eu me curvo
Sob o peso da tristeza
Eu me levanto
Sob o peso das lembranças felizes
Eu rodopio e danço
*
De olhos fechados,
a felicidade me chega
Bailo e flutuo com uma pena no ar
Nos braços invisíveis me aconchego
Sinto seus lábios me beijar
*
A alegria toma conta de mim
A realidade não quero lembrar
Dançando, dançando em um belo salão
Eu continuo a sonhar
*
De repente e lentamente de repente
Vejo que a música está a parar
O violino que tão romântico tocava
Parece que agora ele começar a chorar
*
Abro os olhos acordando medrosa
Vejo o chão como a me olhar
Chega a minha realidade
E vejo que curvada continuo
A chorar...
***
(Rita Maria Medeiros de Almeida)

Sintonia


Na superfície do meu corpo
palmilhada pelos teus dedos
reluzem cristalinos ainda
os sinais de tuas mãos
que são de sal e suor
*
Das paredes e dos móveis
e até dos espaços vazios,
nos lugares por onde andamos,
na retina, e na memória
ressurge a tua presença.
*
E esse estares em mim
é o tempo da colheita
o tempo de tudo ter,
é o banquete da vida
que nos devolve ao principio
de sentir que tudo volta
a ser na sua inteireza.
*
E nesse estado de graça
não busco fundo nem longe
o nirvana dos ascetas,
me basta a luz que emana
se sentir que a batida
no meu peito é igual
à pulsão que te anima.
***
(Ângela Santos)

Retrato de uma princesa desconhecida


Para que ela tivesse um pescoço tão fino
Para que os seus pulsos tivessem um quebrar de caule
Para que os seus olhos fossem tão frontais e limpos
Para que a sua espinha fosse tão direita
E ela usasse a cabeça tão erguida
Com uma tão simples claridade sobre a testa
Foram necessárias sucessivas gerações de escravos
De corpo dobrado e grossas mãos pacientes
Servindo sucessivas gerações de príncipes
Ainda um pouco toscos e grosseiros
Ávidos cruéis e fraudulentos
Foi um imenso desperdiçar de gente
Para que ela fosse aquela perfeição
Solitária exilada sem destino
***
(Sophia de Mello Breyner Andresen)

Lágrimas tristes tomarão vingança

Se somente hora alguma em vós piedade
De tão longo tormento se sentira,
Amor sofrera, mal que eu me partira
De vossos olhos, minha saudade.
*
Apartei-me de vós, mas a vontade,
Que por o natural na alma vos tira,
Me faz crer que esta ausência é de mentira;
Porém venho a provar que é de verdade.
*
Ir-me-ei, Senhora; e neste apartamento
Lágrimas tristes tomarão vingança
Nos olhos de quem fostes mantimento.
*
Desta arte darei vida a meu tormento,
Que, enfim, cá me achará minha lembrança
Sepultado no vosso esquecimento.
***
(Luís Vaz de Camões)

Serenata


Permita que eu feche os meus olhos,
pois é muito longe e tão tarde!
Pensei que era apenas demora,
e cantando pus-me a esperar-te.
*
Permite que agora emudeça:
que me conforme em ser sozinha.
Há uma doce luz no silencio,
e a dor é de origem divina.
*
Permite que eu volte o meu rosto
para um céu maior que este mundo,
e aprenda a ser dócil no sonho
como as estrelas no seu rumo.
***

(Cecília Meireles)

Tenho na mão a rosa


Tenho na mão a rosa
Recebida como prova
De um amor do passado.
O tempo tirou-lhe o frescor,
As pétalas foram murchando
Depois que o amor terminou.
E para cada pétala que cai
Por entre os dedos da mão,
Rola-me dos olhos uma lágrima
Chuva que vem de minh’alma,
Para que ela reviva tão rubra
Como o fogo da antiga paixão.
Que seu perfume seja o sinal
Da volta do ausente
Depois de apagadas as marcas
Da hora da despedida.

***

(Maria Hilda de J. Alão)

Minha Desgraça


Minha desgraça, não, não é ser poeta,
Nem na terra de amor não ter um eco,
E meu anjo de Deus, o meu planeta
Tratar-me como trata-se um boneco...
Não é andar de cotovelos rotos,
Ter duro como pedra o travesseiro...
Eu sei... O mundo é um lodaçal perdido
Cujo sol (quem mo dera!) é o dinheiro...
Minha desgraça, ó cândida donzela,
O que faz que o meu peito assim blasfema,
É ter para escrever todo um poema,
E não ter um vintém para uma vela.
***
(António Álvares de Azevedo)

Húmido de beijos e de lágrimas

Húmido de beijos e de lágrimas,
ardor da terra com sabor a mar,
o teu corpo perdia-se no meu.
(Vontade de ser barco ou de cantar.)
***
(Eugénio de Andrade)

Recado


Ouve a luz
Como ainda tem o sabor das algas
Deixei-lhe escrito um recado
Das nuvens
Não te esqueças de ouvir a luz
Não te esqueças que ao sol pôr
Também eu morro
Não te esqueças
***
(Daniel Faria)

Folhas soltas entre as flores



"Meto as mãos nos bolsos e trago-as carregadas de noites de amor: penso que isso basta para encontrar o mundo"
***
(A. Lobo Antunes)

Há uma música do Povo


Há uma musica do Povo
Nem sei dizer se é um Fado
Que ouvindo-a há um ritmo novo
No ser que tenho guardado…
Ouvindo-a sou quem seria
Se desejar fosse ser…
É uma simples melodia
Das que se aprendem a viver…
Mas é tão consoladora
A vaga e triste canção…
Que a minha alma já não chora
Nem eu tenho coração…
Sou uma emoção estrangeira,
Um erro de sonho ido…
Canto de qualquer maneira
E acabo com um sentido!
***
(Fernando Pessoa)

O meu olhar azul como o céu


O meu olhar azul como o céu
É calmo como a água ao sol
É assim, azul e calmo...
Porque não interroga nem se espanta...
Se eu interrogasse e me espantasse
Não nasciam flores novas nos prados
Nem mudaria qualquer coisa no sol
De modo a ele ficar mais belo...
(Mesmo se nascessem flores novas no prado
E se o sol mudasse para mais belo,
Eu sentiria menos flores no prado
E achava mais feio osol...
Porque tudo é como é e assim é que é
E eu aceito e nem agradeço,
Para não parecer que penso nisso...)
***
(Alberto Caeiro)

Metamorfoses


Faça-se luz
neste mundo profano
que é o meu gabinete
de trabalho:
uma despensa.
*
As outras dividiam-se
por sótãos,
eu movo-me em despensa
com presunto e arroz,
livros e detergentes.
*
Que a luz penetre
no meu sótão
mental
do espaço curto
*
E as folhas de papel
que embalo docemente
transformem o presunto
em carruagem.
***
(Ana Luísa Amaral)

A Política do Dia


Hoje a vida tem o sorriso
dentífrico dos candidatos
e pelas ruas nos aponta
o céu, em múltiplos retratos.
*
céu não póstumo ou merecido
em cruel sala de espera
mas entre parêntesis de fogo
festiva véspera de guerra
*
Teor de montras a vida
com democrático humor
a todos deixa viver
a sua dose de flor
*
Publicitária a vida faz
sua campanha eleitoral
prato de vida apetitosa
temperada com humano sal
*
Televisor férias de verão
tira a vida do seu discurso
e um amor provençal
que nos domestica o urso
*
Popular a vida é toda
pétalas de apertos de mão.
Que meus versos me vinguem
de cair nesse alçapão
***
(Natália Correia)

Crepuscular


O teu olhar entra em meus olhos
Com tão perfeita obsessão
Que julgo ver a face tua
Pálida, ingénua, fria e nua
Inteiramente em minha mão
Há tantos olhos sonhadores
Dentro da luz crepuscular
E sinto além da realidade
No céu, nas luzes, na cidade
A obsessão do teu olhar
***
(Clark Guimarães)

A Flor do Amor

Germina lenta,
silenciosa,
semente branca.
Pura magia!...
Enquanto cresce,
suas raízes profundas
vão tomando conta
do coração...
Abrindo as pétalas,
perfuma a alma,
transforma tudo...
Abafa as mágoas,
seca o pranto.
Leva a paixão...
Deixa o encanto.
***
(Andra Valladares)

Gaivota


Se uma gaivota viesse
Trazer-me o céu de Lisboa
No desenho que fizesse,
Nesse céu onde o olhar
É uma asa que não voa,
Esmorece e cai no mar.
*
Que perfeito coração
No meu peito bateria,
Meu amor na tua mão,
Nessa mão onde cabia
Perfeito o meu coração.
*
Se um português marinheiro,
Dos sete mares andarilho,
Fosse quem sabe o primeiro
A contar-me o que inventasse,
Se um olhar de novo brilho
No meu olhar se enlaçasse.
*
Que perfeito coração
No meu peito bateria,
Meu amor na tua mão,
Nessa mão onde cabia
Perfeito o meu coração.
*
Se ao dizer adeus à vida
As aves todas do céu,
Me dessem na despedida
O teu olhar derradeiro,
Esse olhar que era só teu,
Amor que foste o primeiro.
*
Que perfeito coração
Morreria no meu peito,
Meu amor na tua mão,
Nessa mão onde perfeito
Bateu o meu coração.
***
(Alexandre O'Neill)

Ilusão Perdida


Florida ilusão que em mim deixaste
a lentidão duma inquietude
vibrando em meu sentir tu juntaste
todos os sonhos da minha juventude.
Depois dum amargor tu afastaste-te,
e a princípio não percebi.
Tu partiras tal como chegaste uma tarde
para alentar meu coração
mergulhado na profundidade dum desencanto.
Depois perfumaste-te com meu pranto,
fiz-te doçura do meu coração,
agora tens aridez de nó, um novo desencanto,
árvore nua que amanhã se tornará germinação.
***
(Pablo Neruda)

Infinito


Vidas, passadas, presentes e futuras,
Dias, semanas, meses, anos, décadas,
Tudo gira no pêndulo do relógio vital, ciclos
Seres, estrelas, populações, constelações
*
Oh mundo belo e cruel,
Ao lado do mel, o fel,
À frente da nascente, o poente,
Atrás do monte, o horizonte.
*
Nos dilemas do contraditório,
Nos conflitos do necessário,
No pulsar deste coração libertário,
Nas armadilhas do tempo que se escoa, temerário
*
Viver no limite do finito
E contrastar com a amplitude
Das possibilidades do infinito
Ao alcance de uma tomada de atitude
*
No Deus jardineiro da sementeira do universo.
De vidas ceifadas na sanha guerreira dos perversos
Nas crianças brotam esperanças de outros tempos
Em gritos que ecoam do deserto aos campos,
do terço ao verso...
***
(AjAraújo)

As Minhas Asas


Eu tinha umas asas brancas,
Asas que um anjo me deu,
Que, em me eu cansando da terra,
Batia-as, voava ao céu.
– Eram brancas, brancas, brancas,
Como as do anjo que mas deu:
Eu inocente como elas,
Por isso voava ao céu.
Veio a cobiça da terra.
Vinha para me tentar;
Por seus montes de tesouros
Minhas asas não quis dar.
– Veio a ambição, co'as grandezas,
Vinham para mas cortar
Davam-me poder e glória
Por nenhum preço as quis dar.
Porque as minhas asas brancas,
Asas que um anjo me deu,
Em me eu cansando da terra
Batia-as, voava ao céu.
Mas uma noite sem lua
Que eu contemplava as estrelas,
E já suspenso da terra,
Ia voar para elas,
– Deixei descair os olhos
Do céu alto e das estrelas...
Vi entre a névoa da terra,
Outra luz mais bela que elas.
E as minhas asas brancas,
Asas que um anjo me deu,
Para a terra me pesavam,
Já não se erguiam ao céu.
Cegou-me essa luz funesta
De enfeitiçados amores...
Fatal amor, negra hora
Foi aquela hora de dores!
– Tudo perdi nessa hora
Que provei nos seus amores
O doce fel do deleite,
O acre prazer das dores.
E as minhas asas brancas,
Asas que um anjo me deu
Pena a pena me caíram...
Nunca mais voei ao céu.
***
(Almeida Garret)

Fugaz


Fugaz passagem por uma paisagem,
lugar do onde, do ontem, do quando,
quantas palavras ficaram faltando
na boca cheia de imagens.
o outro é aquele que ficou à margem,
no espanto de um pronome,
no corpo de uma brisa suave;
o outro é como uma fome
pluma à deriva, à distância, ou quase.
estranho em sua própria viagem,
garrafa com uma mensagem,
olhar durando numa flor,
sem nome, secreta, selvagem.
Desterro, água bebida num trem,
peça incompleta, festa adiada, vertigem,
a cabeça sempre em alguém,
eu outro, eu todos, ninguém.
***
(Rodrigo Garcia Lopes)

O Verbo Flor


O verbo flor
é conjugável
por quase todas as pessoas
em certos tempos definidos.
a saber:
quase nunca no Outono
no Inverno quase não
quase sempre no Verão
e demais na Primavera
que no coração
poderá durar
e ser eterna.
quando o verbo conjugar:
quando eu flor
quando tu flores
quando ele flor
e você flor
quando nós
quando todo mundo flor.
***
(Renato Rocha)

A Vida Vivida


Quem sou eu senão um grande sonho obscuro
em face do Sonho
Senão uma grande angústia obscura
em face da Angústia
*
Quem sou eu senão a imponderável árvore
dentro da noite imóvel
E cujas presas remontam
ao mais triste fundo da terra?
*
De que venho senão da eterna caminhada de uma sombra
Que se destrói à presença das fortes claridades
Mas em cujo rastro indelével repousa a face do mistério
E cuja forma é prodigiosa treva informe?
*
Que destino é o meu senão o de assistir ao meu Destino
Rio que sou em busca do mar que me apavora
Alma que sou clamando o desfalecimento
Carne que sou no âmago inútil da prece?
*
O que é a mulher em mim
senão o Túmulo
O branco marco da minha rota peregrina
Aquela em cujos abraços vou caminhando para a morte
Mas em cujos braços somente tenho vida?
*
O que é o meu Amor, ai de mim,
senão a luz impossível
Senão a estrela parada num oceano de melancolia
O que me diz ele senão que é vã toda a palavra
Que não repousa no seio trágico do abismo?
*
O que é o meu Amor,
senão o meu desejo iluminado
O meu infinito desejo de ser o que sou acima de mim mesmo
O meu eterno partir da minha vontade enorme de ficar
Peregrino, peregrino de um instante, peregrino de todos os instantes
A quem repondo senão a ecos, a soluços, a lamentos
De vozes que morrem no fundo do meu prazer ou do meu tédio
*
Qual é o meu ideal senão fazer do céu poderoso a Língua
Da nuvem a Palavra imortal cheia de segredo
E do fundo do inferno delirantemente proclamá-los
Em Poesia que se derrame como sol ou como chuva?
*
O que é o meu ideal senão o Supremo Impossível
Aquele que é, só ele, o meu cuidado e o meu anelo
O que é ele em mim senão o meu desejo de encontra-lo
E o encontrando, o meu medo de não o reconhecer?
*
O que sou eu senão ele, o Deus em sofrimento
o temor imperceptível na voz portentosa do vento
O bater invisível de um coração no descampado...
Que sou eu senão Eu Mesmo em face de mim?
***
(Vinicius de Moraes)

Amor Amante


Raios de sol brilham ao recordar...
Ah, quão saudoso é amar e ser amado.
Imensos são os sentimentos vividos,
Momentos singulares e sem repetições.
E será possível reconquistar um amor já vivido?
*
Resplandece nas lembranças sem explicações.
Alvorada surge feito criança, cheia de esperança;
Imergindo da terra toda a descrença e a injustiça.
Maravilhando o cintilar da verdadeira felicidade,
E não deixando dúvida para a incredulidade.
*
Reinvento versos no papel em branco...
As almas se comunicam a distância.
Inesquecível momento preto e branco,
Mesmo que estejam tanto tempo separadas.
E, contudo, se aproximam já enamoradas.
*
Ressurgem as labaredas do amor,
Anunciando que o coração se tornará refém;
Inundando-se sem controle de um amor faiscante.
Move-se toda a antiga história que se refaz em minutos,
E dá-se início a nova relação, um amor amante.
***
(Graciele Gessner)

Poema Em Linha Recta

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cómico criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado,
Para fora da possiblidade do soco;
Eu que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu que verifico que não tenho par nisto neste mundo.
Toda a gente que eu conheço e que fala comigo,
Nunca teve um acto ridículo, nunca sofreu um enxovalho,
Nunca foi senão - princípe - todos eles princípes - na vida...
Quem me dera ouvir de alguém a voz humana,
Quem confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó princípes, meus irmãos,
Arre, estou farto de semideuses!
Onde há gente no mundo?
Então só eu que é vil e erróneo nesta terra?
Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que tenho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.
***
(Álvaro de Campos )

Desejo Primeiro


Desejo primeiro que você ame,
E que amando, também seja amado.
E que se não for, seja breve em esquecer.
E que esquecendo, não guarde mágoa.
Desejo, pois, que não seja assim,
Mas se for, saiba ser sem desesperar.
Desejo também que tenha amigos,
Que mesmo maus e inconsequentes,
Sejam corajosos e fiéis,
E que pelo menos num deles
Você possa confiar sem duvidar.
E porque a vida é assim,
Desejo ainda que você tenha inimigos.
Nem muitos, nem poucos,
Mas na medida exata para que, algumas vezes,
Você se interpele a respeito
De suas próprias certezas.
E que entre eles, haja pelo menos um que seja justo,
Para que você não se sinta demasiado seguro.
Desejo depois que você seja útil,
Mas não insubstituível.
E que nos maus momentos,
Quando não restar mais nada,
Essa utilidade seja suficiente para manter você de pé.
Desejo ainda que você seja tolerante,
Não com os que erram pouco, porque isso é fácil,
Mas com os que erram muito e irremediavelmente,
E que fazendo bom uso dessa tolerância,
Você sirva de exemplo aos outros.
Desejo que você, sendo jovem,
Não amadureça depressa demais,
E que sendo maduro, não insista em rejuvenescer
E que sendo velho, não se dedique ao desespero.
Porque cada idade tem o seu prazer e a sua dor
E é preciso deixar que eles escorram por entre nós.
Desejo por sinal que você seja triste,
Não o ano todo, mas apenas um dia.
Mas que nesse dia descubra
Que o riso diário é bom,
O riso habitual é insosso e o riso constante é insano.
Desejo que você descubra,
Com o máximo de urgência,
Acima e a respeito de tudo,
que existem oprimidos,
Injustiçados e infelizes,
e que estão à sua volta.
Desejo ainda que você afague um gato,
Alimente um cuco e ouça o joão-de-barro
Erguer triunfante o seu canto matinal
Porque, assim, você se sentirá bem por nada.
Desejo também que você plante uma semente,
Por mais minúscula que seja,
E acompanhe o seu crescimento,
Para que você saiba de quantas
Muitas vidas é feita uma árvore.
Desejo, outros sim, que você tenha dinheiro,
Porque é preciso ser prático. E
que pelo menos uma vez por ano
Coloque um pouco dele
Na sua frente e diga `Isso é meu`,
Só para que fique bem claro quem é o dono de quem.
Desejo também que nenhum de seus afectos morra,
Por ele e por você,
Mas que se morrer, você possa chorar
Sem se lamentar e sofrer sem se culpar.
Desejo por fim que você sendo homem,
Tenha uma boa mulher,
E que sendo mulher,
Tenha um bom homem
E que se amem hoje, amanhã e nos dias seguintes,
E quando estiverem exaustos e sorridentes,
Ainda haja amor para recomeçar.
E se tudo isso acontecer,
Não tenho mais nada a te desejar.
***
(Victor Hugo)

Quero Ser O Teu Amigo

Quero ser o teu amigo.
Nem demais e nem de menos.
Nem tão longe e nem tão perto.
Na medida mais precisa que eu puder.
Mas amar-te sem medida e ficar na tua vida,
Da maneira mais discreta que eu souber.
Sem tirar-te a liberdade, sem jamais te sufocar.
Sem forçar tua vontade.
Sem falar, quando for hora de calar.
E sem calar, quando for hora de falar.
Nem ausente, nem presente por demais.
Simplesmente, calmamente, ser-te paz.
É bonito ser amigo, mas confesso é tão difícil aprender!
E por isso eu te suplico paciência.
Vou encher este teu rosto de lembranças,
Dá-me tempo,
de acertar nossas distâncias...
***
(Fernando Pessoa)

Tu


Tu
entre as palavras,
na solidão dos versos
ou na pressa das frases,
encontro-te e
sei, finalmente, o pronome
que está entre mim
e nós.
***
(Cátia)

Recomeça


Recomeça
Se puderes,
Sem angústia e sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
do futuro,
Dá-os em liberdade
Enquanto não alcances
não descanses.
De nenhum futuro queiras só metade.
***
(Miguel Torga)

Sonhos Adormecidos


Magnetizada pelo aroma das flores,
sobrevôo os mais silenciosos recantos...
o meu pensamento vem delineando...
e penetra no ar o meu encantamento...
mais uma vez, me deixo embalar em meu sonho
que mexe e penetra fundo na alma
e busca resíduos adormecidos e indecisos
que repentinamente...dentro de mim...
se desperta em confusos aromas que...
somente eu sinto...
(Lu Lena)

Desenraizados


Chega de mar. Já vimos mar que chegue.
Ao entardecer, quando deslavada a água se estende
e esfuma no nada, o meu amigo olha-a fixamente
e eu fixo o meu amigo e nenhum de nós fala.
Chegada a noite, acabamos por nos fechar nos fundos duma taberna,
perdidos no meio do fumo, e bebemos.
O meu amigo tem sonhos
(o bramir do mar torna os sonhos um tanto monótonos)
em que a água é apenas o espelho, entre uma ilha e outra,
que reflecte colinas salpicadas de flores selvagens e cascatas.
Quando bebe, dá-lhe para isso.
De olhos postos no copo,
vê-se a erguer colinas verdejantes sobre a planura do mar.
As colinas, a mim agradam-me;
e deixo-o falar do mar
porque a água é tão clara que se vêem mesmo as pedras do fundo.
Eu, o que vejo é só colinas, e enchem-me o céu e a terra
com as linhas nítidas dos seus perfis, distantes ou próximas.
Mas as minhas são agrestes, estriadas de vinhedos
que crescem penosamente num solo calcinado.
O meu amigo aceita-as
e quer vesti-las de flores e frutos selvagens
para nelas descobrir, entre risos, raparigas mais nuas que os frutos.
Não é preciso: aos meus sonhos mais agrestes não falta um sorriso.
Se amanhã, cedinho, nos metermos ao caminho,
poderemos encontrar nessas colinas, no meio das vinhas,
uma rapariga de pele morena, tisnada pelo sol,
e, talvez, metendo conversa, comer-lhe algumas uvas.
(Cesare Pavese)

Que é voar?


Que é voar?
É só subir no ar,
levantar da terra o corpo, os pés?
Isso é que é voar?
Não.

Voar é libertar-me,
é parar no espaço inconsistente
é ser livre, leve, independente
é ter a alma separada de toda a existência
é não viver senão em não - vivência

E isso é voar?
Não.

Voar é humano
é transitório, momentâneo...

Aquele que voa tem de poisar em algum lugar:
isso é partir
e não voltar.
***
(Ana Hatherly)

Bilhete


Se tu me amas,
ama-me baixinho.
Não o grites de cima dos telhados,
deixa em paz os passarinhos.
Deixa em paz a mim!
*
Se me queres,enfim,
tem de ser bem devagarinho,
amada,
que a vida é breve
e o amor mais breve ainda.
***
(Mário Quintana)

Sabedoria


Desde que tudo me cansa,
Comecei eu a viver.
Comecei a viver sem esperança...
E venha a morte quando Deus quiser.
*
Dantes, ou muito ou pouco,
Sempre esperara:
Às vezes, tanto, que o meu sonho louco
Voava das estrelas à mais rara;
Outras, tão pouco,
Que ninguém mais com tal se conformara.
*
Hoje, é que nada espero.
Para quê, esperar?
Sei que já nada é meu senão se o não tiver;
Se quero, é só enquanto apenas quero;
Só de longe, e secreto, é que inda posso amar...
*
E venha a morte quando Deus quiser.
Mas, com isto, que têm as estrelas?
Continuam brilhando, altas e belas.
***
(José Régio)

Amor é bicho instruído


Amor é bicho instruído
Olha: o amor pulou o muro
o amor subiu na árvore
em tempo de se estrepar.
Pronto, o amor se estrepou.
Daqui estou vendo o sangue
que escorre do corpo andrógino.
Essa ferida, meu bem
às vezes não sara nunca
às vezes sara amanhã.
***
(Carlos Drummond de Andrade)

Amantes Incertos


Dormem juntos o caos e a ordem:
ele, de costas para a parede, ressona;
ela, a cabeça enterrada no travesseiro,
talvez sonhe com um ruído de rumores obscuros.
A noite envolve-os às avessas:
um caos de pernas voltadas
para o lado mais negro do infinito;
e uma ordem de braços presos no círculo da terra,
onde as raízes podres do outono rasgam os lençóis da alma.
Passo por eles em silêncio: não quero acordá-los;
e sei que me olham, com os olhos fechados do caos,
e me ouvem, com os ouvidos atentos da ordem.
***
(Nuno Júdice)

Se ao menos soubesses tudo o que eu não disse


Se ao menos soubesses tudo o que eu não disse
ou se ao menos me desses as mãos como quem beija
e não partisses, assim, empurrando o vento
com o coração aflito, sufocado de segredos
*
se ao menos tivesses levado as minhas mãos para tocar os teus dedos
para guardar o teu corpo
*
se ao menos tivesses quebrado o riso frio dos espelhos
onde o teu rosto se esconde no meu rosto
e a minha boca lembra a tua despedida,
talvez que, hoje, meu amor, eu pudesse esquecer
essa cor perdida nos teus olhos
***
(Joaquim Pessoa)

Soneto


Arda de raiva contra mim a intriga,
Morra de dor a inveja insaciável;
Destile seu veneno detestável
A vil calúnia, pérfida inimiga.
*
Una-se todo, em traiçoeira liga,
Contra mim só, o mundo miserável.
Alimente por mim ódio entranhável
O coração da terra que me abriga.
*
Sei rir-me da vaidade dos humanos;
Sei desprezar um nome não preciso;
Sei insultar uns cálculos insanos.
*
Durmo feliz sobre o suave riso
De uns lábios de mulher gentis, ufanos;
E o mais que os homens são, desprezo e piso.
***
(Junqueira Freire)

Poema Da Voz Que Escuta

Chamam-me lá em baixo.
São as coisas que não puderam decorar-me:
As que ficaram a mirar-me longamente
E não acreditaram;
As que sem coração, no relâmpago do grito,
Não puderam colher-me.
Chamam-me lá em baixo,
Quase ao nível do mar, quase à beira do mar,
Onde a multidão formiga
Sem saber nadar.
Chamam-me lá em baixo
Onde tudo é vigoroso e opaco pelo dia adiante
E transparente e desgraçado e vil
Quando a noite vem, criança distraída,
Que debilmente apaga os traços brancos
Deste quadro negro - a Vida.
Chamam-me lá em baixo:
Voz de coisas, voz de luta.
É uma voz que estala e mansamente cala
E me escuta.
***

(Políbio Gomes dos Santos)

Há dias


Há dias em que julgamos
que todo o lixo do mundo
nos cai em cima
depois ao chegarmos à varanda
avistamos as crianças correndo no molhe
enquanto cantam
não lhes sei o nome
uma ou outra parece-se comigo
quero eu dizer:
com o que fui
quando cheguei a ser
luminosa presença
da graça ou da alegria
um sorriso abre-se então
num verão antigo e dura
dura ainda.
***
(Eugénio de Andrade)

Se se morre de amor...


Se se morre de amor?!
– Não, não se morre,
Quando é fascinação que nos surpreende
De ruidoso sarau entre os festejos;
Quando luzes, calor, orquestra e flores
Assomos de prazer nos raiam n’alma,
Que embelezada e solta em tal ambiente
No que ouve e no que vê prazer alcança!
*
Simpáticas feições, cintura breve,
Graciosa postura, porte airoso,
Uma fita, uma flor entre os cabelos,
Um quê mal definido, acaso podem
Num engano d’amor arrebentar-nos.
Mas isso amor não é;
isso é delírio
Devaneio, ilusão, que se esvaece
Ao som final da orquestra, ao derradeiro
*
Clarão, que as luzes ao morrer despedem:
Se outro nome lhe dão, se amor o chamam,
D’amor igual ninguém sucumbe à perda.
Amor é vida; é ter constantemente
Alma, sentidos, coração – abertos
Ao grande, ao belo, é ser capaz d’extremos,
D’altas virtudes, até capaz de crimes!
Compreender o infinito, a imensidade
E a natureza e Deus;
gostar dos campos,
D’aves, flores,
murmúrios solitários;
Buscar tristeza, a soledade, o ermo,
E ter o coração em riso e festa;
E à branda festa, ao riso da nossa alma
fontes de pranto intercalar sem custo;
Conhecer o prazer e a desventura
No mesmo tempo, e ser no mesmo ponto
O ditoso, o misérrimo dos entes;
Isso é amor...
e desse amor se morre!
*
Amar, é não saber, não ter coragem
Pra dizer que o amor que em nós sentimos;
Temer qu’olhos profanos nos devassem
O templo onde a melhor porção da vida
Se concentra; onde avaros recatamos
Essa fonte de amor, esses tesouros
Inesgotáveis d’lusões floridas;
Sentir, sem que se veja, a quem se adora,
Compreender, sem lhe ouvir, seus pensamentos,
Segui-la, sem poder fitar seus olhos,
Amá-la, sem ousar dizer que amamos,
E, temendo roçar os seus vestidos,
Arder por afogá-la em mil abraços:
Isso é amor...
e desse amor se morre!"
***
(Gonçalves Dias)

Parabéns...


Fazes-me falta!
Preciso do teu colo
Tenho saudades de quando me ralhavas….
Dos conselhos que me davas e que eu não seguia
E que agora sei que eram sábios conselhos!
E mesmo quando errrava…
Ficavas sempre do meu lado
Davas-me a mão….
Dos princípios que me ensinaste!
E que fizeram de mim a pessoa que eu sou hoje!
Ensinaste-me a lutar pelas coisas em que acredito
Ensinaste-me que a sinceridade e a honestidade
Fazem de nós melhores pessoas….
Ensinaste-me que confiar nos dá força….
Ensinaste-me que o mal não é não conseguir!
O mal é não tentar!
Fazes-me falta!
Preciso do teu colo
Do teu sorriso tão carinhoso…
Tenho saudades de quando brincavas comigo
Como se fosses criança como eu…
De quando me ensinavas que às vezes é preciso sofrer
Para acreditar!
E olho para o céu….
E descubro-te naquela estrelinha que me sorri!
Preciso do teu colo…..
E hoje queria-te dar o maior beijo do mundo…
E continuo a sentir o último beijo que me deste!
Como se soubesses que ias partir……
Obrigada por teres sido o melhor Pai do mundo!
Fazes-me falta!
Preciso do teu colo…..
Hoje…..
Queria dar “aquele” beijo de Parabéns!
Parabéns PAI !
(Isa)
(Sinto a tua falta...
Fazes-me falta...)

Desespero


Não eram meus os olhos que te olharam
Nem este corpo exausto que despi
Nem os lábios sedentos que poisaram
No mais secreto do que existe em ti.
*
Não eram meus os dedos que tocaram
Tua falsa beleza, em que não vi
Mais que os vícios que um dia me geraram
E me perseguem desde que nasci.
*
Não fui eu que te quis.
E não sou eu
Que hoje te aspiro e embalo e gemo e canto,
Possesso desta raiva que me deu
*
A grande solidão que de ti espero.
A voz com que te chamo é o desencanto
E o espermen que te dou, o desespero.
***
(Ary dos Santos)

Travessia


Quando você foi embora fez-se noite em meu viver
Forte eu sou mas não tem jeito, hoje eu tenho que chorar
Minha casa não é minha, e nem é meu este lugar
Estou só e não resisto, muito tenho prá falar
Solto a voz nas estradas, já não quero parar
*
Meu caminho é de pedras, como posso sonhar
Sonho feito de brisa, vento vem terminar
Vou fechar o meu pranto, vou querer me matar
Vou seguindo pela vida me esquecendo de você
Eu não quero mais a morte, tenho muito que viver
*
Vou querer amar de novo e se não der não vou sofrer
Já não sonho, hoje faço com meu braço o meu viver
Solto a voz nas estradas, já não quero parar
Meu caminho é de pedras, como posso sonhar
Sonho feito de brisa, vento vem terminar
Vou fechar o meu pranto, vou querer me matar
***
(Milton Nascimento)

Dás-me o Mundo

Quando as minhas mãos desenham o teu corpo
Tu deixas-te ir
Quando os meus lábios desenham os teus
Tu deixas-te sentir
E quando o Sol já disse adeus
E em tons de prata o Céu acolhe a Lua
Dás-me o mundo ao dizeres baixinho
Eu sou tua
*
Quando a tua boca dispara mil palavras
Sem nada dizer
Quando dizes não, mas queres dizer sim
Procuro ouvir
E quando o Sol já disse adeus
E em tons de prata o Céu acolhe a Lua
Dás-me o mundo ao dizeres baixinho
Eu sou tua
*
Quando o silêncio preenche cada espaço
Escolho aguardar
Pois sei que o silêncio transporta mil palavras
Sem nada falar
E quando estamos longe e o tempo corre lento
Começo a escrever
E em todas as palavras eu leio o teu nome
E o desejo de te ter
*
E quando o Sol já disse adeus
E em tons de prata o Céu acolhe a Lua
Dás-me o mundo ao dizeres baixinho
Eu sou tua
***
(Pedro Camilo)

Parabéns, Ana Rita


Amor, alegria, felicidade, magia
Néctares que encontro em ti e dos quais me alimento
A cada dia que passa, em cada gesto, em cada carinho que me dás
*
Roubas-me sorrisos e enxugas as minhas lágrimas
Incapaz é como me sinto quando tento pôr em palavras o que és para mim
Tudo o que diga e faça é muito pouco para descrever o quanto me fazes feliz
Amo-te muito para além do que quaisquer palavras bonitas possam dizer.
***
(Cris)
(Para ti, meu sorriso com nome)

Só tu, doce criança


Nas tuas mãos um papel
Pode ser de mil cores
Um soldado sem quartel
Ou um jardim com flores
*
Um avião que não pousa
Uma bala que não mata
Um cavalo sem arreata
Que não conhece senhor
*
Um irmão com quem tu brincas
À apanha, e ao pião
Um pão quente que tu trincas
Como só se trinca o pão
*
Pai que te faz companhia
Nos teus sonhos sempre belos
Uma mãe quente e macia
E que te afaga os cabelos
*
Tudo quanto a vista alcança
E possas imaginar
Que só tu doce criança
Consegues reinventar.
***
(Mário Margaride)
(Para ti, Vasquinho)

A Busca Do Homem


O homem por natureza
busca sempre mais além
esquecendo muitas vezes
procurar perto também.
E quanta vez não sucede
perder tempo...
tempo... tempo...
procurando muito longe
aquilo que está tão perto!!!
***
(Milú Almeida)

A Saudade Lembrou De ti


A saudade é sempre lembrança
Carregada de doces recordações
Que falam na alma uma poesia
Ora de amor ora de amizade!

Ascendendo volúpias
Sobre as cinzas...
Fazendo crepitar
A lareira do tempo
Que leva e traz o passado
Num presente ávido
De sentimentos adormecidos
No colo do coração...

A saudade traz uma carícia
Levada sem despedida...
O coração revira uma caixinha de guardados
Revê fotografias tiradas em memórias inesquecíveis...

O papel rascunhado de versos
Feitos para traduzir o tamanho sentimento
Que guardo na alma
Gritando o quanto gosto de ti!

E a distância simplesmente separando nossos caminhos...

Mas a saudade é flecha certeira
Que aponta a direcção mais intima de nós dois...

A lágrima se emociona
E chora...
Um sabor de nostalgia...
Recorda nossas venturas nas páginas da alma...
Mútua entrega de carinhos
Numa amizade cheia de amor
Que sempre permite a saudade
Vinda nos trilhos do tempo
Deixada na estação solidão...
***
(Regilene Rodrigues Neves)

Saudade


Infeliz de quem vive sem saudade,
Do agridoce pungir alheio às penas,
Sem lembranças de amor e de amizade,
Hoje vivendo o dia de hoje, apenas.
*
Triste de ti, ancião, que te condenas
A mole insipidez da ancianidade
E não revives na memória as cenas
De prazer e de dor da mocidade!
*
Ter saudade é viver passadas vidas,
Percorrendo paragens preferidas,
Ouvindo vozes que se têm de cor.
*
Sonha-se… E em sonho, como por encanto,
A dor que nos doeu já não dói tanto,
Gozo que foi é gozo inda maior.
***
(Bastos Tigre)

Meu mundo e nada mais


Quando eu fui ferido vi tudo mudar
Das verdades que eu sabia
Só sobraram restos e eu não esqueci
Toda aquela paz que eu tinha
*
Eu que tinha tudo hoje estou mudo, estou mudado
À meia-noite, à meia luz, pensando
Daria tudo por um modo de esquecer
*
Eu queria tanto estar no escuro do meu quarto
À meia-noite, à meia luz, sonhando
Daria tudo por meu mundo e nada mais
*
Não estou bem certo se ainda vou sorrir
Sem um traço de amargura
Como ser mais livre, como ser capaz
de enxergar um novo dia
*
Eu que tinha tudo hoje estou mudo, estou mudado
À meia-noite, à meia luz, pensando
Daria tudo por um modo de esquecer
*
Eu queria tanto estar no escuro do meu quarto
À meia-noite, à meia luz, sonhando
Daria tudo por meu mundo e nada mais
***
(Guilherme Arantes)

Traduzir-se


Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.
*
uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.
*
Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.
*
Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.
*
Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.
*
Traduzir-se uma parte
na outra parte
-que é uma questão
de vida ou morte
-será arte?
***
(Ferreira Gullar)

Revelações de mim

Se um dia eu entrar em tua casa não te assustes

Foi a saudade que apertou demais meu coração...

Se sentires uma presença em teu quarto não te alardes

Sou eu que venho implorar teu amor

É o desejo que sinto por ti...

Se um dia tocarem teu corpo não te assustes

Sou eu, venho conferir o amor que me juras

Não que não acredite em tuas palavras

Mas meu corpo necessita sentir teu calor...

Se chegar sem muito falar, olhe bem em meus olhos

Escute o que eles têm para te falar

Não te surpreendas com o que ouvires deles

Será a verdade guardada em meu peito que eles te dirão...

Se eu nada disser, não fiques preocupada, relaxa

Apenas me abras teus braços e digas que me amas

Não quero ouvir mais nada...

Quero apenas sentir teu ritmo em contacto com meu corpo!

Se invadir tua intimidade não te preocupes com teus segredos

Estarão todos guardados dentro de mim

E de lá jamais sairão...

Mas não me negues teu carinho e teu amor

Chegarei como um mendigo faminto!

Saberás o que desejo com apenas um olhar

Mata minha fome e a sede que tenho de ti!

Não ficarei muito tempo, não quero roubar-te o sossego

Ficarei o suficiente para marcar teu coração

Para matar minha vontade de ti

E para matar tua sede de mim...

Assim como entrei, sairei de tua vida

Mas nunca mais seremos os mesmos...

Sentiremos na alma que a felicidade é real

Apenas ainda não podemos alcançá-lá.

Levarei o gosto de tua boca

O sal de teu suor em contato com minha língua

Levarei além de tua doce lembrança

A certeza de que não somos apenas um caso

Somos duas almas a caminho da perfeição

(Eduardo Baqueiro)

Definição


A música do oceano promete emoção,
as ondas agigantam o momento
o sonho...
A teimosia repetitiva das marés
lembra que outros dias virão, o sol
virá de novo
mas o vento
frio
recorda o vazio
a falta da mão, do abraço, do peito
do beijo terno
o frio rudemente define
a tua falta
(Olga Fonseca)

Quando sentires...

Amor...
Quando sentires minha falta
Quando quiseres me ver
Quando não couberes em si de tanta saudade
Quando puderes sentir meu beijo, meu desejo
Não tema, procure-me
Estarei no brilho de um olhar
Sempre a espera de você chegar
Serei teu aconchego,
Teu delírio,
Teu martírio,
Teu calor
Serei a vontade de tudo
Serei a felicidade
O extremo
A igualdade
Serei a vida, não mais esquecida
Serei você
Amor...
***
(Fernanda Ferraz)

Pensando em você

Nas madrugadas, madruguei
Nas noites caminhei...
Nos sonhos te encontrei
Em êxtase te beijei...
A saudade abracei
O desejo sufoquei
Sem jeito fiquei...
Pois sem teu amor
Te amei

***

(Clicia Pavan)

Caminho Encontrado


Razão e loucura
Abismo de mãos
E gestos em fúria
Palavras
Silêncios
E corpos suspensos
Nas bocas a febre
Nos olhos delírio
Regresso de noite
Caminho encontrado.
***
(Manuela Amaral)

Estou a amar-te


Estou a amar-te como o frio
corta os lábios.
A arrancar-te a raiz
ao mais diminuto dos rios.
A inundar-te de facas,
de saliva esperma lume.
Estou a rodear de agulhas
a boca mais vulnerável.
A marcar sobre os teus flancos
o itinerário da espuma.
Assim é o amor: mortal e navegável.
***
(Eugénio de Andrade)

Freedom


Quem ama não prende, liberta.
Por isso eu te liberto.
Deixo-te ir. Segue o teu rumo, meu amor.
Desejo-te toda a felicidade do Mundo.
Se isso significa ver-te partir para o outro lado do planeta,
a quilometros de distância, que seja.
Se para encontrares a felicidade
tenhas de estar nos braços de outra mulher, seja.
Quero do fundo do coração que sejas muito feliz.
Por isso te liberto.
Para o Mundo.
Para ela.
Para o que seja.
Vai.
Segue o teu rumo.
Que o caminho se faça de dias de sol.
Também eu seguirei o meu rumo.
Contigo no coração.
Mas sem ti.
Gostando muito do que fomos juntos,
mas não te amando como então.
A vida seguirá.
Os dias passarão.
As luas cheias por cima de nós...
Quem sabe se um dia
a tua estrada se cruzará com a minha?
***
(Alfacinha)

Sussurro


Desfolho-me...
e
pétala a pétala
deito o descobrir da minha pele nas tuas mãos
e escorrego o sabor do meu suor nos teus lábios
ainda secos
*
Começo a acordar-me
no sorriso que descubro na ponta dos teus dedos
e
escuto o sussurro dos teus poros já abertos
sorrio-te
e
entrego-me
Suspiro...
***

(Cris)

Nua

I
Nua como Eva.
A cabeleira
beija-lhe o rosto oval e flutua;
o corpo é água de torrente...
Eva adolescente,
com reflexos de lua e tons de aurora...!
Roseira que enflora...!
Desflorada por tanta gente...
**
II
Teu corpo,
mal o toquei...
Só te abracei
de leve...
Foi todo neve
o sonho que alonguei...
Asas em voo, quem, um dia, as teve?
Os sonhos que eu sonhei!
**
III
Jeito de ave
e criança,
suave
como a dança do ramo de árvore
que o vento beija e balança!
Nave
de sonho
no temporal medonho
silvando agoiro!
Quem destrançou os teus cabelos de oiro?
**
IV
Corpo fino,
delicado,
sereno, sem desejos...
Tão macio,
tão modelado...
Beijos... Beijos... Beijos...
**
V
No meu sono
ela flutua a cada passo...
Nua,
riscando o espaço
numa névoa de outono...
Apenas nos cabelos
um azulado laço...
E assim enlaço
a imagem sua...
***
(Saúl Dias)

Procuro-te


Procuro a ternura súbita,
os olhos ou o sol por nascer
do tamanho do mundo,
o sangue que nenhuma espada viu,
o ar onde a respiração é doce,
um pássaro no bosque
com a forma de um grito de alegria.
*
Oh, a carícia da terra,
a juventude suspensa,
a fugidia voz da água entre o azul do prado
e de um corpo estendido.
*
Procuro-te: fruto ou nuvem ou música.
Chamo por ti,
e o teu nome ilumina as coisas mais simples:
o pão e a água, a cama e a mesa,
os pequenos e dóceis animais,
onde também quero que chegue o meu canto
e a manhã de maio.
*
Um pássaro e um navio são a mesma coisa
quando te procuro de rosto cravado na luz.
Eu sei que há diferenças,
mas não quando se ama,
não quando apertamos contra o peito
uma flor ávida de orvalho.
*
Ter só dedos e dentes é muito triste:
dedos para amortalhar crianças,
dentes para roer a solidão,
enquanto o verão pinta de azul o céu
e o mar é devassado pelas estrelas.
*
Porém eu procuro-te.
Antes que a morte se aproxime,
procuro-te.
Nas ruas, nos barcos, na cama,
com amor, com ódio,
ao sol, à chuva, de noite, de dia,
triste, alegre
— procuro-te.
***
(Eugénio de Andrade)

Sem Rumo

Não sei onde me levam os caminhos
Da peregrinação a que me dei:
Se a planaltos azuis de rosmaninhos,
Se a cavernas de bárbaros, não sei.
*
Ouvi cantar no céu a voz dos ninhos,
E, à voz dos ninhos vivos, acordei.
Peguei no meu bordão, todo de espinhos,
Fiz-me à jornada e nunca mais parei.
*
Sangram-me os pés de só pisar abrolhos.
São dez chagas vermelhas os meus dedos
E dois galhos trementes os meus braços.
*
Entrou a noite dentro dos meus olhos.
Anjo da Guarda, ensina-me os segredos
De andar na vida sem perder os passos.
***
(Moreira das Neves)

Ódio?


Ódio por ele? Não... Se o amei tanto,
Se tanto bem lhe quis no meu passado,
Se o encontrei depois de o ter sonhado,
Se à vida assim roubei todo o encanto...
*
Que importa se mentiu?
E se hoje o pranto
Turva o meu triste olhar, marmorizado,
Olhar de monja, trágico, gelado
Como um soturno e enorme Campo Santo!
*
Ah! nunca mais amá-lo é já bastante!
Quero senti-lo d’outra, bem distante,
Como se fora meu, calma e serena!
*
Ódio seria em mim saudade infinda,
Mágoa de o ter perdido, amor ainda.
Ódio por ele? Não... não vale a pena...
***
(Florbela Espanca)

História de Amor


Na hora certa do plantio, num chuvoso Abril,
semente sedenta de vida,
caíste no solo do meu coração que te esperava.
Germinaste, cresceste, criaste raízes.
*
Teus braços verdes se levantaram para o céu.
Chegaram as douradas flores,
seguidas de frutos generosos,
frutos que saciaram todas as minhas fomes.
*
Na tua sombra me abriguei,
no teu perfume me embriaguei.
No verde de tuas folhas, encontrei esperança.
Nas tuas flores, novos mundos de beleza.
*
As tuas raízes penetraram profundas
no solo ansioso e fértil do meu coração,
num eterno abraço de amor,
e me ligaram a ti, inseparavelmente, para sempre.
***

(Joseph E. de Sousa)

Amor Vagabundo


Amor vagabundo
Amor sem dona amor sem rumo
Á noite em teu leito de amor
Sussurras ao meu ouvido
Palavras quentes e doces
Proteges-me com o calor do teu corpo
E fico acordada a ouvir
O bater do teu coração
A sentir o teu suor escorrendo
Pelo meu corpo cansado
E pela manhã a surpresa
Abafas-me o peito
Como se eu fosse uma criança
Beijas-me com tal ternura
Que sinto algo disparar dentro de mim
E colo os meus lábios aos teus
Enrolo-me mais uma vez no teu corpo
Para sentir o teu calor
E tu partes deixando-me trémula,
imaginando as tuas mãos em minha pele
O teu suor a pingar em mim
Numa dança sem passo certo
Até á exaustão total...
***
(TattooBlue)

O Grito

Dos dias, sim, mas das noites
quem pergunta pelo nome
essas flores selvagens
(seriam flores?)
trazidas pelo teu assobio

A beleza nunca é clara
no modo em que se aproxima
Somos com certas coisas
um mundo ainda terrível
incapaz de explicações
sem nenhuma das certezas
mesmo aquelas, ínfimas, que sustentam
uma palavra, um olhar ou um grito

Só nos resta a maneira
mais pura:
de igual para igual
tão desconhecidos
***
(José Tolentino de Mendonça)

A Magnólia


A exaltação do mínimo,
e o magnífico relâmpago
do acontecimento mestre
restituem-me a forma
o meu esplendor
Um diminuto berço me recolhe
onde a palavra se elide
na matéria - na metáfora
-necessária, e leve, a cada um
onde se ecoa e resvala.
A magnólia,
o som que se desenvolve nela
quando pronunciada,
é um exaltado aroma
perdido na tempestade,
um mínimo ente magnífico
desfolhando relâmpagos
sobre mim.
***
(Luísa Neto Jorge)

O Sonho


Pelo Sonho é que vamos,
comovidos e mudos.
Chegamos? Não chegamos?
Haja ou não haja frutos,
pelo sonho é que vamos.

Basta a fé no que temos,
Basta a esperança naquilo
que talvez não teremos.
Basta que a alma demos,
com a mesma alegria,
ao que desconhecemos
e ao que é do dia-a-dia.

Chegamos? Não chegamos?

- Partimos. Vamos. Somos.
***
(Sebastião da Gama)

...

Toda a palavra tem um sentir próprio.
Entardecer.
Sentimento morno num tempo ausente que o meu peito toma,
redenção, expiação com termo certo, troça?
Mas meu peito flui, vai e vem, respiro, interrogo-me.
Jazem certezas na calçada, perdidas, como os passos.
A que caminho tardio me levam estes passos
- às vezes lar de sonho tornado de viagem -
senão à inquietação destas noites,
passo por passo repisada em meu peito?
Quem é esta Lua, estupenda fêmea intrometida
entre mim e o Rei que faz o dia,
senão a circunstância da noite?
Circunstancial eu,
julgo rasgar a sangue e fogo os muros do tempo,
desvelado leito minhas mãos súplicas do sonho fresco
que, de quando em vez, alenta minha lassidão....mas não!!!
No canto de um pássaro chega a claridade da manhã.
- cegam-me ainda as luas da tua pele nua -
É ela, apenas ela, que alivia esta agonia cega
em peito nocturno, sem circunstância.
Será fé este halo que sobe do rio até mim?
Toda a palavra tem um sentir. Me. Te. Nos.
Transcendental.
Este meu julgar-me nesta luz
de contas acertadas com a entrega.

***

(Paula Paiva)

...


Desfolhar uma rosa
é poesia
ou prosa?
***
(Cruzeiro Seixas)

Acolho-me


Acolho-me ao lençol do teu cabelo
no amor pedido do teu rosto ilúcido
e entrego-me à irisada luz
que zelaos lábios na sombria flor cedida.
A sépala descobre o centro dela
uma a uma dá o corpo à descoberta
na liturgia dos sentidos dados
à reza na capela como oferta.
Cavalgo na palavra que me dás
alado nos pequenos montes eros
percorro os sons cativos dos teus ais
aromas luzes são momentos raros.p
Passeando pela flor acesa o fogo
centelha a cada pétala que apago.
***
(José Félix)

Noite


É de noite que as palavras se soltam,
sem destinos nem contornos,
vagueando plurais em seus sentidos,
omitindo-se e revelando-se.

É de noite que me solto no sentir,
quando no adormecido silêncio
as palavras se fantasiam e libertam.

É de noite que acordo o poema
na sonolência do verbo,
na indigência dos significados,
na suavidade dos desvarios
consumados.

É de noite, na noite de mim,
que diariamente me exponho
nos silêncios libertados.
***
(Helena Monteiro)

O vínculo do meu amor à felicidade


Transformei-te num corpo
Vi-te num sonho.
Deste-me na lua
os raios brilhantes
de uma fantasia.
Que quando esquecer
volta a ser poesia!
Ergui-te com força
na sombra da mente
Voltei a erguer-te
com paixão ardente!
Só sonhei contigo
mas encontrei
toda a gente!
***
(Luís Lourenço)

Almas dos Poetas


Ai as almas dos poetas
Não as entende ninguém;
São almas de violetas
Que são poetas também.
*
Andam perdidas na vida,
Como as estrelas no ar;
Sentem o vento gemer
Ouvem as rosas chorar!
*
Só quem embala no peito
Dores amargas e secretas
É que em noites de luar
Pode entender os poetas
*
E eu que arrasto amarguras
Que nunca arrastou ninguém
Tenho alma pra sentir
A dos poetas também!
***
(Florbela Espanca)

Exílio


Oh tempo tempo tempo,
tempo de colher
o que temos maduro:
o lume dos olhos
a luzir no escuro.
***
(Eugénio de Andrade)

Doçura do Silêncio


O céu escureceu e a chuva veio rápida
Fez pessoas correrem pisando poças d’água
Com passos desencontrados

Hipnotizou sob as marquises toda gente
E os olhares se tornaram distantes
Perdidos em quietudes e coisas do coração

Do lado de dentro de uma das janelas
Uma moça olhava o embaçado do vidro
Com a ponta do dedo e riscos de inundação

Inventou a imagem de um namorado
Desejou que ele permanecesse
Ficou imóvel como esperasse um beijo
Para não acordar a doçura do silêncio
***
(Antonio Miranda Fernandes)

És...


És
Viagem perfumada
por entre beijos e carinhos!
Abraços longos e demorados!
Sorrisos rasgados!
Memória constante!
Um raio de luz, numa noite de trevas!
O teu amor dá-me paz!
Tranquilidade!
Calma!
O teu amor é o fogo
que incendeia a minha alma!
Bailamos ao ritmo do amor!!!!
Perco-me no teu olhar...
Nas esquinas do teu coração...
O que eu quero é apenas amar-te lentamente,
Como se todo o tempo fosse nosso,
Como se todo o tempo fosse pouco,
Como se este amor fosse uma vida ou um instante!
Sonhamos porque a vida agora não mudará os nossos sentidos!
- Amei-te assim que te vi,
e o meu carinho ficou claro...
para sempre ao teu lado.
***
(Andreas - "WrongNick_")

A esperança semeada


(Aos homens do 25 de Abril)
*

O sangue aqui renasce.

Na terra revolvida
rebentam ervas novas
(as horas más passaram).

O Sol - um outro sol - aqui se inventa
por sobre a lenta
erosão da estrada.

Aqui ou nunca.
Ou nada!

A voz aqui rebenta
e é não mais calada.


Por novas leis se fundam
de fibra as pulsações:

o corpo-a-corpo antigo a antiga pele
não mais hão-de pisar
a esperança semeada.

Ardentes leivas vivas avivaram
nossa canção maior.

Um girassol prossegue.

Renasce o sangue aqui
em flores de dádiva.
***
(João Rui de Sousa)

Negar


Porque insisto em negar o que todo o meu corpo
Repete vezes sem conta cada vez que respiro
Porque tento não ouvir o que me cantam os olhos
Sempre que te vejo numa inventada esquina
Onde me cruzo contigo e me prendes os sentidos
Porque insisto em chorar se tanto de ti me preenche
O dia, a noite, o adormecer e o acordar...
Porque duvido eternamente
De todos os sorrisos que me ensinas
De todos os beijos que me roubas.
É como viver sem querer viver
Sempre rejeitando a vida para não morrer
*
Como se não fosse claro
Que preciso de sofrer para melhor te amar
Que preciso de chorar para melhor te cuidar
Porque insisto em negar que te amo
Se tudo à minha volta é uma infinita canção de amor
Que me leva até ao fim de todos os caminhos
Ao princípio de todos os mares
Num momento de amor que imagino partilhando contigo
*
Porque insisto em negar
Que te amo
Se tudo em meu redor
Já o descobriu...
***

Noites sem ti


Quando o silêncio da noite me atormenta
E pensamentos de um amor me invadem
Perco-me em curvas e trilhas
E nelas não vejo tuas mãos.
Somente meu olhar perdido
à procura de algo palpável
que possa transmitir o calor
O amor que tanto esperei.
Teu vulto, uma sombra fria,
Observa...
Sem querer suspeitar presença
Apenas espreita
Murmura,
Pensa e, trancado em palavras,
Desaparece deixando-me perdida e
Só em meus pensamentos.
A noite parece mais fria
Cheia de medos e lamentos.
Recolho minhas dores
Busca de pedaços de momentos
Acalentado numa saudade eterna.
Os dias passam
As noites frias retornam
E com elas todo esse vazio imenso
Toda uma saudade que consome.
Por vezes me pergunto, quem sou eu?
Pois tantas foram as vezes
que saí de mim para ser outro alguém.
Sou metade de mim
Sou pedaço de mim
Onde meu todo se perdeu.
***
(Tânia Carvalho)

Encantamento


Vi as mulheres azuis do equinócio
voarem como pássaros cegos;
e os seus corpos sem asas afogarem-se,
devagar, nos lagosvulcânicos.
Os seus lábios vomitavam o fogo
que traziam de uma infância de magma calcinado.
A água ficava negra, à sua volta;
e os ramos das plantas submersas pelas chuvas primaveris
abraçavam-nas, puxando-as num estertor de imagens.
Tapei-as com o cobertordo verso;
estendi-as na areia grossa da margem,
vendo as cobras de água fugirem por entre os canaviais.
Espreitei-lhes o sexo por onde escorria o líquido branco de um início.
Pude dizer-lhes que as amava,
abraçando-as, como se estivessem vivas;
e ouvi um restolhar de crianças por entre os arbustos,
repetindo-me as frases com uma entoação de riso.
Onde estão essas mulheres?
Em que leito de rio dormem os seus corpos,
que os meus dedos procuram num gesto vago de inquietação?
Navego contra a corrente;
procuro a fonte, o silêncio frio de uma génese.
**
(Nuno Júdice)

O ponto de partida


Será este o ponto de partida,
obscuridade incerta
e sobre o fundo sombrio da morte?
A esperança nascerá deste branco vazio
e desta mão de cinza?
O viajante entrou num barco ou numa árvore
que o soergue, ainda hesitante, na imensidade
de uma sombra de astro.
Ele aproxima-se de formas vagas,
de espelhos entre pedras,
e junto a um muro sob as estrelas
uma figura de orvalho descalça sobre as ervas.
Tudo flutua ainda, dentro da poeira azul
e púrpura e tudo está esparso e reunido
como na primeira consciência deste mundo
tão longínquo e tão presente
como se o sol fosse um perfume
que da montanha descesse sobre as palavras ditas.
**
(António Ramos Rosa)

O sal da língua


Escuta, escuta:
tenho ainda uma coisa a dizer.
Não é importante, eu sei,
não vai salvar o mundo,
não mudará a vida de ninguém -
mas quem é hoje capaz de salvar o mundo
ou apenas mudar o sentido
da vida de alguém?
Escuta-me, não te demoro.
É coisa pouca, como a chuvinha
que vem vindo devagar.
São três, quatro palavras, pouco mais.
Palavras que te quero confiar,
para que não se extinga o seu lume,
o seu lume breve.
Palavras que muito amei,
que talvez ame ainda.
Elas são a casa, o sal da língua.
**
(Eugénio de Andrade)

Uma Mulher


Um resto de Agosto.
Uma mulher conhece
o caminho da fonte
porque o seu corpo
é um desvio do mar.
Talvez ela nos mostre
um céu líquido
por detrás dos seus ombros.
Não só as mãos morrem
fatigadas de desejo.
Há cascatas de pedra
nos olhos da memória.
**
(Graça Pires)

Nunca mais


Nunca mais
Caminharás nos caminhos naturais.
Nunca mais te poderás sentir
Invulnerável, real e densa -
Para sempre está perdido
O que mais do que tudo procuraste
A plenitude de cada presença.
E será sempre o mesmo sonho, a mesma ausência.
**
(Sophia de Mello Breyner Andresen)

Vens de noite no sonho


Vens de noite no sonho
sem pés
entre páginas
de gasta paciência
quando a música findou
e teu sorriso se desfez
como um grão de pólen.
*
Vens no veneno oculto
de meus dias
no silêncio
dos meus ossos
devagar
arrastando em queda
o nosso mundo.
*
Vens no espectro
da angústia
na escrita
inquieta
destes versos
no luto maternal
que me devolve a ti.
*
A escuridão desce então
sobre o meu corpo
quando o rosto da morte
adormece na almofada.
**
(Ana Marques Gastão)

Chove!


Chove…

Mas isso que importa,

se estou aqui abrigado nesta porta

a ouvir a chuva que cai do céu

uma melodia de silêncio

que ninguém mais ouve

senão eu?

*
Chove…

Mas é do destino

de quem ama

ouvir um violino

até na lama.

**

(José Gomes Ferreira)

Na espera do verso...


Nos vértices da paixão está o que sinto
e nela as arestas não encontro
derramo-me no mel e não te minto
antes sofregamente te pressinto
e me dou
*
E o meu corpo transforma-se em papel
e nas palavras que escreves
me alimento
*
E é no sumir do tempo que eu me escondo
e na espera do verso que eu sou
Resguardo-me apenas do que é eterno
e sorvo o momento do efémero
No instante
em que te dás e que me dou
*
E cresco assim em horizonte
ao longe
mas no mais perto que sou
amando...
(Cris)

Vou fazer amor contigo


Vou fazer amor contigo esta noite
como se fosse uma deusa
que nasceu para te amar...
Vou dançar no teu corpo num bailar de véus
e de sentidos até já não haver céu...
*
Vou levar-te a passear por entre as estrelas
num trilho de abraços e de luar
E prolongar os meus braços ao sal da tua pele
quando os meus lábios tocarem os teus
E as tuas mãos não souberem mais
como ocultar os teus anseios...
*
E os meus seios vão chamar pela lua
e pelos ventos e até pelas ondas do mar
Do ondular da tua língua
no epicentro do universo da minha vontade
e dos teus desejos...
Vou dançar este amor contigo
numa ilha sem nome ao som dos sussurros
que os teus lábios não conseguem guardar
*
E vou ouvi-los em forma de gemidos
entrelaçados no som do mar...
E ao arquejar do meu corpo,
a cada compasso dessa melodia que vamos cantar...
Saberás que te amo mais que à vida
e que dançarei até ao fim...
*
E de ti soltarás a nascente de fogo e de vida
que desaguará em mim...
E, de seguida...
estenderás os braços num abraço
para que adormeça em ti!
E eu sentirei o beijo
com que fechas as cortinas
da noite em que fiz amor contigo assim...
Amo-te!
(Cris)

Poemas?



Na noite dos mil poemas
inventei em mim as palavras
que me ensinaram a amar...

Descobri um mar de conceitos,
procurei lá os meus defeitos
e desatei a poetar...
Poemas...

Criei poemas...
Inventei teoremas
cruzei, inverti,
mas sobretudo sonhei as palavras
que são uma parte de mim...

De cada poro que tenho
saiu um pouco de sumo,
do meu cigarro foi o fumo,
e da minha alma o sentir...

Depois foi apenas
sonhar...
Usar os dedos...
Criar!

São poemas o que criei?
Decididamente, não sei...
Mas são uma parte de mim!...

(Cris)

Se às vezes digo que as flores sorriem


Se às vezes digo que as flores sorriem
E se eu disser que os rios cantam,
Não é porque eu julgue que há sorrisos nas flores
E cantos no correr dos rios...
É porque assim faço mais sentir aos homens falsos
A existência verdadeiramente real das flores e dos rios.
Porque escrevo para eles me lerem sacrifico-me às vezes
À sua estupidez de sentidos...
Não concordo comigo mas absolvo-me,
Porque só sou essa cousa séria, um intérprete da Natureza,
Porque há homens que não percebem a sua linguagem,
Por ela não ser linguagem nenhuma.
(Alberto Caeiro)

Amo-te

Amo-te como a planta que não floriu
e tem dentro de si, escondida, a luz das flores,
e, graças ao teu amor, vive obscuro em meu corpo
o denso aroma que subiu da terra.
Amo-te sem saber como, nem quando, nem onde,
amo-te directamente sem problemas nem orgulho:
amo-te assim porque não sei amar de outra maneira
a não ser deste modo em que nem eu sou nem tu és,
tão perto que a tua mão no meu peito é minha,
tão perto que os teus olhos se fecham com meu sono.
(Pablo Neruda)

A miséria do meu ser


A miséria do meu ser,
Do ser que tenho a viver,
Tornou-se uma coisa vista.
Sou nesta vida um qualquer
Que roda fora da pista.
*
Ninguém conhece quem sou
Nem eu mesmo me conheço
E, se me conheço, esqueço,
Porque não vivo onde estou.
Rodo, e o meu rodar apresso.
*
É uma carreira invisível,
Salvo onde caio e sou visto,
Porque cair é sensível
Pelo ruído imprevisto...
Sou assim. Mas isto é crível?
(Fernando Pessoa)

Tempo de ter tempo


Aqui pode ser longe dentro de mim:
há sempre a música imprevista de um verso novo
assomando no postigo do momento.

Quem dera que o tempo que tenho
fosse tempo de ter tempo
como não tenho agora.
Um qualquer tempo lento, sonolento
que, livre, me desse tempo para semear o meu tempo
Tempo de viajar vagarosamente
pelos meandros da memória.
Que não os silêncios que perdemos
no afã do tempo que não temos.

Sei que o tempo me consome,
que envelheço, que entristeço.
Que nesta procura do tempo que passa,
perco o tempo que procuro
na busca do tempo que não tenho

(Autor Desconhecido)

Livro de Horas


Aqui, diante de mim,
Eu, pecador, me confesso
De ser assim como sou.
Me confesso o bom e o mau
Que vão em leme da nau
Nesta deriva em que vou.
Me confesso
Possesso
Das virtudes teologais,
Que são três,
E dos pecados mortais
Que são sete,
Quando a terra não repete
Que são mais.
Me confesso
O dono das minhas horas.
O das facadas cegas e raivosas
E das ternuras lúcidas e mansas.
E de ser de qualquer modo
Andanças
Do mesmo todo.
Me confesso de ser charco
E luar de charco, à mistura.
De ser a corda do arco
Que atira setas acima
E abaixo da minha altura.
Me confesso de ser tudo
Que possa nascer em mim.
De ter raízes no chão
Desta minha condição.
Me confesso de Abel e de Caim.
Me confesso de ser Homem.
De ser o anjo caído
Do tal céu que Deus governa;
De ser o monstro saído
Do buraco mais fundo da caverna.
Me confesso de ser eu.
Eu, tal e qual como vim
Para dizer que sou eu
Aqui, diante de mim!
(Miguel Torga)

...


Mal nos conhecemos
Inauguramos a palavra amigo!
Amigo é um sorriso
De boca em boca,
Um olhar bem limpo
Uma casa,
mesmo modesta, que se oferece.


Um coração pronto a pulsar
Na nossa mão!
Amigo
(recordam-se, vocês aí,
Escrupulosos detritos?)
Amigo é o contrário de inimigo!
Amigo é o erro corrigido,
Não o erro perseguido, explorado.


É a verdade partilhada, praticada.
Amigo é a solidão derrotada!
Amigo é uma grande tarefa,
Um trabalho sem fim,
Um espaço útil, um tempo fértil,
Amigo vai ser,
é já uma grande festa!

(Alexandre O'Neill

Amiga...


Tu sempre foste una
e sempre foste minha,
ainda quando a cor e a forma tua se fundiam
com outra forma e cor que tu não tinhas.
Por isto é que te falo de umas coisas
que não lembras
nem nunca lembrarias
de tais coisas entre mim e ti
ainda quando tu não me sabias
e dividida em outras te mostravas
e assim dispersa me ouvias.
*
Tu sempre foste uma
ainda quando o corpo teu
com outro corpo a sós se punha,
pois o que me tinhas a dar
a outro nunca o deste
e nunca o doarias.
*
Por isto é que te sintocom tanta intimidade
e te possuo com tanta singeleza
desde quando recém vinda
ostentavas nos teus olhos grande espanto
de quem não compreendia
a antiguidade desse amor que em mim fluía.
*
(Affonso Romano de Sant'Anna)

Silêncio Gritante


O silêncio da tua voz e do teu olhar,
neste instante me chega tão gritante…
como fosse do íntimo do mundo…
tão mais alto que em outros de antes.
Vem com a dor dos degredos…
se instala e me emudece…
me estanca dentro de mim mesmo.
Chega-me misto de lamento profundoe prece.
Fogem-me as palavras ao vento
como fossem grãos de areia por entre os dedos.
Fica-me o coração choroso de versos
e as mãos conchas vazias de segredos.

(António Miranda Fernandes)

Há um tempo



Há um tempo em que é preciso

abandonar as roupas usadas,

que já têm a forma do nosso corpo,

e esquecer os nossos caminhos,

que nos levam sempre aos mesmos lugares.

É o tempo da travessia:

e, se não ousarmos fazê-la,

teremos ficado, para sempre,

à margem de nós mesmos.

(Fernando Teixeira de Andrade)

Desilusão de Pigmaleão



Tão longe mas tão perto
Um destino incerto...

Ouvindo o teu riso
Lembro-me do que senti
Incerto
Inseguro
Somos uns românticos
Tão perto mas tão longe
Um destino bem certo...

Ouvindo a tua voz
Esqueço-me que senti

É certo
E seguro
Fomos uns românticos
(Santiago)

...


Acima de tudo
deste-me dias mais claros
de uma poesia diferente.
Recordo ainda
o sabor de uma lágrima tua
ainda quente, antes do cais,
e enraivece-me o meu constante
talvez, quem sabe...nunca mais!

Percorro lugares onde fui algo
já que não te percorro a ti
pelos trilhos que me abriste
e depois tapaste.
Que importa afinal?
As sebes em redor,
feitas de uma sempre serena razão,
eram sempre tão altas.
E eu sem as conseguir saltar.

Resta-me o papel e a caneta,
os acordares obcecados pela noite fora,
o sorriso do "Noodles",
a flauta e o ver-te,
o ter-te perto, que demora.
(José Tormes)

Chove!


Chove…
Mas isso que importa!
Se estou aqui abrigado nesta porta
a ouvir a chuva que cai do céu
uma melodia de silêncio
que ninguém mais ouve
senão eu?
*
Chove…
Mas é do destino
de quem ama
ouvir um violino
até na lama.
(José Gomes Ferreira)

Não sei


Não sei de mim
se daquilo que parece ser
me perdi.
Deixei que a vida me vivesse e,
perdendo-me da vida,
a vida perdeu-se.

E menti muito,
para ser melhor poeta.
(Fátima Andersen)

...


Não sei...
se a vida é curta ou longa demais pra nós,
mas sei que nada do que vivemos tem sentido,
se não tocamos o coração das pessoas.
Muitas vezes basta ser: colo que acolhe, braço que envolve,
palavra que conforta, silêncio que respeita,
alegria que contagia, lágrima que corre, olhar que acaricia,
desejo que sacia, amor que promove.

E isso não é coisa de outro mundo,
é o que dá sentido à vida.
É o que faz com que ela não seja nem curta
nem longa demais,
mas que seja intensa, verdadeira, pura...
...enquanto durar...
(Cora Coralina)

Versos Vertentes


O dia amanheceu cinzento.
Fui lá fora ver a chuva.
A água que descia lavando a rua
– precipitando a vida –
era torrencial,…
transbordava nas frestas da calçada.
Frente às poças que se formavam
tive a lembrança dos versos.
Num suspiro de saudade…
emergiu de minha alma
uma enxurrada de palavras.
Enquanto chovia fiz rascunhos
na página nua das horas.
Um poema onde, em verdade,
sorvo uma gota da face,
resumindo o que senti e desejei
da tua poesia dos verbos
que, ao ler,…
sei estarem todos no plural.
(Rita Costa)

Sonho vago


Um sonho alado que nasceu um instante
Erguido ao alto em horas de demência...
Gotas de água que tombam em cadência
Na minha alma tristíssima, distante...
*
Onde está ele, o desejado? O infame?
O que há de vir e amar-me em doida ardência?
O das horasde mágoa e penitência?
O príncipe encantado? O eleito? O amante?
*
E neste sonho eu já nem sei quem sou...
O brando marulhar dum longo beijo
Que não chegou a dar-se e que passou...
*
Um fogo fátuo rútilo, talvez...
Eu ando a procurar-te e já te vejo!
E tu já me encontraste e não me vês!
(Florbela Espanca)

Estrelas


Olhar o céu infinito
Admirar as estrelas
Tocá-las com os dedos da imaginação
Vibrar com o brilho delas.

Brincar de fazer mundos
Usar os sentimentos mais puros
Mais profundos.

Para onde vai aquela estrela?
Um pontinho no céu a caminhar?
E olha lá... do outro lado
Outra estrela a vagar!

São meus sonhos... esperanças...
De um mundo melhor encontrar
Que realizo e conquisto
No brilho do seu olhar!
(Léia Pantoni)

Pudesse eu florir


Pudesse eu florir em cada flor
no pretexto do sonho em que te envolvo
do meu corpo, no teu corpo, em desalinho.
E tu beberes o conforto
que em cada momento te ofereço
no líquido híbrido
dos meus olhos de águia presa,
no anseio e no fascínio.
Este cálice de sangue e vida,
esta taça pálida d'amargurada orquídea.
Ser-te seiva, suor e linfa...
Pudesse eu, amado, florir e madrugar
nas pupilas do teu olhar tristonho.
Ser o teu mar, o teu mais alto sonho,
ser finda melancolia.
Ser novo dia a beber da claridade
na febre da tua lira.
Ser ninfa, de cobiçosos horizontes,
d’eternidades e tu poesia a explodir-se
na fonte de meu corpo, amado.
Concubinos, viajante de um mesmo sonho,
de mãos unidas,
elevados ao êxtase do canto egrégio
na voz do silêncio de solidão extinta.
Sermos dos amantes a voz que explode,
a voz que grita,
na flama de quem se ama
sem razão ou medida,
na praça e na avenida,
na alma nua, no chão da rua,
na purificaçãodo sal e mel.
No sorriso, na adoração,
na pacificação da dor…
Pudesse eu florir em cada flor de ti, amor!
Pudesse eu!
(Mel de Carvalho)

Já sobre a fonte


Já sobre a fronte vã se me acinzenta
O cabelo do jovem que perdi.
Meus olhos brilham menos.
Já não tem jus a beijos minha boca.
Se me ainda amas, por amor não ames:
Traíras-me comigo.
(Ricardo Reis)

Green God


Trazia consigo a graça
das fontes quando anoitece.
Era o corpo como um rio
em sereno desafio
com as margens quando desce.

Andava como quem passa
sem ter tempo de parar.
Ervas nasciam dos passos,
cresciam troncos dos braços
quando os erguia no ar.

Sorria como quem dança.
E desfolhava ao dançar o corpo,
que lhe tremia num ritmo que ele sabia
que os deuses devem usar.

E seguia o seu caminho,
porque era um deus que passava.
Alheio a tudo o que via,
enleado na melodia duma flauta que tocava
***.

(Eugénio de Andrade)

Quase um poema de amor


Há muito tempo já
que não escrevo um poema
De amor.
E é o que eu sei fazer
com mais delicadeza!
A nossa natureza
Lusitana
Tem essa humana
Graça
Feiticeira
De tornar de cristal
A mais sentimental
E baça
Bebedeira.

Mas ou seja que vou envelhecendo
E ninguém me deseje apaixonado,
Ou que a antiga paixão
Me mantenha calado
O coração
Num íntimo pudor,
--- Há muito tempo já
que não escrevo um poema
De amor
(Miguel Torga)

O fogo que na branda cera ardia


O fogo que na branda cera ardia,
Vendo o rosto gentil que na alma vejo.
Se acendeu de outro fogo do desejo,
Por alcançar a luz que vence o dia.

Como de dois ardores se incendia,
Da grande impaciência fez despejo,
E, remetendo com furor sobejo,
Vos foi beijar na parte onde se via.

Ditosa aquela flama, que se atreve
Apagar seus ardores e tormentos
Na vista do que o mundo tremer deve!

Namoram-se, Senhora, os Elementos
De vós, e queima o fogo aquela nave
Que queima corações e pensamentos.
***
(Luís de Camões)

Ter tempo


Aqui pode ser longe dentro de mim
Há sempre a música imprevista de um verso novo
Assomando no postigo do momento.
Quem dera que o tempo que tenho
Fosse tempo de ter tempo como não tenho agora.
Um qualquer tempo lento, sonolento
Que, livre, me desse tempo para semear o meu tempo
Tempo de viajar vagarosamente
Pelos meandros da memória.
Que não os silêncios que perdemos
No afã do tempo que não temos.
Sei que o tempo me consome,
que envelheço, que entristeço.
Que nesta procura do tempo que passa,
perco o tempo que procuro
Na busca do tempo que não tenho.
(Autor Desconhecido)

A miséria do meu ser


A miséria do meu ser,
Do ser que tenho a viver,
Tornou-se uma coisa vista.
Sou nesta vida um qualquer
Que roda fora da pista.

Ninguém conhece quem sou
Nem eu mesmo me conheço
E, se me conheço, esqueço,
Porque não vivo onde estou.
Rodo, e o meu rodar apresso.

É uma carreira invisível,
Salvo onde caio e sou visto,
Porque cair é sensível
Pelo ruído imprevisto...
Sou assim. Mas isto é crível?
***
(Fernando Pessoa)

Flores de cactus


Flores de cactus resplandecentes,
Espelhantes, encarnadas!
Rubras gargalhadas
De cortesãs…
Embriagam-se de sol,
Pelas doiradas manhãs,
Viçosas e ardentes!
Bela flor imprudente!
Brilha melhor o sol rutilante
Nas suas pétalas vermelhas…
É sugestivo
O ar insolente e petulante,
Como se deixam morder
Pelas doiradas abelhas!
Nascem para ser beijadas
E possuídas
Pelo sol abrasador…
Lascivas,
Predestinadas
Para os mistérios do amor!
Eu gosto desta flor pagã
E sensual,
Que num místico ritual
Se entrega toda aberta
Aos beijos fulvos do sol!
Oh! Flor do cactus enrubescida!
No teu vermelho, há sangue, há vida…
- E eu tenho uma enorme sede de viver!
***
(Judith Teixeira)

SONETO LXXXVIII


Quando me tratas mau e, desprezado,
Sinto que o meu valor vês com desdém,
Lutando contra mim, fico a teu lado
E, inda perjuro, provo que és um bem.
Conhecendo melhor meus próprios erros,
A te apoiar te ponho a par da história
De ocultas faltas, onde estou enfermo;
Então, ao me perder, tens toda a glória.
Mas lucro também tiro desse ofício:
Curvando sobre ti amor tamanho,
Mal que me faço me traz benefício,
Pois o que ganhas duas vezes ganho.
Assim é o meu amor e a ti o reporto:
Por ti todas as culpas eu suporto.
***
(William Shakespeare)

Seus olhos


Seus olhos - se eu sei pintar
O que os meus olhos cegou
Não tinham luz de brilhar.
Era chama de queimar;
E o fogo que a ateou
Vivaz, eterno, divino,
Como facho do Destino.
*
Divino, eterno! - e suave
Ao mesmo tempo: mas grave
E de tão fatal poder,
Que, num só momento que a vi,
Queimar toda alma senti...
Nem ficou mais de meu ser,
Senão a cinza em que ardi.
***
(Almeida Garret)