É com esta bela imagem que encerro o meu blogue por tempo indeterminado.
Uma imagem que desejo poder ver um dia, ao vivo e a cores, com vida e protagonizada por uma das muitas crianças que sofrem neste momento.
Farei a minha parte, o que me for possível para a tornar uma realidade.
Gosto desta partilha, gosto de ter este blogue e foi e será sempre um prazer mantê-lo, mas, por agora, outros valores falam mais alto e me levam para longe daqui.
Daqui, onde a maior parte de nós se queixa ser difícil viver e critica tudo e todos, mas se pensarmos bem, se olharmos à nossa volta e prestarmos atenção ao que se passa lá fora, perceberemos que talvez nem tenhamos sequer o direito de nos queixarmos de nada, tal é a desgraça, a miséria e a tristeza que se vê por este mundo fora.
A todas as pessoas que seguiram este cantinho de Poesia em Flor, o meu obrigada e o meu desejo de que sejam muito felizes.
Até breve...
Até breve
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Os dois horizontes
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Lágrimas
são sinais
da tristeza e do desgosto
por não aguentar mais.
*
Se o sal das lágrimas temperasse
as mágoas do dia a dia
e houvesse quem as secasse
mais feliz me sentiria.
*
Se as lágrimas fossem flores
tudo ao meu redor estaria florido
perfumando as minhas dores
e tudo que tenho sofrido.
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À procura
Correndo para além dos limites.
Tangível,
Tocante
Provocadoramente imemorial.
Na volta do tampo,
No rodar da saia
Vai
À procura do som do vento
À procura de uma boca para morar
No sorriso,
Para varrer as sombras da noite
Relembrando o canto do rouxinol.
A palavra dança na boca do sonho.
O sonho sonha com o riso da água,
A água sente o chapinhar do menino
Na borda do rio.
A palavra ancorada no fio da luz
Solta gemidos sentidos,
Leva recados do tempo
Vai até ti.
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20 Aniversario Palabras
20 años de estar juntos
esta tarde se han cumplido
para ti flores, perfumes
para mi, algunos libros
No te he dicho grandes cosas
porque no me habrian salido
ya sabes cosas de viejos
requemor de no haber sido.
Hace tiempo que intentamos
abonar nuestro destino
tu bajabas la persiana
yo apuraba mi ultimo vino.
Hoy en esta noche fria
casi como ignorando el sabor
del la soledad compartida
quise hacerte una cancion
para cantar despacito
como se duerme a los niños
y ya ves,solo palabras
sobre notas me han salido
que al igual que tu y que yo
ni se importan ni se estorban
se soportan amistosas.
mas no son una cancion
que helada esta casa !
sera que esta cerca el rio
o es que estamos en invierno
y estan llegando,estan llegando...
los frios.
20 años de estar juntos
esta tarde se han cumplido
para ti flores, perfumes
para mi, algunos libros
***
(Patxi Andion)
(Dedico este lindo poema ao meu irmão Duarte e minha cunhada Esmeralda)
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As máscaras
alegres ou maltratados, o que não fizemos
foi por culpa de ninguém, faltou aço:
nós o gastamos em tanta inútil destruição,
não importa no balanço nada disto:
os anos padeceram de pústulas e guerras,
anos desfalecentes quando tremeu a esperança
no fundo das garrafas inimigas.
Muito bem, falaremos alguma vez, algumas vezes,
com uma andorinha para que ninguém escute:
tenho vergonha, temos o pudor dos viúvos:
morreu a verdade e apodreceu em tantas fossas:
é melhor recordar o que vai acontecer:
neste ano nupcial não há derrotados:
coloquemo-nos, cada um, máscaras vitoriosas.
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Lúbrica
Lançaste no papel
Ó cálida mulher,
Contudo, um teu olhar
Do teu rostinho oval
Teus olhos sensuais,
As grandes comoções
Teus olhos imorais,
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Soneto Antigo
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Primeira água
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Caminho de uma vida
Sentida na sua futilidade,
Segue seu rumo e nunca avisa,
Traça e desenha a minha personalidade.
Alma só e tão vazia,
Vive rodeada de existência,
Um sorriso oferecido dia após dia,
Irreconhecível na sua essência.
Neste caminho sem sentido,
Arduamente percorrido,
Pedaços de mim deixo ficar,
Sinto-me mudar.
Uma mudança gélida e forçada,
Que molda lentamente,
Esta alma triste e cansada,
Tornando-a frígida e descrente.
O Presente é demoroso,
Sente-se ofegante,
Nervoso e saudoso,
Por um Futuro que é distante.
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Olho a sua boca
Tanto que vem
levar-me os olhos.
O carvão, a cinza dos
meus olhos.
A sua boca,o sulco
onde me pergunta
a olhar anavalhado
o seu brilho bravio.
Sons de sirenes, uivos,
estrondos, desabamentos,
ravinas donde rompe o amor.
(Joaquim Manuel Magalhães)
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Até ao fim
palavra a palavra,
até ao fim.
puxo o teu corpo
para o meio dele,
e de adjectivos até te ver,
tu,
o mais nu dos pronomes.
e tudo o que
não é preciso dizer:
eu e tu,
para que o poema acabe.
***
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Feliz 2010
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Receita de Ano novo
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Feliz Aniversário (*)
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Poesia de Natal
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Tarde
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Cais
Por cada barco que me negou
Mundo pequeno para quem ficou...
***
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A minha solidão
… Mas este querer arrancar a própria sombra do chão
… Mas este sufocar entre coisas mortas
… Mas este rir-me de repente
… Mas este haver entre mim e a vida
… Mas este sonho indeciso
… Mas este saber que tudo me repele
Não. A minha solidão
… mas este deitar-me de súbito a chorar no chão
***
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Fuga
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Versos quase tristes
E era talvez ali
- Por que é que tu és só pressentimento,
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Reconhecimento à loucura
Tu só, loucura, és capaz de transformar o mundo
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Imprevisto corrigido
***
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As palavras

Há palavras que são sombras de árvores
ou um bálsamo da terra,
um pressentimento de espuma,
um incêndio do tacto,
uma reverência ao desconhecido.
Amo as palavras que são às vezes sonâmbulos cavalos,
satélites de granito,
raparigas cegas no fundo das casas,
veias de uma estrela submarina.
Como não amá-las pela brisa
se são pétalas de um clamor silencioso
ou anjos sossegados dormindo sobre a terra
ou lúcidas e ébrias, majestosas e puras,
magníficas como um dorso recamado de estrelas,
intacta revelação de invioladas luas?
Desconfio das palavras, mas às vezes são leves, musicais
aves que planam sobre uma cidade branca,
ilhas mágicas, selados vasos, cordeiros recém-nascidos,
caravanas vermelhas, armadilhas de cristal,
amoroso tremor da matéria terrestre.
Como um boi nocturno das águas eu procuro
essas guitarras plantadas nas plantas
que através de eclipses e da distância
erguem uma árvore de música ou uma pirâmide
ou as lianas vivas que me defendem dos abismos.
Como estátuas de ar as palavras levantam-se
na harmonia delirante do nómada do deserto.
Quer sejam suspiros entre os arbustos ou sonâmbulas melodias
estão sempre à altura dos seus próprios desejos.
Quer o cérebro sangre ou a terra estremeça
o seu cerimonial é inesgotável, as suas relíquias vivas.
São abelhas ou astros que buscam alimento
nos ninhos de amêndoas ou nos espelhos da lua?
Amo as palavras, acredito nos seus cristais secretos,
nos seus cavalos subterrâneos, nos seus densos diamantes.
Escrevo-as com minucioso ardor entre nascentes e sombras,
sei que são anjos de argila, antiquíssmos arqueiros
que disparam as flechas de erva sobre estrelas vivas.
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A pequena angústia
As estrelas brilham.
Não escutam o silêncio
As estrelas falam
(Ruy Cinatti)
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Quase perfeito
Sabe bem ter-te por perto
Quase que não chegava
Não me lembras o céu
Se um beijo é quase perfeito
Se um dia um anjo fizer
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A sofreguidão de um instante
e trago um ceptro e uma coroa,
o primeiro de ferro, a segunda de urze,
para ser o rei efémero
desse amor único e breve
que se dilui em partidas
e se fragmenta em perguntas
iguais às das amantes
que a claridade atordoa e converte.
Deixa-me reinar em ti
o tempo apenas de um relâmpago
a incendiar a erva seca dos cumes.
E se tiver que montar guarda,
que seja em redor do teu sono,
num êxtase de lábios sobre a relva,
num delírio de beijos sobre o ventre,
num assombro de dedos sob a roupa.
Eu estava morto e não sabia, sabes,
que há um tempo dentro deste tempo
para renascermos com os corais
e sermos eternos na sofreguidão de um instante.
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Um outro tanto

Não sei como consigo
amar-te tanto
se querer-te assim na minha fantasia
é amar-te em mim
e não saber já quando
de querer-te mais eu vou morrer um dia
perseguir a paixão até ao fim é pouco
exijo tudo até perder-me
enquanto, e de um jeito tal que desconhecia,
poder amar-te ainda
um outro tanto.
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Nascimento último
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Vento
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Angela Adonica

***
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Estudo de nu
*
Essa curva quase nada que desenha
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Dois poemas
*
É como se a noite se molhasse
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De esperas construímos o amor...
que encheu as tuas mãos de sol e a tua boca de beijos.
Em estranhos desencontros nos amamos.
Havia o rio mas sempre ficávamos na margem.
Eu tocava o teu peito e os teus olhos e, nas minhas mãos,
a tarde projectava as suas grandes sombras
enquanto as gaivotas disputavam sobre a água
talvez um peixe inquieto, algo que nunca pudemos ver.
As nossas bocas procuravam-se sempre, ávidas e macias
E por muito tempo permaneciam assim, unidas,
machucando-se, torturando as nossas línguas quase enlouquecidas.
Depois olhávamo-nos nos olhos.
No mais profundo silêncio.
E, sem palavras,partíamos com as mãos docemente amarradas
e os corações estoirando uma alegria breve
Quando a noite descia apaixonada
Como o longo beijo da nossas despedida.
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Acho que é isso...
e tudo se passa
com passos já passados
tem os que partem
da pedra ao vidro
e tem, ainda bem,
os que deixam
a vaga impressão
de ter ficado
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O amor é uma companhia
é uma coisa que está comigo.
e sou forte como as árvores altas.
não sei o que é feito
com a cara dela no meio.
***
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Amor da palavra, amor do corpo
Que treme, esquiva.
Com os olhos dela te quero ver,
que te não vejo.
Boca na boca, através de que boca
posso eu abrir-te e ver-te?
É meu receio que escreve e não o gosto
do sol de ver-te?
Todo o espaço dou ao espelho vivo
e do vazio te escuto.
Silêncio de vertigem, pausa, côncavo
de onde nasces, morres, brilhas, branca?
És palavra ou és corpo unido em nada?
É de mim que nasces ou do mundo solta?
Amorosa confusão, te perco e te acho,
à beira de nasceres tua boca toco
e o beijo é já perder-te.
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Caminho encontrado
Abismo de mãos
E gestos em fúria
Palavras
Silêncios
E corpos suspensos
Nas bocas a febre
Nos olhos delírio
Regresso de noite
Caminho encontrado.
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Os teus lábios
e que ao sair da minha boca
a minha alma volte a entrar dentro de ti.
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Breve
o perfume da flor escondida
beber num sopro este existir
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...

Original é o poeta
que se origina a si mesmo
que numa sílaba é seta
noutro pasmo ou cataclismo
o que se atira ao poema
como se fosse um abismo
e faz um filho às palavras
na cama do romantismo.
Original é o poeta
capaz de escrever um sismo.
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A falha do destino
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Bandeira Branca
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Sozinha
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Na sensação do partilhar
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Poema ao amor
E tua voz murmurando em meu ouvido
E me flagro com teu rosto em minha mente
E, pudesse eu, cantaria agora ao mundo,
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Entre o real e o imaginário
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Poema de amor - Colar de pérolas
Enfiado para te dar:
As pérolas são os meus beijos,
O fio é o meu pesar.
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Para ti
meus beijos foram sem conto
apertei-te contra mim
enlacei-te nos meus braços
embriaguei-me de abraços
fiquei louco e foi assim
dá-me beijos, dá-me tantos
que enleado em teus encantos
preso nos abraços teus
eu não sinta a própria vida
nem minha alma, ave perdida
no azul amor dos teus céus
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O amor quando se revela
Ah, mas se ela adivinhasse,
Mas quem sente muito, cala;
Mas se isto puder contar-lhe
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Apelo
e vem.
Nas fontes, vivas,
do meu corpo
saciarás a tua sede.
Os ramos dos meus braços
serão sombra rumorejante
ao teu sono, exausto.
Atravessa os campos da noite
e vem.
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Na palma da tua mão
busco ternura
sem contar meses,
anos,dias,
sem saber dizer
se já te chorei
por inteiro
o suficiente
para não voltar
a perder-te
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***
me soube
defender
em todas
as circunstâncias…
menos na circunstância
de te amar
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Perfil de Primavera
Nas mãos que eu ergo acima desta ausência.
O meu sangue desperta, cria raízes no teu sangue
Nos jardins desertos da nossa solidão.
As minhas mãos, as tuas mãos, os corpos abraçados
E a única cidade construída para o nosso amor:
Nua, inquieta, clandestina.
A tua boca no meu peito.
As ruas que eu abri no teu olhar
Começam nos meus dedos.
Vem,
Eu amo-te.
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Para ti
que desfolhei a chuva
para ti soltei o perfume da terra
toquei no nada
e para ti foi tudo
Para ti criei todas as palavras
e todas me faltaram
no minuto em que talhei
o sabor do sempre
Para ti dei voz
às minhas mãos
abri os gomos do tempo
assaltei o mundo
e pensei que tudo estava em nós
nesse doce engano
de tudo sermos donos
sem nada termos
simplesmente porque era de noite
e não dormíamos
eu descia em teu peito
para me procurar
e antes que a escuridão
nos cingisse a cintura
ficávamos nos olhos
vivendo de um só
amando de uma só vida
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Receber-te
o que seria ter-te aqui presente
do que seria ter-te e não saber
com que forma do corpo receber-te…
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O sorriso
que sem rodeios cantará
a festa de estar contigo.
Entretanto, exploro um tema,
sedento de palavras que não há
para dizer o que digo:
o infindável tema do sorriso
que te marca o olhar.
E de nada mais preciso
para continuar.
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Entraste...
desarrumaste as salas todas
e já não sei quem sou, onde estou.
O amor sabe.
O amor é um pássaro cego
que nunca se perde no seu voo.
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Duas faces
sou a dor
sou o desencanto.
No entanto,
tão serena
sou amor,
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A luz que vibre
sobre o teu rosto
O mar que oscile
sob os teus ombros
O que me atinge
vem de mais longe
lá dos confins
em que te sonho
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Soneto 1
*
Como era doce aquele seio arfando!
*
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Doçura do silêncio
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Sonho Cristalino
Sinto o silêncio da tua alma no meu corpo
E a brisa fresca da noite gela-me os sentidos
Perco a noção da vida, esqueço-me de viver.
A madrugada leva-me longe,
Longe do mundo e da saudade,
Dos gritos frios da monotonia.
Quanta calma, quanta paz
Abraça o meu cansaço
E despe de mim as roupas da nostalgia
Lá longe não sei aonde, aonde tudo é cristalino
Como as águas que nascem no horizonte.
Os desejos são eternos e as vontades mendigas
São como a luz de quem não vê e os olhos
Que tudo invejam
Quando fecho os olhos, não durmo, viajo
Para lá da eternidade...
***
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Sei de...
sei de tudo o que não vês,
sei de tudo o que não sentes.
Sei de ontem
da fome que se desprende de ti,
Sei de hoje
a vontade que te promete auroras boreais.
Sei de mim
de tudo o que sinto
e de tudo que queria não ter.
Sei de mim
do rego cavado no peito
e do cheiro deste amor desatinado.
Sei de nós
do que somos e queremos,
do que temos e tememos
dos nacos de luz que nos iluminam,
dos fios azuis que nos atam à vida.
Sei de ti.
Sei de mim
Será que sei de nós?
***
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O amor é
*
O amor é
O amor é
O amor é
O amor é
*
*
O amor é
O amor é
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Sopra um vento
nascido como todos
quando escavávamos dentro de nós
escavando a distância
foi já tempestade fechada em nevoeiro
hoje é apenas brisa
afrouxada na distância
recebo esse sopro suave como uma carícia
de quem ao largo me acena
enquanto parte
sempre entre nós um vento
ar com que te respiro
enquanto o longe nos escava
a distância
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Não basta
Não basta saber que existes.
É como estar sedenta
E saber que existe água
É como estar faminta
E saber que há pão
É doer, definhar
E saber que existe um bálsamo.
Não.
Não basta saber que existes
É preciso que estejas.
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Cantiga
Como um navio sobre o mar.
Se o vento sopra e rasga as velas
E a noite é gélida e comprida
E a voz ecoa das procelas,
Deixa-te estar na minha vida.
Se erguem as ondas mãos de espuma
Aos céus, em cólera incontida,
E o ar se tolda e cresce a bruma,
Deixa-te estar na minha vida.
À praia, um dia, erma e esquecida,
Hei, com amor, de te levar.
Deixa-te estar na minha vida.
Como um navio sobre o mar.
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A canção possível
Por mais que digamos,
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Escrevo de pé andando
assim mesmo, sim, cabisbaixo
(a vida pulsa nas calçadas
pássaros sem asas, telefones mudos
janelas sem paisagens, muros cariados,
acho que estão nos filmando
a palavra imortaliza, mas eu passo.
deixo um rastro de palavras ocas
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Vôo sobre fogo
palavras, passo a passo, à disposição do acaso
ou desvelando indesejáveis verdades
Sem alarde - silencioso sofrimento -
passam no fim de tarde - sílabas de poente solidão -
aquarelando saudades nunca imaginadas...
*
Destino já não há, apenas um eterno seguir
Seguir em busca da idealizada liberdade sob o sol
E não importa o tempo, entregue ao vento,
o intento só perderá seu alento
quando a montanha transformar-se em pó
*
Estes pássaros-poemas, voando a esmo neste espaço,
são refrações, significâncias pouco traduzíveis...
Letras que se desprendem de uma triste história
e despencam nesta cinza tarde de inverno
A memória traz quadros de onde fogem figuras
e o que permanece são vazias e inquietantes molduras
Estes pássaros, em meio a tantas tormentas,
já não acreditam ser possível encontrar o oásis
O verdadeiro porto-seguro é o invisível vôo,
pois o futuro - olhos fechados - tropeça em coisas e pessoas
*
O cansaço é mais uma peça pregada pelo destino
E por mais que precisem e tentem, regresso já não,
Pois - nas nuvens - apagadas foram todas as pegadas
Por entre as últimas réstias do sol,
aos pássaros só resta alçar mais um vôo pelos desvãos do céu
Mas com eles também pesadamente vão
a certeza de desperdício e o completo desencanto
*
Não tem talvez: estes pássaros-poemas sou eu mesmo,
Mergulhando, sem qualquer preocupação com a volta,
profundamente no dilema da vez.
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Chove
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A mão torturada por um olhar
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Renúncia
Anoiteceu de súbito. Acabou-se.
Sofre de ânimo forte, alma intranquila!
Que o grande amor, quando a renúncia o invade,
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Pobre Amor
Que te não enterneça esta loucura,
Ah! Quanto eu sofreria se alegrasses
Persiste na moral em que persistes.
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Motivo
Irmão das coisas fugidias,
Se desmorono ou se edifico,
Sei que canto.
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Talvez
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O poeta e a vida
Quebro-os
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O Pai
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Tem de haver um tempo
Um abismo
Uma porta rarefeita
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Canção do verdadeiro abandono
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Final
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Anos sem fim, à luz do mar aceso
te vi nudez quase total, tão grácil
figura juvenil, ambígua e fácil,
e ao longe às vezes totalmente nua
em só relance de malícia crua.
Tudo isso me atraía e me afastava,
embora a vista retornando escrava,
a teus lugares me tivesse preso.
E quase sempre então tua figura,
sentada estátua, ou falsa sesta impura,
lá era, ao sol, o tempo congelado.
Hoje, subitamente, tu não viste
ninguém senão o meu olhar quebrado,
e com lenta inocência te despiste.
Mas quantas rugas no sorriso ansiado!
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A sombra sou eu
ela não me segue,
eu estou na minha sombra
e não vou em mim.
Sombra de mim que recebo a luz,
sombra atrelada ao que eu nasci,
distância imutável de minha sombra a mim,
toco-me e não me atinjo,
só sei do que seria
se de minha sombra chegasse a mim.
Passa-se tudo em seguir-me
e finjo que sou eu que sigo,
finjo que sou eu que vou
e não que me persigo.
Faço por confundir a minha sombra comigo:
estou sempre às portas da vida,
sempre lá, sempre às portas de mim!
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A última lágrima
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Pensar em ti
Um pesar grãos de nada em mínima balança
Um desembaraçar de linhas de costura,
Penso em ti com tamanha ternura
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As Primeiras Chuvas
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Eros e Psique

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Quem Me Quiser
Quem me quiser há-de saber as fontes,
Quem me quiser há-de saber a chuva
Quem me quiser há-de saber os medos
Quem me quiser há-de saber a espuma
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O Céu
quem como eu traz desfraldado o coração
sabe o que querem dizer estas palavras.
A pele serve de céu ao coração.
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Coisa Amar
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Soneto CV
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Assim eu vejo a vida
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Dever de Sonhar
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A Mulher Mais Bonita do Mundo
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A um ausente
tenho razão de te acusar.
Houve um pacto implícito que rompeste
e sem te despedires foste embora.
Detonaste o pacto.
Detonaste a vida geral, a comum aquiescência
de viver e explorar os rumos de obscuridade
sem prazo sem consulta sem provocação
até o limite das folhas caídas na hora de cair.
Antecipaste a hora.
Teu ponteiro enlouqueceu, enlouquecendo nossas horas.
Que poderias ter feito de mais grave
do que o acto sem continuação, o acto em si,
o acto que não ousamos nem sabemos ousar
porque depois dele não há nada?
Tenho razão para sentir saudade de ti,
de nossa convivência em falas camaradas,
simples apertar de mãos, nem isso, voz
modulando sílabas conhecidas e banais
que eram sempre certeza e segurança.
Sim, tenho saudades.
Sim, acuso-te porque fizeste
o não previsto nas leis da amizade e da natureza
nem nos deixaste sequer o direito de indagar
porque o fizeste, porque te foste.
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A Flor Que És
tu perere Sombra errarás absurda,
(Ricardo Reis)
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Sonho e não realidade!
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Sintonia
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Retrato de uma princesa desconhecida
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Lágrimas tristes tomarão vingança
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Serenata
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Tenho na mão a rosa
Que seu perfume seja o sinal
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Minha Desgraça
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Húmido de beijos e de lágrimas
***
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Recado
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Folhas soltas entre as flores
"Meto as mãos nos bolsos e trago-as carregadas de noites de amor: penso que isso basta para encontrar o mundo"
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Há uma música do Povo
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O meu olhar azul como o céu

O meu olhar azul como o céu
É calmo como a água ao sol
É assim, azul e calmo...
Porque não interroga nem se espanta...
Se eu interrogasse e me espantasse
Não nasciam flores novas nos prados
Nem mudaria qualquer coisa no sol
De modo a ele ficar mais belo...
(Mesmo se nascessem flores novas no prado
E se o sol mudasse para mais belo,
Eu sentiria menos flores no prado
E achava mais feio osol...
Porque tudo é como é e assim é que é
E eu aceito e nem agradeço,
Para não parecer que penso nisso...)
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Metamorfoses
neste mundo profano
que é o meu gabinete
de trabalho:
uma despensa.
As outras dividiam-se
por sótãos,
eu movo-me em despensa
com presunto e arroz,
livros e detergentes.
Que a luz penetre
no meu sótão
mental
do espaço curto
E as folhas de papel
que embalo docemente
transformem o presunto
em carruagem.
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A Política do Dia

dentífrico dos candidatos
e pelas ruas nos aponta
o céu, em múltiplos retratos.
céu não póstumo ou merecido
em cruel sala de espera
mas entre parêntesis de fogo
festiva véspera de guerra
Teor de montras a vida
com democrático humor
a todos deixa viver
a sua dose de flor
Publicitária a vida faz
sua campanha eleitoral
prato de vida apetitosa
temperada com humano sal
Televisor férias de verão
tira a vida do seu discurso
e um amor provençal
que nos domestica o urso
Popular a vida é toda
pétalas de apertos de mão.
Que meus versos me vinguem
de cair nesse alçapão
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Crepuscular
E sinto além da realidade
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A Flor do Amor
Germina lenta,
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Gaivota
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Ilusão Perdida
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Infinito
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As Minhas Asas
Asas que um anjo me deu,
Que, em me eu cansando da terra,
Batia-as, voava ao céu.
– Eram brancas, brancas, brancas,
Como as do anjo que mas deu:
Eu inocente como elas,
Por isso voava ao céu.
Veio a cobiça da terra.
Vinha para me tentar;
Por seus montes de tesouros
Minhas asas não quis dar.
– Veio a ambição, co'as grandezas,
Vinham para mas cortar
Davam-me poder e glória
Por nenhum preço as quis dar.
Porque as minhas asas brancas,
Asas que um anjo me deu,
Em me eu cansando da terra
Batia-as, voava ao céu.
Mas uma noite sem lua
Que eu contemplava as estrelas,
E já suspenso da terra,
Ia voar para elas,
– Deixei descair os olhos
Do céu alto e das estrelas...
Vi entre a névoa da terra,
Outra luz mais bela que elas.
E as minhas asas brancas,
Asas que um anjo me deu,
Para a terra me pesavam,
Já não se erguiam ao céu.
Cegou-me essa luz funesta
De enfeitiçados amores...
Fatal amor, negra hora
Foi aquela hora de dores!
– Tudo perdi nessa hora
Que provei nos seus amores
O doce fel do deleite,
O acre prazer das dores.
E as minhas asas brancas,
Asas que um anjo me deu
Pena a pena me caíram...
Nunca mais voei ao céu.
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Fugaz

Fugaz passagem por uma paisagem,
lugar do onde, do ontem, do quando,
quantas palavras ficaram faltando
na boca cheia de imagens.
o outro é aquele que ficou à margem,
no espanto de um pronome,
no corpo de uma brisa suave;
o outro é como uma fome
pluma à deriva, à distância, ou quase.
estranho em sua própria viagem,
garrafa com uma mensagem,
olhar durando numa flor,
sem nome, secreta, selvagem.
Desterro, água bebida num trem,
peça incompleta, festa adiada, vertigem,
a cabeça sempre em alguém,
eu outro, eu todos, ninguém.
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O Verbo Flor

O verbo flor
é conjugável
por quase todas as pessoas
em certos tempos definidos.
a saber:
quase nunca no Outono
no Inverno quase não
quase sempre no Verão
e demais na Primavera
que no coração
poderá durar
e ser eterna.
quando o verbo conjugar:
quando eu flor
quando tu flores
quando ele flor
e você flor
quando nós
quando todo mundo flor.
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A Vida Vivida
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Amor Amante
Resplandece nas lembranças sem explicações.
Reinvento versos no papel em branco...
Ressurgem as labaredas do amor,
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Poema Em Linha Recta
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Desejo Primeiro
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Quero Ser O Teu Amigo
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Tu
entre as palavras,
na solidão dos versos
ou na pressa das frases,
encontro-te e
sei, finalmente, o pronome
que está entre mim
e nós.
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Recomeça
Se puderes,
Sem angústia e sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
do futuro,
Dá-os em liberdade
Enquanto não alcances
não descanses.
De nenhum futuro queiras só metade.
***
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Sonhos Adormecidos

Magnetizada pelo aroma das flores,
sobrevôo os mais silenciosos recantos...
o meu pensamento vem delineando...
e penetra no ar o meu encantamento...
mais uma vez, me deixo embalar em meu sonho
que mexe e penetra fundo na alma
e busca resíduos adormecidos e indecisos
que repentinamente...dentro de mim...
se desperta em confusos aromas que...
somente eu sinto...
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Desenraizados
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Que é voar?
É só subir no ar,
levantar da terra o corpo, os pés?
Isso é que é voar?
Não.
Voar é libertar-me,
é parar no espaço inconsistente
é ser livre, leve, independente
é ter a alma separada de toda a existência
é não viver senão em não - vivência
E isso é voar?
Não.
Voar é humano
é transitório, momentâneo...
Aquele que voa tem de poisar em algum lugar:
isso é partir
e não voltar.
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Bilhete
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Sabedoria
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Amor é bicho instruído
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Amantes Incertos
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Se ao menos soubesses tudo o que eu não disse
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Soneto
Una-se todo, em traiçoeira liga,
*
Durmo feliz sobre o suave riso
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Poema Da Voz Que Escuta
Chamam-me lá em baixo.
São as coisas que não puderam decorar-me:
As que ficaram a mirar-me longamente
E não acreditaram;
As que sem coração, no relâmpago do grito,
Não puderam colher-me.
Chamam-me lá em baixo,
Quase ao nível do mar, quase à beira do mar,
Onde a multidão formiga
Sem saber nadar.
Chamam-me lá em baixo
Onde tudo é vigoroso e opaco pelo dia adiante
E transparente e desgraçado e vil
Quando a noite vem, criança distraída,
Que debilmente apaga os traços brancos
Deste quadro negro - a Vida.
Chamam-me lá em baixo:
Voz de coisas, voz de luta.
É uma voz que estala e mansamente cala
E me escuta.
***
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Há dias
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Se se morre de amor...
Simpáticas feições, cintura breve,
Clarão, que as luzes ao morrer despedem:
Amar, é não saber, não ter coragem
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Parabéns...

Fazes-me falta!
Preciso do teu colo
Tenho saudades de quando me ralhavas….
Dos conselhos que me davas e que eu não seguia
E que agora sei que eram sábios conselhos!
E mesmo quando errrava…
Ficavas sempre do meu lado
Davas-me a mão….
Dos princípios que me ensinaste!
E que fizeram de mim a pessoa que eu sou hoje!
Ensinaste-me a lutar pelas coisas em que acredito
Ensinaste-me que a sinceridade e a honestidade
Fazem de nós melhores pessoas….
Ensinaste-me que confiar nos dá força….
Ensinaste-me que o mal não é não conseguir!
O mal é não tentar!
Fazes-me falta!
Preciso do teu colo
Do teu sorriso tão carinhoso…
Tenho saudades de quando brincavas comigo
Como se fosses criança como eu…
De quando me ensinavas que às vezes é preciso sofrer
Para acreditar!
E olho para o céu….
E descubro-te naquela estrelinha que me sorri!
Preciso do teu colo…..
E hoje queria-te dar o maior beijo do mundo…
E continuo a sentir o último beijo que me deste!
Como se soubesses que ias partir……
Obrigada por teres sido o melhor Pai do mundo!
Fazes-me falta!
Preciso do teu colo…..
Hoje…..
Queria dar “aquele” beijo de Parabéns!
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Desespero
Não eram meus os dedos que tocaram
Não fui eu que te quis.
A grande solidão que de ti espero.
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Travessia
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Dás-me o Mundo
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Parabéns, Ana Rita
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Só tu, doce criança
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A Busca Do Homem
busca sempre mais além
esquecendo muitas vezes
procurar perto também.
E quanta vez não sucede
perder tempo...
tempo... tempo...
procurando muito longe
aquilo que está tão perto!!!
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A Saudade Lembrou De ti
Carregada de doces recordações
Que falam na alma uma poesia
Ora de amor ora de amizade!
Ascendendo volúpias
Sobre as cinzas...
Fazendo crepitar
A lareira do tempo
Que leva e traz o passado
Num presente ávido
De sentimentos adormecidos
No colo do coração...
A saudade traz uma carícia
Levada sem despedida...
O coração revira uma caixinha de guardados
Revê fotografias tiradas em memórias inesquecíveis...
O papel rascunhado de versos
Feitos para traduzir o tamanho sentimento
Que guardo na alma
Gritando o quanto gosto de ti!
E a distância simplesmente separando nossos caminhos...
Mas a saudade é flecha certeira
Que aponta a direcção mais intima de nós dois...
A lágrima se emociona
E chora...
Recorda nossas venturas nas páginas da alma...
Mútua entrega de carinhos
Numa amizade cheia de amor
Que sempre permite a saudade
Vinda nos trilhos do tempo
Deixada na estação solidão...
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Saudade
Triste de ti, ancião, que te condenas
Ter saudade é viver passadas vidas,
Sonha-se… E em sonho, como por encanto,
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Meu mundo e nada mais
Eu que tinha tudo hoje estou mudo, estou mudado
Eu queria tanto estar no escuro do meu quarto
Não estou bem certo se ainda vou sorrir
Eu que tinha tudo hoje estou mudo, estou mudado
Eu queria tanto estar no escuro do meu quarto
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Traduzir-se
uma parte de mim
Uma parte de mim
Uma parte de mim
Traduzir-se uma parte
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Revelações de mim
Se um dia eu entrar em tua casa não te assustes
Foi a saudade que apertou demais meu coração...
Se sentires uma presença em teu quarto não te alardes
Sou eu que venho implorar teu amor
É o desejo que sinto por ti...
Se um dia tocarem teu corpo não te assustes
Sou eu, venho conferir o amor que me juras
Não que não acredite em tuas palavras
Mas meu corpo necessita sentir teu calor...
Se chegar sem muito falar, olhe bem em meus olhos
Escute o que eles têm para te falar
Não te surpreendas com o que ouvires deles
Será a verdade guardada em meu peito que eles te dirão...
Se eu nada disser, não fiques preocupada, relaxa
Apenas me abras teus braços e digas que me amas
Não quero ouvir mais nada...
Quero apenas sentir teu ritmo em contacto com meu corpo!
Se invadir tua intimidade não te preocupes com teus segredos
Estarão todos guardados dentro de mim
E de lá jamais sairão...
Mas não me negues teu carinho e teu amor
Chegarei como um mendigo faminto!
Saberás o que desejo com apenas um olhar
Mata minha fome e a sede que tenho de ti!
Não ficarei muito tempo, não quero roubar-te o sossego
Ficarei o suficiente para marcar teu coração
Para matar minha vontade de ti
E para matar tua sede de mim...
Assim como entrei, sairei de tua vida
Mas nunca mais seremos os mesmos...
Sentiremos na alma que a felicidade é real
Apenas ainda não podemos alcançá-lá.
Levarei o gosto de tua boca
O sal de teu suor em contato com minha língua
Levarei além de tua doce lembrança
A certeza de que não somos apenas um caso
Somos duas almas a caminho da perfeição
(Eduardo Baqueiro)
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Quando sentires...
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Pensando em você
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Caminho Encontrado
Abismo de mãos
E gestos em fúria
Palavras
Silêncios
E corpos suspensos
Nas bocas a febre
Nos olhos delírio
Regresso de noite
Caminho encontrado.
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Freedom

Quem ama não prende, liberta.
Por isso eu te liberto.
Deixo-te ir. Segue o teu rumo, meu amor.
Desejo-te toda a felicidade do Mundo.
Se isso significa ver-te partir para o outro lado do planeta,
a quilometros de distância, que seja.
Se para encontrares a felicidade
tenhas de estar nos braços de outra mulher, seja.
Quero do fundo do coração que sejas muito feliz.
Por isso te liberto.
Para o Mundo.
Para ela.
Para o que seja.
Vai.
Segue o teu rumo.
Que o caminho se faça de dias de sol.
Também eu seguirei o meu rumo.
Contigo no coração.
Mas sem ti.
Gostando muito do que fomos juntos,
mas não te amando como então.
A vida seguirá.
Os dias passarão.
As luas cheias por cima de nós...
Quem sabe se um dia
a tua estrada se cruzará com a minha?
***
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Sussurro
e
pétala a pétala
deito o descobrir da minha pele nas tuas mãos
e escorrego o sabor do meu suor nos teus lábios
ainda secos
*
Começo a acordar-me
no sorriso que descubro na ponta dos teus dedos
e
escuto o sussurro dos teus poros já abertos
sorrio-te
e
entrego-me
Suspiro...
***
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Nua
I
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Procuro-te

Procuro a ternura súbita,
os olhos ou o sol por nascer
do tamanho do mundo,
o sangue que nenhuma espada viu,
o ar onde a respiração é doce,
um pássaro no bosque
com a forma de um grito de alegria.
*
Oh, a carícia da terra,
a juventude suspensa,
a fugidia voz da água entre o azul do prado
e de um corpo estendido.
*
Procuro-te: fruto ou nuvem ou música.
Chamo por ti,
e o teu nome ilumina as coisas mais simples:
o pão e a água, a cama e a mesa,
os pequenos e dóceis animais,
onde também quero que chegue o meu canto
e a manhã de maio.
*
Um pássaro e um navio são a mesma coisa
quando te procuro de rosto cravado na luz.
Eu sei que há diferenças,
mas não quando se ama,
não quando apertamos contra o peito
uma flor ávida de orvalho.
*
Ter só dedos e dentes é muito triste:
dedos para amortalhar crianças,
dentes para roer a solidão,
enquanto o verão pinta de azul o céu
e o mar é devassado pelas estrelas.
*
Porém eu procuro-te.
Antes que a morte se aproxime,
procuro-te.
Nas ruas, nos barcos, na cama,
com amor, com ódio,
ao sol, à chuva, de noite, de dia,
triste, alegre
— procuro-te.
***
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Sem Rumo
Não sei onde me levam os caminhosDa peregrinação a que me dei:
Se a planaltos azuis de rosmaninhos,
Se a cavernas de bárbaros, não sei.
*
Ouvi cantar no céu a voz dos ninhos,
E, à voz dos ninhos vivos, acordei.
Peguei no meu bordão, todo de espinhos,
Fiz-me à jornada e nunca mais parei.
*
Sangram-me os pés de só pisar abrolhos.
São dez chagas vermelhas os meus dedos
E dois galhos trementes os meus braços.
*
Entrou a noite dentro dos meus olhos.
Anjo da Guarda, ensina-me os segredos
De andar na vida sem perder os passos.
***
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Ódio?

Ódio por ele? Não... Se o amei tanto,
Se tanto bem lhe quis no meu passado,
Se o encontrei depois de o ter sonhado,
Se à vida assim roubei todo o encanto...
*
Que importa se mentiu?
E se hoje o pranto
Turva o meu triste olhar, marmorizado,
Olhar de monja, trágico, gelado
Como um soturno e enorme Campo Santo!
*
Ah! nunca mais amá-lo é já bastante!
Quero senti-lo d’outra, bem distante,
Como se fora meu, calma e serena!
*
Ódio seria em mim saudade infinda,
Mágoa de o ter perdido, amor ainda.
Ódio por ele? Não... não vale a pena...
***
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História de Amor

Na hora certa do plantio, num chuvoso Abril,
semente sedenta de vida,
caíste no solo do meu coração que te esperava.
Germinaste, cresceste, criaste raízes.
*
Teus braços verdes se levantaram para o céu.
Chegaram as douradas flores,
seguidas de frutos generosos,
frutos que saciaram todas as minhas fomes.
*
Na tua sombra me abriguei,
no teu perfume me embriaguei.
No verde de tuas folhas, encontrei esperança.
Nas tuas flores, novos mundos de beleza.
*
As tuas raízes penetraram profundas
no solo ansioso e fértil do meu coração,
num eterno abraço de amor,
e me ligaram a ti, inseparavelmente, para sempre.
***
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Amor Vagabundo

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O Grito
quem pergunta pelo nome
essas flores selvagens
(seriam flores?)
trazidas pelo teu assobio
A beleza nunca é clara
no modo em que se aproxima
Somos com certas coisas
um mundo ainda terrível
incapaz de explicações
sem nenhuma das certezas
mesmo aquelas, ínfimas, que sustentam
uma palavra, um olhar ou um grito
Só nos resta a maneira
mais pura:
de igual para igual
tão desconhecidos
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A Magnólia
do acontecimento mestre
restituem-me a forma
o meu esplendor
Um diminuto berço me recolhe
onde a palavra se elide
na matéria - na metáfora
-necessária, e leve, a cada um
onde se ecoa e resvala.
A magnólia,
o som que se desenvolve nela
quando pronunciada,
é um exaltado aroma
perdido na tempestade,
um mínimo ente magnífico
desfolhando relâmpagos
sobre mim.
***
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O Sonho

Pelo Sonho é que vamos,
comovidos e mudos.
Chegamos? Não chegamos?
Haja ou não haja frutos,
pelo sonho é que vamos.
Basta a fé no que temos,
Basta a esperança naquilo
que talvez não teremos.
Basta que a alma demos,
com a mesma alegria,
ao que desconhecemos
e ao que é do dia-a-dia.
Chegamos? Não chegamos?
- Partimos. Vamos. Somos.
***
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...
Toda a palavra tem um sentir próprio.
Entardecer.
Sentimento morno num tempo ausente que o meu peito toma,
redenção, expiação com termo certo, troça?
Mas meu peito flui, vai e vem, respiro, interrogo-me.
Jazem certezas na calçada, perdidas, como os passos.
A que caminho tardio me levam estes passos
- às vezes lar de sonho tornado de viagem -
senão à inquietação destas noites,
passo por passo repisada em meu peito?
Quem é esta Lua, estupenda fêmea intrometida
entre mim e o Rei que faz o dia,
senão a circunstância da noite?
Circunstancial eu,
julgo rasgar a sangue e fogo os muros do tempo,
desvelado leito minhas mãos súplicas do sonho fresco
que, de quando em vez, alenta minha lassidão....mas não!!!
No canto de um pássaro chega a claridade da manhã.
- cegam-me ainda as luas da tua pele nua -
É ela, apenas ela, que alivia esta agonia cega
em peito nocturno, sem circunstância.
Será fé este halo que sobe do rio até mim?
Toda a palavra tem um sentir. Me. Te. Nos.
Transcendental.
Este meu julgar-me nesta luz
de contas acertadas com a entrega.
***
(Paula Paiva)
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Acolho-me

Acolho-me ao lençol do teu cabelo
no amor pedido do teu rosto ilúcido
e entrego-me à irisada luz
que zelaos lábios na sombria flor cedida.
A sépala descobre o centro dela
uma a uma dá o corpo à descoberta
na liturgia dos sentidos dados
à reza na capela como oferta.
Cavalgo na palavra que me dás
alado nos pequenos montes eros
percorro os sons cativos dos teus ais
aromas luzes são momentos raros.p
Passeando pela flor acesa o fogo
centelha a cada pétala que apago.
***
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Noite

É de noite que as palavras se soltam,
sem destinos nem contornos,
vagueando plurais em seus sentidos,
omitindo-se e revelando-se.
É de noite que me solto no sentir,
quando no adormecido silêncio
as palavras se fantasiam e libertam.
É de noite que acordo o poema
na sonolência do verbo,
na indigência dos significados,
na suavidade dos desvarios
consumados.
É de noite, na noite de mim,
que diariamente me exponho
nos silêncios libertados.
***
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Almas dos Poetas

Ai as almas dos poetas
Não as entende ninguém;
São almas de violetas
Que são poetas também.
*
Andam perdidas na vida,
Como as estrelas no ar;
Sentem o vento gemer
Ouvem as rosas chorar!
*
Só quem embala no peito
Dores amargas e secretas
É que em noites de luar
Pode entender os poetas
*
E eu que arrasto amarguras
Que nunca arrastou ninguém
Tenho alma pra sentir
A dos poetas também!
***
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Exílio
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Doçura do Silêncio

O céu escureceu e a chuva veio rápida
Fez pessoas correrem pisando poças d’água
Com passos desencontrados
Hipnotizou sob as marquises toda gente
E os olhares se tornaram distantes
Perdidos em quietudes e coisas do coração
Do lado de dentro de uma das janelas
Uma moça olhava o embaçado do vidro
Com a ponta do dedo e riscos de inundação
Inventou a imagem de um namorado
Desejou que ele permanecesse
Ficou imóvel como esperasse um beijo
Para não acordar a doçura do silêncio
***
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És...
Viagem perfumada
Abraços longos e demorados!
Sorrisos rasgados!
Memória constante!
Um raio de luz, numa noite de trevas!
O teu amor dá-me paz!
Tranquilidade!
Calma!
O teu amor é o fogo
Bailamos ao ritmo do amor!!!!
Perco-me no teu olhar...
Nas esquinas do teu coração...
O que eu quero é apenas amar-te lentamente,
Como se todo o tempo fosse nosso,
Como se todo o tempo fosse pouco,
Como se este amor fosse uma vida ou um instante!
Sonhamos porque a vida agora não mudará os nossos sentidos!
- Amei-te assim que te vi,
e o meu carinho ficou claro...
para sempre ao teu lado.
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A esperança semeada

(Aos homens do 25 de Abril)
*
O sangue aqui renasce.
Na terra revolvida
rebentam ervas novas
(as horas más passaram).
O Sol - um outro sol - aqui se inventa
por sobre a lenta
erosão da estrada.
Aqui ou nunca.
Ou nada!
A voz aqui rebenta
e é não mais calada.
Por novas leis se fundam
de fibra as pulsações:
o corpo-a-corpo antigo a antiga pele
não mais hão-de pisar
a esperança semeada.
Ardentes leivas vivas avivaram
nossa canção maior.
Um girassol prossegue.
Renasce o sangue aqui
em flores de dádiva.
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Negar

Porque insisto em negar o que todo o meu corpo
Repete vezes sem conta cada vez que respiro
Porque tento não ouvir o que me cantam os olhos
Sempre que te vejo numa inventada esquina
Onde me cruzo contigo e me prendes os sentidos
Porque insisto em chorar se tanto de ti me preenche
O dia, a noite, o adormecer e o acordar...
Porque duvido eternamente
De todos os sorrisos que me ensinas
De todos os beijos que me roubas.
É como viver sem querer viver
Sempre rejeitando a vida para não morrer
*
Como se não fosse claro
Que preciso de sofrer para melhor te amar
Que preciso de chorar para melhor te cuidar
Porque insisto em negar que te amo
Se tudo à minha volta é uma infinita canção de amor
Que me leva até ao fim de todos os caminhos
Ao princípio de todos os mares
Num momento de amor que imagino partilhando contigo
*
Porque insisto em negar
Que te amo
Se tudo em meu redor
Já o descobriu...
***
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Noites sem ti
Os dias passam
Por vezes me pergunto, quem sou eu?
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Encantamento

Vi as mulheres azuis do equinócio
voarem como pássaros cegos;
e os seus corpos sem asas afogarem-se,
devagar, nos lagosvulcânicos.
Os seus lábios vomitavam o fogo
que traziam de uma infância de magma calcinado.
A água ficava negra, à sua volta;
e os ramos das plantas submersas pelas chuvas primaveris
abraçavam-nas, puxando-as num estertor de imagens.
Tapei-as com o cobertordo verso;
estendi-as na areia grossa da margem,
vendo as cobras de água fugirem por entre os canaviais.
Espreitei-lhes o sexo por onde escorria o líquido branco de um início.
Pude dizer-lhes que as amava,
abraçando-as, como se estivessem vivas;
e ouvi um restolhar de crianças por entre os arbustos,
repetindo-me as frases com uma entoação de riso.
Onde estão essas mulheres?
Em que leito de rio dormem os seus corpos,
que os meus dedos procuram num gesto vago de inquietação?
Navego contra a corrente;
procuro a fonte, o silêncio frio de uma génese.
**
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O ponto de partida
e sobre o fundo sombrio da morte?
O viajante entrou num barco ou numa árvore
que o soergue, ainda hesitante, na imensidade
de uma sombra de astro.
e junto a um muro sob as estrelas
uma figura de orvalho descalça sobre as ervas.
Tudo flutua ainda, dentro da poeira azul
e púrpura e tudo está esparso e reunido
como na primeira consciência deste mundo
tão longínquo e tão presente
que da montanha descesse sobre as palavras ditas.
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O sal da língua

Escuta, escuta:
tenho ainda uma coisa a dizer.
Não é importante, eu sei,
não vai salvar o mundo,
não mudará a vida de ninguém -
mas quem é hoje capaz de salvar o mundo
ou apenas mudar o sentido
da vida de alguém?
Escuta-me, não te demoro.
É coisa pouca, como a chuvinha
que vem vindo devagar.
São três, quatro palavras, pouco mais.
Palavras que te quero confiar,
para que não se extinga o seu lume,
o seu lume breve.
Palavras que muito amei,
que talvez ame ainda.
Elas são a casa, o sal da língua.
**
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Uma Mulher

Um resto de Agosto.
Uma mulher conhece
o caminho da fonte
porque o seu corpo
é um desvio do mar.
Talvez ela nos mostre
um céu líquido
por detrás dos seus ombros.
Não só as mãos morrem
fatigadas de desejo.
Há cascatas de pedra
nos olhos da memória.
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Vens de noite no sonho

Vens de noite no sonho
sem pés
entre páginas
de gasta paciência
quando a música findou
e teu sorriso se desfez
como um grão de pólen.
*
Vens no veneno oculto
de meus dias
no silêncio
dos meus ossos
devagar
arrastando em queda
o nosso mundo.
*
Vens no espectro
da angústia
na escrita
inquieta
destes versos
no luto maternal
que me devolve a ti.
*
A escuridão desce então
sobre o meu corpo
quando o rosto da morte
adormece na almofada.
**
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Na espera do verso...

Nos vértices da paixão está o que sinto
e nela as arestas não encontro
derramo-me no mel e não te minto
antes sofregamente te pressinto
e me dou
*
E o meu corpo transforma-se em papel
e nas palavras que escreves
me alimento
*
E é no sumir do tempo que eu me escondo
e na espera do verso que eu sou
Resguardo-me apenas do que é eterno
e sorvo o momento do efémero
No instante
em que te dás e que me dou
*
E cresco assim em horizonte
ao longe
mas no mais perto que sou
amando...
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Vou fazer amor contigo
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Poemas?
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Se às vezes digo que as flores sorriem

Se às vezes digo que as flores sorriem
E se eu disser que os rios cantam,
Não é porque eu julgue que há sorrisos nas flores
E cantos no correr dos rios...
É porque assim faço mais sentir aos homens falsos
A existência verdadeiramente real das flores e dos rios.
Porque escrevo para eles me lerem sacrifico-me às vezes
À sua estupidez de sentidos...
Não concordo comigo mas absolvo-me,
Porque só sou essa cousa séria, um intérprete da Natureza,
Porque há homens que não percebem a sua linguagem,
Por ela não ser linguagem nenhuma.
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Amo-te
Amo-te como a planta que não floriu
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A miséria do meu ser
A miséria do meu ser,
Do ser que tenho a viver,
Tornou-se uma coisa vista.
Sou nesta vida um qualquer
Que roda fora da pista.
*
Ninguém conhece quem sou
Nem eu mesmo me conheço
E, se me conheço, esqueço,
Porque não vivo onde estou.
Rodo, e o meu rodar apresso.
*
É uma carreira invisível,
Salvo onde caio e sou visto,
Porque cair é sensível
Pelo ruído imprevisto...
Sou assim. Mas isto é crível?
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Tempo de ter tempo
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Livro de Horas
Eu, pecador, me confesso
De ser assim como sou.
Me confesso o bom e o mau
Que vão em leme da nau
Nesta deriva em que vou.
Possesso
Das virtudes teologais,
Que são três,
E dos pecados mortais
Que são sete,
Quando a terra não repete
Que são mais.
O dono das minhas horas.
O das facadas cegas e raivosas
E das ternuras lúcidas e mansas.
E de ser de qualquer modo
Andanças
Do mesmo todo.
E luar de charco, à mistura.
De ser a corda do arco
Que atira setas acima
E abaixo da minha altura.
Que possa nascer em mim.
De ter raízes no chão
Desta minha condição.
Me confesso de Abel e de Caim.
De ser o anjo caído
Do tal céu que Deus governa;
De ser o monstro saído
Do buraco mais fundo da caverna.
Eu, tal e qual como vim
Para dizer que sou eu
Aqui, diante de mim!
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...

Mal nos conhecemos
Inauguramos a palavra amigo!
Amigo é um sorriso
De boca em boca,
Um olhar bem limpo
Uma casa,
mesmo modesta, que se oferece.
Um coração pronto a pulsar
Na nossa mão!
Amigo
(recordam-se, vocês aí,
Escrupulosos detritos?)
Amigo é o contrário de inimigo!
Amigo é o erro corrigido,
Não o erro perseguido, explorado.
É a verdade partilhada, praticada.
Amigo é a solidão derrotada!
Amigo é uma grande tarefa,
Um trabalho sem fim,
Um espaço útil, um tempo fértil,
Amigo vai ser,
é já uma grande festa!
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Amiga...
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Silêncio Gritante

O silêncio da tua voz e do teu olhar,
neste instante me chega tão gritante…
como fosse do íntimo do mundo…
tão mais alto que em outros de antes.
Vem com a dor dos degredos…
se instala e me emudece…
me estanca dentro de mim mesmo.
Chega-me misto de lamento profundoe prece.
Fogem-me as palavras ao vento
como fossem grãos de areia por entre os dedos.
Fica-me o coração choroso de versos
e as mãos conchas vazias de segredos.
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Há um tempo
Há um tempo em que é preciso
abandonar as roupas usadas,
que já têm a forma do nosso corpo,
e esquecer os nossos caminhos,
que nos levam sempre aos mesmos lugares.
É o tempo da travessia:
e, se não ousarmos fazê-la,
teremos ficado, para sempre,
à margem de nós mesmos.
(Fernando Teixeira de Andrade)
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Desilusão de Pigmaleão
Tão longe mas tão perto
Ouvindo o teu riso
Ouvindo a tua voz
É certo
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...
Percorro lugares onde fui algo
Resta-me o papel e a caneta,
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Não sei
perdendo-me da vida,
a vida perdeu-se.
E menti muito,
para ser melhor poeta.
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...

Não sei...
se a vida é curta ou longa demais pra nós,
mas sei que nada do que vivemos tem sentido,
se não tocamos o coração das pessoas.
Muitas vezes basta ser: colo que acolhe, braço que envolve,
palavra que conforta, silêncio que respeita,
alegria que contagia, lágrima que corre, olhar que acaricia,
desejo que sacia, amor que promove.
E isso não é coisa de outro mundo,
é o que dá sentido à vida.
É o que faz com que ela não seja nem curta
nem longa demais,
mas que seja intensa, verdadeira, pura...
...enquanto durar...
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Versos Vertentes

O dia amanheceu cinzento.
Fui lá fora ver a chuva.
A água que descia lavando a rua
– precipitando a vida –
era torrencial,…
transbordava nas frestas da calçada.
Frente às poças que se formavam
tive a lembrança dos versos.
Num suspiro de saudade…
emergiu de minha alma
uma enxurrada de palavras.
Enquanto chovia fiz rascunhos
na página nua das horas.
Um poema onde, em verdade,
sorvo uma gota da face,
resumindo o que senti e desejei
da tua poesia dos verbos
que, ao ler,…
sei estarem todos no plural.
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Sonho vago

Um sonho alado que nasceu um instante
Erguido ao alto em horas de demência...
Gotas de água que tombam em cadência
Na minha alma tristíssima, distante...
*
Onde está ele, o desejado? O infame?
O que há de vir e amar-me em doida ardência?
O das horasde mágoa e penitência?
O príncipe encantado? O eleito? O amante?
*
E neste sonho eu já nem sei quem sou...
O brando marulhar dum longo beijo
Que não chegou a dar-se e que passou...
*
Um fogo fátuo rútilo, talvez...
Eu ando a procurar-te e já te vejo!
E tu já me encontraste e não me vês!
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Estrelas

Olhar o céu infinito
Admirar as estrelas
Tocá-las com os dedos da imaginação
Vibrar com o brilho delas.
Brincar de fazer mundos
Usar os sentimentos mais puros
Mais profundos.
Para onde vai aquela estrela?
Um pontinho no céu a caminhar?
E olha lá... do outro lado
Outra estrela a vagar!
São meus sonhos... esperanças...
De um mundo melhor encontrar
Que realizo e conquisto
No brilho do seu olhar!
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Pudesse eu florir
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Já sobre a fonte
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Green God

Trazia consigo a graça
das fontes quando anoitece.
Era o corpo como um rio
em sereno desafio
com as margens quando desce.
Andava como quem passa
sem ter tempo de parar.
Ervas nasciam dos passos,
cresciam troncos dos braços
quando os erguia no ar.
Sorria como quem dança.
E desfolhava ao dançar o corpo,
que lhe tremia num ritmo que ele sabia
que os deuses devem usar.
E seguia o seu caminho,
porque era um deus que passava.
Alheio a tudo o que via,
enleado na melodia duma flauta que tocava
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Quase um poema de amor
De amor.
E é o que eu sei fazer
A nossa natureza
Lusitana
Tem essa humana
Graça
Feiticeira
De tornar de cristal
A mais sentimental
E baça
Bebedeira.
Mas ou seja que vou envelhecendo
E ninguém me deseje apaixonado,
Ou que a antiga paixão
Me mantenha calado
O coração
--- Há muito tempo já
De amor
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O fogo que na branda cera ardia

O fogo que na branda cera ardia,
Vendo o rosto gentil que na alma vejo.
Se acendeu de outro fogo do desejo,
Por alcançar a luz que vence o dia.
Como de dois ardores se incendia,
Da grande impaciência fez despejo,
E, remetendo com furor sobejo,
Vos foi beijar na parte onde se via.
Ditosa aquela flama, que se atreve
Apagar seus ardores e tormentos
Na vista do que o mundo tremer deve!
Namoram-se, Senhora, os Elementos
De vós, e queima o fogo aquela nave
Que queima corações e pensamentos.
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Ter tempo
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A miséria do meu ser

A miséria do meu ser,
Do ser que tenho a viver,
Tornou-se uma coisa vista.
Sou nesta vida um qualquer
Que roda fora da pista.
Ninguém conhece quem sou
Nem eu mesmo me conheço
E, se me conheço, esqueço,
Porque não vivo onde estou.
Rodo, e o meu rodar apresso.
É uma carreira invisível,
Salvo onde caio e sou visto,
Porque cair é sensível
Pelo ruído imprevisto...
Sou assim. Mas isto é crível?
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Flores de cactus
Bela flor imprudente!
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SONETO LXXXVIII

Quando me tratas mau e, desprezado,
Sinto que o meu valor vês com desdém,
Lutando contra mim, fico a teu lado
E, inda perjuro, provo que és um bem.
Conhecendo melhor meus próprios erros,
A te apoiar te ponho a par da história
De ocultas faltas, onde estou enfermo;
Então, ao me perder, tens toda a glória.
Mas lucro também tiro desse ofício:
Curvando sobre ti amor tamanho,
Mal que me faço me traz benefício,
Pois o que ganhas duas vezes ganho.
Assim é o meu amor e a ti o reporto:
Por ti todas as culpas eu suporto.
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Seus olhos

Seus olhos - se eu sei pintar
O que os meus olhos cegou
Não tinham luz de brilhar.
Era chama de queimar;
E o fogo que a ateou
Vivaz, eterno, divino,
Como facho do Destino.
*
Divino, eterno! - e suave
Ao mesmo tempo: mas grave
E de tão fatal poder,
Que, num só momento que a vi,
Queimar toda alma senti...
Nem ficou mais de meu ser,
Senão a cinza em que ardi.



































































































































































