Poemas Escolhidos


As palavras pesam.
Um texto nunca diz a dor das pequenas coisas,
Do quotidiano entrincheirado entre compromissos,
Das tramas afectivas, do exílio anunciado
No andar inquieto das mulheres.

De rosto em rosto, a caligrafia do amor
implorou a memória das palavras encantadas
e, como se houvesse uma linguagem
de atravessar o tempo, acenderam,
sobre os dias, constelações sonoras.
Mas eu, que não adiro aos calendários
nem acredito em vogais prometidas,
eu parti, de punhos febris,
enlaçando nos braços
um futuro marginal, a qualquer lógica.
A posse da noite, onde me quero lua em todas as fases,
leva-me a glosar os medos num novelo de rimas imperfeitas.
A cidade tem pombas que me perseguem sem eu dar por isso.
Tenho um aqueduto modelado nos olhos
e um dilúvio vermelho no desenho do peito.
***
(Graça Pires)

O profundo azul da noite



O azul que me veste as mãos por dentro
é ainda o profundo azul da noite
em que bebi no sal da tua pele
o branco aceso do meu corpo
e o silêncio da aragem miúda
que antes da chegada do vento
te havia de romper os olhos
em lágrimas de espanto e sede
pela sombra dos meus dedos.
***
(Ana Oliveira)

Éramos eu e tu


Éramos eu e tu
Dentro de mim
Centenas de fantasmas compunham o espectáculo
E o medo
Todo o medo do mundo em câmara lenta nos meus olhos.

Mãos agarradas
Pulsos acariciados
Um afago nas faces.

Éramos tu e eu
Dentro de nós
Suores inundavam os olhos
Alagavam lençóis
Corriam para o mar.
As unhas revoltam-se e ferem a carne que as abriga.

Éramos tu e eu
Dentro de nós.

As contracções cada vez mais rápidas
O descontrolo
A emoção
A ciência atenta
O oxigénio
A mão amiga
De repente a grande urgência
A hora
A violência
Éramos nós libertando-nos de nós.
É nossa a dor.

São nossos o sangue e as águas
O grito é nosso
A vida é tua
O filho é meu.

Os lábios esquecem o riso
Os olhos a luz
O corpo a dor.

A exaustão total
O correr do pano
O fim do parto.
***
(Dina Salustio)

Tempo



O tempo é uma substância volátil, arredia e mole
Calma e inesperada, que se esvazia e enche como um balão ou fole
Uma substância vaga, desequilibrada e implexa, de alma inconstante
Que se dissipa e brota a qualquer instante

Assim, de mim se afasta se o procuro
Toca-me e arrebata-me, se dele me canso e me despeço
A mim se apega e em mim se enlaça quando lhe fujo
Enrola-me e envolve-me de amor quando não peço

O tempo é tudo o que urge quando sobeja
Tudo o que de mim se aparta, se acaso a vontade almeja

Quando me esfalfo e o quero, de mim se afasta
Quando dele prescindo, em mim se enrola, julga, condena e caça

O tempo é um amante frívolo e indeciso, que prende e embaraça
Uma alma doce, que descubro amarga se me desalenta
Um compasso brusco, se me apraz com pressa e me encontro lenta
È sol quando eu sou nuvem, transparente se sou lodo ou água turva

O tempo é uma maleita, uma cisma sem amparo ou cura
Uma paixão platónica, sofrida e insegura que perdura
Um amor desgarrado, uma intensa vontade de procura

Com ele me estendo, sonho e medito
Baralho-me e contento-me num eterno delito
***
(Manuela Carneiro)

Um barco nas águas ao de leve sonoras


Um barco parado nas águas ao de leve sonoras.
Enquanto a noite desce como um lençol suavemente escuro
apagando o rio,
que era azul e agora já é um espelho prateado virado para fora de si.
alongado pela escuridão que se recolhe nos olhos, de quem olha.

Há em tudo uma paz impossível, e eu vejo o teu rosto e tu pareces não ser.

Olho-te de novo, e tu olhas-me assim:
tão distante e ausente que me deixas mais nu.

Eu sei:
sou aquele que te ama do fundo deste rio que agora nos faz juntos.
e estamos sempre sozinhos.
A partir de agora, entre nós
não haverá mais segredos.
***
(José Alberto Mar)

Na hora de pôr a mesa




na hora de pôr a mesa, éramos cinco:
o meu pai, a minha mãe, as minhas irmãs
e eu. depois, a minha irmã mais velha
casou-se. depois, a minha irmã mais nova
casou-se. depois, o meu pai morreu. hoje,
na hora de pôr a mesa, somos cinco,
menos a minha irmã mais velha que está
na casa dela, menos a minha irmã mais 
nova que está na casa dela, menos o meu
pai, menos a minha mãe viúva. cada um
deles é um lugar vazio nesta mesa onde 
como sozinho. mas irão estar sempre aqui.
na hora de pôr a mesa, seremos sempre cinco.
enquanto um de nós estiver vivo, seremos
sempre cinco.
***
(José Luís Peixoto)

(Poema dedicado ao meu querido pai, ao qual me permito fazer uma ligeira alteração que o autor com certeza não leva a mal.
Lá em casa, na hora de pôr a mesa éramos seis. E enquanto um de nós estiver vivo, seremos sempre seis... mais os genros, a nora e os netos que reforçam o seis.  Esse número mágico que nos identifica mesmo após a sua partida.)

Soneto das memórias vividas


Lembro-me como se fosse hoje
Do dia em que te conheci
Palmas suadas e aperto no peito
Sabia que eras tu para mim

E hoje, passados estes anos
Já não somos uma rea­li­dade os dois
As memórias ficaram espa­lha­das pelo caminho
Como a vontade, a paixão e o depois

E porque a vontade não chega
A saudade aperta e o peito contrai-se em assombro
Das memórias vividas e daquelas que ficaram por viver

E porque a memória também nos atraiçoa
A tal saudade que aperta nem sempre é a que o coração desperta
Porque as memórias vividas afinal ficaram por viver
***
(Ricardo Vercesi)

Ansiedade


Os
últimos passos do dia pela casa
são os meus. Cerro a
porta de entrada na
última ronda pela sala
deixo
o ruído da noite tocar a
ruína da alma. A
manhã que vai trazer? Será dia de perder? Na
arte
da grande roleta: o que irá tocar aos meus?
A
trégua que ora me assola parece
querer demorar
mãe e
filha já dormem dentro deste território onde
devo parecer norte
onde me
toca
ser homem.
***
(João Luís Barreto Guimarães)

Versos antigos



se a noite se perder em ritmos de água, eu morrerei.
não há palavra mais doce que aquela que se despe
lentamente na baía, na nostalgia de si mesma.
outrora era a evidência do verso, rumor de aves,

lagos espirais caminhos por entre fontes e azuis
danças de deus nos longínquos areais, mas as
incertezas acumularam-se depois do sono, lembranças
da infância, da fronteira, dos açudes ruidosos.

eu morrerei se ouvir de novo essa voz, por isso
afastai-a célere dos oceanos, das portas entreabertas,
dos segredos. essa palavra é doce e mortífera: amai-a

longe de mim onde o silvo, o alarme das estações, é uma
espada, um gume à deriva no corpo. ficarei entre
sinais, escombros, longe das margens dos lagos, leve.
***
(Francisco José Viegas)


Quem me quiser


Quem me quiser há-de saber as conchas
a cantigas dos búzios e do mar.
Quem me quiser há-de saber as ondas
e a verde tentação de naufragar.

Quem me quiser há-de saber as fontes,
a laranjeira em flor, a cor do feno,
à saudade lilás que há nos poentes,
o cheiro de maçãs que há no inverno.

Quem me quiser há-de saber a chuva
que põe colares de pérolas nos ombros
há-de saber os beijos e as uvas
há-de saber as asas e os pombos.

Quem me quiser há-de saber os medos
que passam nos abismos infinitos
a nudez clamorosa dos meus dedos
o salmo penitente dos meus gritos.

Quem me quiser há-de saber a espuma
em que sou turbilhão, subitamente
- Ou então não saber a coisa nenhuma
e embalar-me ao peito, simplesmente.
***
(Rosa Lobato de Faria)

Eu e tu



Dois! Eu e Tu, num ser indispensável!
Como Brasa e carvão, centelha e lume, oceano e areia,
Aspiram a formar um todo, – em cada assomo
A nossa aspiração mais violenta se ateia…

Como a onda e o vento, a Lua e a noite, o orvalho e a selva
– O vento erguendo a vaga, o luar doirando a noite,
Ou o orvalho inundando as verduras da relva –
Cheio de ti, meu ser de eflúvios impregnou-te!

Como o lilás e a terra onde nasce e floresce,
O bosque e o vendaval desgrenhando o arvoredo,
O vinho e a sede, o vinho onde tudo se esquece,
– Nós dois, de amor enchendo a noite do degredo,

Como partes dum todo, em amplexos supremos
Fundindo os corações no ardor que nos inflama,
Para sempre um ao outro, Eu e Tu, pertencemos,
Como se eu fosse o lume e tu fosses a chama…
***
(António Feijó)

Paixão


Ficávamos no quarto até anoitecer, 
ao conseguirmos situar num mesmo poema o coração e a pele
quase podíamos erguer entre eles uma parede
e abrir depois caminho à água.

Quem pelo seu sorriso então se aventurasse
achar-se-ia de súbito em profundas minas,
a memória das suas mais longínquas galerias
extrai aquilo de que é feito o coração.

Ficávamos no quarto, onde por vezes
o mar vinha irromper. É sem dúvida em dias de maior paixão
que pelo coração se chega à pele.
Não há então entre eles nenhum desnível.
***
(Luís Miguel Nava)

Litania



O teu rosto inclinado pelo vento;
a feroz brancura dos teus dentes;
as mãos, de certo modo, irresponsáveis,
e contudo sombrias, e contudo transparentes;

o triunfo cruel das tuas pernas,
colunas em repouso se anoitece;
o peito raso, claro, feito de água;
a boca sossegada onde apetece

navegar ou cantar, ou simplesmente ser
a cor dum fruto, o peso duma flor;
as palavras mordendo a solidão,
atravessadas de alegria e de terror,

são a grande razão, a única razão.
***
(Eugénio de Andrade)

O último andar



Era o último amor. A casa fria,
os pés molhados no escuro chão.
Era o último amor e não sabia
esconder o rosto em tanta solidão.

Era o último amor. Quem adivinha
o sabor breve pela escuridão?
Quem oferece frutos nessa neve?
Quem rasga com ternura o que foi verão?

Era o último amor, o mais perfeito
fulgor do que viveu sem as palavras.
Era o último amor, perfil desfeito
entre lumes e vozes e passadas.

Era o último amor e não sabia
que os pés à terra nua oferecia.
***
(Luís Filipe Castro Mendes)

O espírito



Nada a fazer amor, eu sou do bando
Impermanente das aves friorentas;
E nos galhos dos anos desbotando
Já as folhas me ofuscam macilentas;

E vou com as andorinhas. Até quando?
A vida breve não perguntes: cruentas
Rugas me humilham. Não mais em estilo brando
Ave estroina serei em mãos sedentas.

Pensa-me eterna que o eterno gera
Quem na amada o conjura. Além, mais alto,
Em ileso beiral, aí espera:

Andorinha indemne ao sobressalto
Do tempo, núncia de perene primavera.
Confia. Eu sou romântica. Não falto.
***
(Natália Correia)

No avesso dos voos


Há pássaros que me doem no avesso
dos voos. Como se engolisse a vertigem
de um caos de penas e perdas. Acentos
graves em desassiso na queda invertida das
lágrimas
           
do fundo de mim para a superfície dos teus
olhos.

E sei que não há outra pele que me salve
da solidão. Porque tu corres-me por dentro
do corpo. Qual seiva espessa do ar que me
atravessa. Um abismo de sopros a romper-me
o peito. Tempestade de reversos. O oposto do
teu toque.

Há pássaros que me doem no avesso
das asas, sabes. Como se a vida fosse este caminho
de pernas para o ar. Um horizonte desenhado
ao contrário. Um céu que piso sob o peso da terra.

Há pássaros que me doem, meu amor.
No avesso dos voos.
***
(Virgínia do Carmo)

Passos


revejo-te na luz silente da tua pele, e na noite ambígua
das tuas mãos. revejo os teus pés de romã e a língua rubra
de todas as manhãs. é na luz submersa do despertar
que sinto os teus passos, que não oiço, que não vejo.
são nebulosas, os teus passos. são passos ausentes,
os teus passos. são pássaros de fogo e eternidade
na luz débil das estrelas. são a água que escorre dos
meus braços e a língua de fogo do meu ventre escondido.
revejo-te silencioso, nas estórias que me conto e na memória
de uma noite sob a água e a chuva e a dança das mãos.
da tua pele, fiz uma manta de retalhos de sombras,
e com ela teci a obnibulada manhã do despertar dos ossos.
é com ela que me visto. é com ela que te visito.
é assim que te sei. manhã submersa de cada recanto
dos meus olhos. tecido estranho das vestes das noites.
visão ansiada das pálpebras da realidade. pés que caminham
sobre o chão que piso. geometria de tudo o que sei. pele.
***
(Susana Duarte)

Identidade


Preciso ser um outro
para ser eu mesmo

Sou grão de rocha
Sou o vento que a desgasta

Sou pólen sem insecto

Sou areia sustentando
o sexo das árvores

Existo onde me desconheço
aguardando pelo meu passado
ansiando a esperança do futuro

No mundo que combato morro
no mundo por que luto nasço
***
(Mia Couto)

Inventário



De que sedas se fizeram os teus dedos,
De que marfim as tuas coxas lisas,
De que alturas chegou ao teu andar
A graça de camurça com que pisas.
*
De que amoras maduras se espremeu
O gosto acidulado do teu seio,
De que Índias o bambu da tua cinta,
O oiro dos teus olhos, donde veio.
*
A que balanço de onda vais buscar
A linha serpentina dos quadris,
Onde nasce a frescura dessa fonte
Que sai da tua boca quando ris.
*
De que bosques marinhos se soltou
A folha de coral das tuas portas,
Que perfume te anuncia quando vens
Cercar-me de desejo a horas mortas.
***
(José Saramago)

Há um ruído de asas que te é próximo



Os anjos alados 
da memória 

com as suas asas 
de pérgula 
e medronho 

a voarem noite dentro, 
pelo sonho 

Serás de branco 
despojada de tudo 
à cabeceira 

por detrás do meu ombro 
anjo mudo 

Serás de branco 
despojada de tudo, 

asas supostas 
de ti 
à minha beira 

O pássaro cintilante 
da tua nudez 
(uma matriz calada) 

Da tua nudez 

Com os teus seios 
de anjo 
sob as asas 

A tomares conta 
da memória 

És um pássaro – digo 
És um pássaro 

com penas 
cintilantes 
dos teus olhos 

As tuas asas 
de pétalas 

tecidas com a luz 
das penas 
das asas que te crescem 

Poisar um pouco 
nos parapeitos 
da memória 

antes de recomeçar 
o voo 
de regresso a casa 

Com as nossas asas 
lúcidas: 
translúcidas e pálidas 

Deixa-me voar 
por cima do teu 
colo 

até ir poisar 
na tua alma 

É a memória, 
dos teus dedos pisados 
nas asas dos meus ombros 

Entrelaçados 
Enlaçados 

Como entranças 
os sonhos 

As tuas asas de prata 
que atravessam a voar 
o território 
brando 
das minhas lágrimas 

Este 

é o inconsciente 
dos teus olhos 
de águas postas – de águas sobrepostas 

– rente 

à meiga – à mansíssima 
racha 
do teu ventre 

Em voo raso 
perto da sua boca: 

A ouvir a memória... 

Há um ruido de 
asas 
que te é próximo 

um odor a flor, 
a framboesa 

um sabor a leite 
e a morango 
numa uterina luz de penumbra acesa 

Um pouco acima 
dos teus olhos, 
como um pássaro 

a voar por dentro, 
bem por dentro 
do interior dos lábios... 

do corpo 

A parte que é 
anjo 
do teu corpo 

e me procura a meio 
da madrugada 

Sobrevoando o lago 
que é suposto 
ser no meu sono 
aquilo que calava 

A parte que é 
anjo 
do teu corpo 

e me visita 
a meio da madrugada 

descansando as asas 
dos teus ombros, 
a meu lado: 
em cima da almofada 

Voava, 
com a memória 
das asas 

no sentido inverso 
do silêncio 

e do sono 

Oiço atrás de mim, 
o breve respirar 
das tuas asas 

– quase imperceptivel – 

Um ligeiro arfar 
Como a brisa a passar
por entre as casas
***
(Maria Teresa Horta)

Companhia



Passei o dia com o teu céu
lá fora choveu
em mim fez sol.
***
(Alice Ruiz)

o sol por destino



somos

os que não calam

não se curvam

muitos mais que

o silêncio

a sombra

o desmando



o sol

é destino de

aí iremos

mesmo se sem asas

voaremos

mais alto que



o lado negro da luz

fenecerá
***
(António José Cravo)

Desenho


Quem és tu?
Que me desenhas no espelho um corpo nu...

e a roupa de existir dorme em outro armário
o sono justo dos cansados de mim.

Afinal, quem és tu? Que desbotas no espelho...
***
(Leila Krüger)

Temor



Esses momentos breves
De ventura, e em que um raio doce aclara
Um trecho à tua tenebrosa vida:
Saboreá-los deves,
Esses momentos de fugaz ventura.
– Esta é como esquisita fruta rara,
Por muito rara, muito apetecida;
Fruta, cujo sainete pouco dura,
Saboreada com vagar, embora;
Deleita o gosto, assim saboreada,
Porém, sofregamente devorada,
Mata às vezes o louco que a devora!
Que o teu lábio sorria
Enquanto a dor sopita não desperta,
Nem vem do íntimo gozo que cala
Discreto e receoso,
Nenhum rumor alegre despertá-la.
Como um vinho acre-doce, da alegria
Ao saibo às vezes mescla-se o amargoso
De uma tristeza incerta
E vaga... Aos tristes disfarçá-las custa;
Pois, por um só prazer, mesquinho e raro,
A desventura cobra-se tão caro,
Que aos tristes o menor prazer assusta!
***
(Raimundo Correia)

Alma é abismo



pense em tudo o que se empurra 
para o seu âmago 
pedindo: "não volte" 
*
é vertigem exaurida 
em cada fim de dia 
ao mentalizar: "deixe-me dormir" 
*
apanhador de pesadelos 
em premissas tabeladas 
por programas de sobrevivência 
*
alma é onde se encaixota a antivida 
enquanto se sorri à morte 
da pouca matéria
***
(Lara Amaral)

Flash


Escrevo nas pedras 
um postulado 
redentor.
Indiferentes 
as árvores 
pintam 
as folhas
de um sabor vermelho 
os pássaros 
equilibram 
seus ninhos 
no vento 
e é tão clara 
a sapiência deste chão 
que me apetece 
rasgar 
as utopias 
e seguir 
paralelo 
ao fervor dos insetos.
***
(Helena Figueiredo)

Um dia


Um dia 
vou dizer-te
a versão eloquente
de quem fomos,
*
...dizer-te
dum pretérito simples
e dum futuro incondicional
incerto.
*
Leremos livros
de odores ligeiros
saboreando chás
de sabores diversos,
*
diremos poemas
inventaremos núpcias
juraremos juras
e cantaremos versos,

descobriremos portos
barcos, travessias, 
tormentas brancas
e algumas calmarias...
*
Tudo isto amor
e nada mais,
brandos e contemplativos,
*
eu prometo,
*
...um dia.
***
(Teresa Cunha)


Encontro na tua sombra 
A luz dos meus dias, 
Virgens de sonhos reais, 
Mas fonte de reais sonhos, 
Onde o infinito se desfaz, 
Em pedaços do que seria 
E nunca será!
Lá, estou sempre lá, 
O cá fica mais longe!
***
(Teresa Poças)

o profundo azul da noite


O azul que me veste as mãos por dentro
é ainda o profundo azul da noite
em que bebi no sal da tua pele
o branco aceso do meu corpo
e o silêncio da aragem miúda
que antes da chegada do vento
te havia de romper os olhos
em lágrimas de espanto e sede
pela sombra dos meus dedos.
***
(Ana Oliveira)


Poema ingénuo


só o belo redime 
só o belo evoca 
silêncios sublimes 
espanto 
*
 não sei o que ele é 
 mas sei 
que me transtorna
comove 
excita 
estimula 
e se me cala 
pela sua perfeição 
ou um pormenor seu 
detém o olhar 
do meu corpo 
fico num estado 
de paixão subtil 
que fala baixinho 
e namora comigo 
até aparecer 
um gesto 
um olhar 
*
 talvez mesmo 
 um simples 
 beijo
***
(José Manuel Marinho)

Por isso não gosto de amoras


A lua havia de cair um dia
no chão mais próximo. 
Num lugar que havia de desvelar a palavra. 
Havia de tombar 
era irremediável. 
Sei-o agora. 
*
Mas resvalou 
desgovernada 
roubada por outras solicitações.
As esplanadas 
os bancos de jardim 
os livros 
passaram então a ser-me ardis. 
De traição em punho. 
Por isso 
já nada se parece 
com a glória antiga 
largada agora noutra morada. 
*
Depois o intragável escuro. 
Um escuro que não me deixa saber 
o elementar e o secundário. 
Entardeceram ambos. 
*
Já nada sei 
depois que o mar lambeu a areia 
e desfez a palavra. 
Se é que alguma vez soube. 
Se é que alguma vez a palavra existiu. 
E se existiu foi num instante. 
Num muro de silvas 
entre amoras falsas.
***
(Rita Carrapato)

As facas


Quatro letras nos matam quatro facas 
que no corpo me gravam o teu nome. 
Quatro facas amor com que me matas 
sem que eu mate esta sede e esta fome. 
*
 Este amor é de guerra. (De arma branca). 
Amando ataco amando contra-atacas 
este amor é de sangue que não estanca. 
Quatro letras nos matam quatro facas. 
*
 Armado estou de amor. E desarmado. 
Morro assaltando morro se me assaltas. 
E em cada assalto sou assassinado. 
*
 Quatro letras amor com que me matas. 
E as facas ferem mais quando me faltas. 
Quatro letras nos matam quatro facas.
***
(Manuel Alegre)

Canção grata


Por tudo o que me deste: — Inquietação, cuidado, 
(Um pouco de ternura? E certo, mas tão pouco!) 
Noites de insónia, pelas ruas, como um louco... 
Obrigado, obrigado! 
*
 Por aquela tão doce e tão breve ilusão. 
(Embora nunca mais, depois que a vi desfeita, 
Eu volte a ser quem fui), sem ironia: aceita
A minha gratidão! 
 *
Que bem me faz, agora, o mal que me fizeste! 
— Mais forte, mais sereno, e livre, e descuidado... 
Sem ironia, amor: — Obrigado, obrigado 
Por tudo o que me deste!
***
(Carlos Queiroz)


É um corpo



Estão aqui 37 graus. 
É um corpo. 
E ninguém se aproxima 
senão para recuar. 
Devorar. 
Ou ficar.
***
(Vasco Gato)

Carícia


A pele é o mar: 
aqui desaguam 
os rios da vida. 
 A pele é o cântaro: 
 aqui se guardam 
 todas as águas, 
 chuvas de alegria 
 ou lágrimas. 
 A pele é o mapa: 
 aqui se gravam 
 todos os ventos. 
 Escreva na pele do outro, 
com a ponta dos dedos, 
o alfabeto mais antigo, 
 sussurro, 
estrela,
carícia.
***
(Roseana Murray)

Um rosto



Apenas uma coisa inteiramente transparente: o céu, 
e por baixo dele a linha obscura do horizonte nos teus olhos, 
que pude ver ainda através de pálpebras semicerradas, 
pestanas húmidas da geada matinal, 
uma névoa de palavras murmuradas num silêncio de hesitações. 
Há quanto tempo, tudo isto? 
Abro o armário onde o tempo antigo 
se enche de bolor e fungos; 
limpo os papéis, cartas que talvez nunca tenha lido até ao fim, 
foto- grafias cuja cor desaparece, 
substituindo os corpos por manchas vagas 
como aparições; 
e sinto, eu próprio, 
que uma parte da minha vida 
se apaga com esses restos. 
***
(Nuno Júdice)

Enquanto



Enquanto 
um calor mole nos tira a roupa 
e mesmo nus sobre a cama 
os corpos continuam a pedir água 
em vez doutro corpo, 
penso no tempo em que o suor 
e a saliva e o odor e o esperma 
faziam dessa agonia 
a alegria 
a que chamávamos amor. 
***
(Eugénio de Andrade)

Dá a surpresa de ser


Dá a surpresa de ser. 
É alta, de um louco escuro. 
Faz bem só pensar em ver 
Seu corpo meio maduro. 
*
 Seus seios altos parecem 
(Se ela estivesse deitada) 
Dois montinhos que amanhecem 
Sem ter que haver madrugada. 
*
 E a mão do seu braço branco 
Assenta em palmo espalhado 
Sobre a saliência do flanco 
Do seu relevo tapado. 
*
Apetece como um barco. 
Tem qualquer coisa de gomo. 
Meu Deus, quando é que eu embarco? 
Ó fome, quando é que eu como?
***
(Fernando Pessoa)

Tua ausência


Tua ausência cala o mundo, o mar, os ventos. 
 Tua ausência desaba silenciosamente sobre os meus dias, 
soterrando meu outono… 
 ela magoa demais o meu sossego. 
 (Tua ausência é essa substância densa) 
 Tua ausência é tão presente que é pessoa… 
 E me abraça.
***
(Marla de Queiroz)

Espero-te



Amo-te em cada beijo que não te dou, 
 em cada olhar que perco por sobre as nuvens, 
 e em cada verso que me escapa por entre os dedos 
Amo-te nos gritos do meu silêncio, 
 nas noites que não têm fim, 
 e em cada lágrima que teima em não cair
Amo-te nas lembranças que já nem me lembro, 
 nas cinzas de todas as horas, e nas dores que irei sentir 
 Amo-te assim feito um louco, e feito louco, 
 busco-te ferozmente em cada palavra, em cada objeto, 
 em cada mísero grão de tempo 
 Amo-te, e por amar-te tanto, espero-te, 
 ainda que nunca me ouças chamar, 
 e ainda que nunca tenhas partido.
***
(Marcelo Roque)

As pedras




As pedras falam? pois falam 
 mas não à nossa maneira, 
 que todas as coisas 
sabem uma história que não calam. 
 * 
 Debaixo dos nossos pés 
ou dentro da nossa mão 
 o que pensarão de nós? 
 O que de nós pensarão? 
 * 
 As pedras cantam nos lagos
 choram no meio da rua 
 tremem de frio e de medo 
 quando a noite é fria e escura. 
 * 
 Riem nos muros ao sol, 
 no fundo do mar se esquecem. 
 Umas partem como aves 
 e nem mais tarde regressam. 
 * 
 Brilham quando a chuva cai. 
 Vestem-se de musgo verde 
 em casa velha ou em fonte 
 que saiba matar a sede. 
 * 
 Foi de duas pedras duras 
 que a faísca rebentou: 
 uma germinou em flor 
 e a outra nos céus voou. 
 * 
 As pedras falam? pois falam. 
 Só as entende quem quer, 
 que todas as coisas 
têm uma coisa para dizer. 
 ***
  1. (Maria Alberta Menéres)


Porque o fim de um caminho...


Porque o fim de um caminho sempre me entregou
 o limiar de outro caminho,
 o verde de um campo ou de um corpo adolescente,
 espero que regresse à minha voz
 a luz que no primeiro dia a fecundou
 e a terra que é contorno dessa luz.
*
 Porque espero ver crescer minhas mãos dessa terra
 e de minhas mãos a água necessária à minha sede,
 ergo de mim a noite residual do que vivi
 e canto,
 canto provocando a madrugada.
*
 Porque outros entoarão meu requiem e outros cerrarão
 minhas pálpebras para defender meus olhos de suas lágrimas,
 deixo essa glória aos outros
 - e exalto o meu nascimento
 e cada dia em que renasço e procuro
 a boca ou o fruto onde se reflitam os meus lábios.
*
 Porque, harmonizando-se no sangue o fogo e a água,
 eu sou o fogo e a água:
 por mim os cadáveres
e quanto é feito da matéria dos cadáveres
 libertar-se-ão em chamas, serão claridade
 e chegarão a pão pela dádiva das cinzas,
 a última dádiva, a total.
 ***
(José Bento)

Corpos


Teu corpo é arco
na ponta dos meus dedos
três leves polpas
na flor da minha mão
com que inflamo a manhã
no teu ventre.
*
 mergulhado
nos teus braços
envolto em lábios,
em perfume.
*
 em beijos,
na água do teu pescoço
brando de rosas
nos picos doces
no peito leve.
*
 Quando somos amor
nossos corpos são arcos
***
(José Jorge Frade)

Paráfrase


Este poema começa por te comparar 
com as constelações, 
com os seus nomes mágicos 
e desenhos precisos, 
e depois 
um jogo de palavras indica 
que sem ti a astronomia 
é uma ciência infeliz. 
Em seguida, duas metáforas
 introduzem o tema da luz
 e dos contrastes petrarquistas 
que existem na mulher amada, 
no refúgio triste da imaginação. 
*
 A segunda estrofe sugere 
que a diversidade de seres vivos 
prova a existência de Deus 
e a tua, ao mesmo tempo 
que toma um por um 
os atributos 
que participam da tua natureza 
e do espaço criador 
do teu silêncio. 
*
 Uma hipérbole, finalmente, 
diz que me fazes muita falta. 
*** 
(Pedro Mexia)

...



"Serenidade não é indiferença."
***


(Uma frase que me transmitiu a força de um poema.
E é por essa razão que a "planto" neste meu jardim.)



A poesia não morreu



A minha impaciência não cabe no poema
ou na pedra afiada pelo silêncio
que me fere os pulsos.
Gravei a sangue o furor dos dias
e deixei rasgar em minha boca
os frutos da sede e do assombro.
Não me venham dizer
que precisamos de profetas
ou de heróis ou de sábios
para o mundo ser salvo.
Nós acreditamos que o brilho das manhãs
se arredonda nas arcadas do tempo
assediando o sonho fraterno dos poetas.
A poesia não morreu.
De memória em memória
ela atravessa as palavras
com a farpa da revolta.
É preciso gritar que a poesia não morreu?
***
(Graça Pires)

No turbilhão



A Jaime Batalha Reis
***

No meu sonho desfilam as visões,
Espectros dos meus próprios pensamentos,
Como um bando levado pelos ventos,
arrebatado em vastos turbillhões...

Num espiral, de estranhas contorções,
E donde saem gritos e lamentos,
Vejo-os passar, em grupos nevoentos,
Distingo-lhes, a espaços, as feições...

-Fantasmas de mim mesmo e da minha alma,
Que me fitais com formidável calma,
Levados na onda turva do escarcéu,

Quem sois vós, meus irmãos e meus algozes?
Quem sois, visões misérrimas e atrozes?
Ai de mim! ai de mim! e quem sou eu?!...
***
(Antero de Quental)