terça-feira, 30 de março de 2010

Onde a dor não tem razão


Canto
Pra dizer que no meu coração
Já não mais se agitam as ondas de uma paixão
Ele não é mais abrigo de amores perdidos
É um lago mais tranquilo
Onde a dor não tem razão
Nele a semente de um novo amor nasceu
Livre de todo rancor, em flor se abriu
Venho reabrir as janelas da vida
E cantar como jamais cantei
Esta felicidade ainda
Quem esperou, como eu, por um novo carinho
E viveu tão sozinho
Tem que agradecer
quando consegue do peito tirar um espinho
É que a velha esperança
Já não pode morrer.
***
(Letra da música de Simone)

Amor


Amor é tudo
o que se espera duma rosa
quando se orna de pétalas
macias,
se enfeita, se perfuma
e sai
para passar a noite no decote
entre os teus seios
***
(Nuno de Figueiredo)

Se eu fosse


Se eu fosse um descascador de canela
deitar-me-ia na tua cama
e deixaria o pó amarelo da casca
na tua almofada.
Os teus seios e os teus ombros cheirariam a canela
nunca mais poderias passar no mercado
sem a profissão dos meus dedos
flutuando por cima de ti. O cego tropeçaria
certo de quem se aproximava
mesmo que tomasses banho
na chuva das calhas, na monção.
Aqui no cimo da coxa
neste macio pasto
vizinho do teu cabelo
ou do sulco
que te divide as costas. Este tornozelo.
Serás conhecida entre os estranhos
como a mulher do descascador de canela.
Só a custo te podia ver
antes do casamento
nunca te toquei
- a tua mãe nariguda, os teus irmãos tão brutos.
Enterrei as minhas mãos
em açafrão, disfarcei-as com
alcatrão de tabaco
ajudei os apicultores a colher o mel…
Uma vez que estávamos a nadar
toquei-te na água
e os nossos corpos permaneceram livres,
podias segurar-me e ser cega de cheiro
Saltaste a margem e disseste
isto é como tu tocas as outras mulheres
a mulher do cortador de relva,
a filha do queimador de limão
E procuraste nas tuas mãos
o perfume desaparecido
e soubeste
como é bom
ser a filha do queimador de lima
deixada sem marca
como se lhe tivessem falado no acto do amor
como se ferida sem o prazer de uma cicatriz
Roçaste o teu ventre nas minhas mãos
no ar seco e disseste
sou a mulher do descascador
de canela.
Cheira-me.
***
(Michael Ondaatje)

domingo, 28 de março de 2010

Tristeza


Eu deixo a vida como deixa o tédio
Do deserto o poento caminheiro;
Como as horas de um longo pesadelo,
Que se desfaz ao dobre de um sineiro;
*
Como um desterro de minha alma errante,
Onde fogo insensato a consumia…
Só levo um saudade – é um desses tempos
Que amorosa ilusão embelecia.
*
Só levo uma saudade – é dessas sombras
Que eu sentia velar nas noites minhas…
De ti, ó minha mãe, pobre coitada,
Que por minha tristeza te definhas!
*
Descansem o meu leito solitário
Na floresta dos homens esquecida,
À sombra de uma cruz – e escrevam nela:
Foi poeta, sonhou e amou a vida…
***
(Alvares de Azevedo)

Sim, sei bem


Sim, sei bem
Que nunca serei alguém.
Sei de sobra
Que nunca terei uma obra.
Sei, enfim,
Que nunca saberei de mim.
Sim, mas agora,
Enquanto dura esta hora,
Este luar, estes ramos,
Esta paz em que estamos,
Deixem-me crer
O que nunca poderei ser.
***
(Fernando Pessoa)

quinta-feira, 25 de março de 2010

Sons íntimos


Abre um pouco os lábios,
deixa-os escutar o que te digo.
***
(Pedro Jordão)

Labirinto ou não foi nada


Talvez houvesse uma flor
aberta na tua mão.
Podia ter sido amor,
e foi apenas traição.
*
É tão negro o labirinto
que vai dar à tua rua…
Ai de mim, que nem pressinto
a cor dos ombros da Lua!
*
Talvez houvesse a passagem
de uma estrela no teu rosto.
Era quase uma viagem:
foi apenas um desgosto.
*
É tão negro o labirinto
que vai dar à tua rua…
Só o fantasma do instinto
na cinza do céu flutua.
*
Tens agora a mão fechada;
no rosto, nenhum fulgor.
Não foi nada, não foi nada:
podia ter sido amor.
***
(David Mourão-Ferreira)

Tela


Hoje sou eu que poso para o teu poema
Como uma modelo numa cama de flores
Que estaria
A vida inteira diante dos teus olhos
Até ser só ossos, ouro, palavras, rebentação.
***
(Ana Salomé)

quarta-feira, 24 de março de 2010

Fingimento


Nunca fui poeta,
fingi que era para sobreviver.
Existe alguma forma mais bonita
de enganar a si mesmo,
brincar de ser profeta,
ser feliz, viver?
Errei?
Sem a menor falsidade,
tenho certeza de que nunca os enganei,
os amigos fingiram gostar dos meus versos
por solidariedade.
***
(Ivone Boechat)

Desencanto


Eu faço versos como quem chora
De desalento... de desencanto...
Fecha o meu livro, se por agora
Não tens motivo nenhum de pranto.
Meu verso é sangue.
Volúpia ardente...
Tristeza esparsa...
remorso vão...
Dói-me nas veias.
Amargo e quente,
Cai, gota a gota, do coração.
E nestes versos de angústia rouca,
Assim dos lábios a vida corre,
Deixando um acre sabor na boca.
Eu faço versos como quem morre.
***
(Manuel Bandeira)

segunda-feira, 22 de março de 2010

Chegam cedo demais, quando ainda não podem escolher


Chegam cedo demais,
quando ainda não podem escolher nem decidir.
Vêm carregados de espectros, de memórias
e de feridas que não souberam sarar;
mas trazem a confiança da cura nas palavras.
Convencem-se de que amam outra vez
quando nos tocam os pequenos lugares,
esquecendo-se do rumo incerto dos seus passos
nas estradas tortuosas que os trouxeram.
Abafam-se num cobertor de mentiras sem saber
e falam de injustiça quando tentamos chamá-los à verdade.

Dormem de vez em quando nas nossas camas
e protegemo-los da dor como aos filhos que não iremos ter nunca
porque não nos resignamos a perdê-los.
E, um dia, partem, vão culpados,
não chegam a explicar o que os arrasta.
Escrevem cartas mais tarde
― uma ou duas para se aliviarem dessa espada.
E nós fiamos, eternamente, sem vergonha,
à espera que regressem.
***
(Maria do Rosário Pedreira)

Estou vivo e escrevo sol


Eu escrevo versos ao meio-dia
e a morte ao sol é uma cabeleira
que passa em frios frescos sobre a minha cara de vivo
Estou vivo e escrevo sol

Se as minhas lágrimas e os meus dentes cantam
no vazio fresco
é porque aboli todas as mentiras
e não sou mais que este momento puro
a coincidência perfeita
no acto de escrever sol

A vertigem única da verdade em riste
a nulidade de todas as próximas paragens
navego para o cimo
tombo na claridade simples
e os objectos atiram as suas faces
e na minha língua o sol trepida

melhor que beber vinho é mais claro
ser no olhar o próprio olhar
a maravilha é este espaço aberto
a rua
um grito
a grande toalha do silêncio verde
***
(António Ramos Rosa)

Morto de amor


Que é aquilo que reluz
pelos altos corredores?
Fecha essa porta, meu filho,
acabam de dar as onze.
Em meus olhos, sem querer,
brilham quatro lampiões.
Talvez ainda aquela gente
esteja a polir o cobre.

*

Alho de agónica prata
o quarto minguante, põe
cabeleiras amarelas
sobre as amarelas torres.
A noite chama a tremer
a vidraça das varandas,
perseguida pelos mil
rafeiros que não a conhecem,
e um olor de vinho e âmbar
solta-se dos corredores.

*

Brisas de cana molhada
e rumor de velhas vozes
ressoavam pelo arco
quebrado da meia-noite.
Os bois e as rosas dormiam.
Somente nos corredores
as quatro luzes clamavam
com o furor de S. Jorge.
Tristonhas mulheres do vale
desciam seu sangue de homem,
tranquilo de flor cortada
e amargo de coxa jovem.
E velhas mulheres do rio
choravam ao pé do monte
um minuto intransitável
de cabeleiras e nomes.
Fachadas de cal tornavam
quebrada e branca essa noite.
Ciganos e serafins
tocavam acordeões.
Minha mãe, quando eu morrer,
que se informem os senhores.
Põe telegramas azuis
que cheguem ao Sul e ao Norte.
Sete gritos, sete sangues,
sete duplas papoulas,
quebraram opacas luas
pelos escuros salões.
Coberto de mãos cortadas
e de grinaldas de flores,
o oceano dos juramentos
ressoava, não sei onde.
E o céu batia nas portas
do brusco rumor do bosque,
enquanto as luzes clamavam
pelos altos corredores.
***
(Frederico García Lorca)

sexta-feira, 19 de março de 2010

Dia do Pai

Duas flores num jardim de Primavera
***
Entraste com teus pés de algodão suave
sobre a rama do silêncio.
A sala do sossego - agora a presença tímida e ousada
da criança que experimenta a resposta do adulto.
A tua carita dizia mais que todas as palavras.
Infantil, muito querida, de cabelos atirados para trás,
Reviraste os olhitos e, serena, perguntaste:
“Pai, achas que estou bonita?”
E o teu pai, mais que responder-te,
queria abraçar-te muito.
“Pai, esta flor é para ti.”
Naquele instante, não sabia o que era mais bonito:
se a camélia... se a tua carita... se as tuas palavras...
“Pai, esta flor é para ti.”
E o teu pai recebeu a flor
e colou um beijinho na conchilinha da tua mão.
“Obrigado, filha. És muito bonita
e eu gosto muito desta flor.”
***
(Manuel Maria)
Tu, meu pai
***
Foste o meu maior exemplo, o meu único ídolo.
Foste o primeiro homem da minha vida.
O único que amo e amarei até ao último dos meus dias.
*
Foste criança comigo, foste amigo, foste defensor, foste duro quando precisaste ser.
Foste o meu chão, onde me sentia segura e foste as minhas asas quando quis voar.
Foste parte dos meus sonhos e a minha melhor realidade.
*
Foste parte das minhas vitórias e estiveste sempre presente nas horas da minha fraqueza.
Foste a minha força e a minha coragem.
Foste o sorriso que coroava as minhas alegrias e o colo onde chorei as minhas tristezas.
*
Foste a luz que iluminou o meu caminho. Foste esse caminho.
Foste palavras e gestos que fizeram de mim a pessoa que sou.
Foste sorrisos e lágrimas, foste beleza e verdade.
*
Foste o melhor pai do mundo!
És o melhor pai do mundo!
Serás sempre o melhor pai do mundo!
***
(Cris)
(Homenagem ao melhor pai do mundo. O meu.)

terça-feira, 16 de março de 2010

Encantação


Encontro no teu amor o ouro puro
O brilho que me dá luz, que me dá vida
Paixão que me ilumina qual Sol o dia
Tu és o meu desejo, tu és meu tudo
*
Não há amor igual no mundo, julgo
Que tal doçura tenha, tal magia
O teu carinho e ternura é que me guia
És razão do meu ser, te amo e adulo
*
Sem ti, nem é possível o paraíso
Pois em ti está todo o fim e princípio
És a razão do meu próprio coração
*
Sem ti, até o mundo, é tão escuro
Tão negro, tão vazio, tão confuso
Tu és, amor, meu encanto e encantação
***
(Silvério Gabriel de Melo)

Eu


Quero escrever versos,
Versos de amor, de ironia,
Quero preencher todos os espaços,
Desta folha vazia.
*
Quero, ao escrever,
Ser completamente livre,
Lembrar-me do que quis ter,
Mas que nunca tive.
*
Quero com estas tantas palavras,
Que escrevo sem encontrar fim
Encher além destas folhas brancas,
Os espaços imensos que há em mim.
*
Lembrar, esquecer
Dormir, acordar,
Desejar morrer,
E depois lamentar.
*
Senti a presença da solidão,
Ri as lágrimas que não chorei,
Agindo com o coração,
Sempre errei.
*
Escrevo partes do que sou,
E dedico-tas a ti,
Mas só eu o sei,
Não sairá daqui.
*
Todas as lágrimas foram enxutas,
Neste pedaço de papel,
que agora é um pouco de mim,
As minhas palavras sentidas, doces ou brutas,
Assim como eu chegaram ao fim.
***
(Inês Delgado)

sexta-feira, 12 de março de 2010

Suave


Sincera como as crianças
falas com o corpo todo.
Ainda quando descansas
há peixes vivos no lodo.
Recebem-me as tuas pernas,
durmo encostado ao teu braço,
tuas rudes frases ternas
lavam o rumo que faço.
Se neste Inverno me alargo
pelos caminhos adversos,
és tu o café amargo
que aquece o peito aos meus versos.
O teu sorriso perfeito,
mais leve que um voo de ave,
é o leito em que me deito,
suave, suave, suave, suave.
***
(Vasco Costa Matos)

Conto


No meu conto,
Não havia fadas
Não havia príncipes
Não havia sapatinhos
Não havia charrete
*
No meu conto,
Havia sonhos
Havia amor
Havia saudades
*
Sem fadas ,
Não vi o príncipe
Não fui ao baile
Não fui princesa
Não perdi o sapatinho
Fui apenas gata borralheira.
***
(Flor Pedrosa)

Os teus lábios


Inclina para mim os teus lábios
e que ao sair da minha boca
a minha alma volte a entrar dentro de ti.
***
(Denis Diderot)

segunda-feira, 8 de março de 2010

Feminina


Eu queria ser mulher pra me poder estender
Ao lado dos meus amigos, nas banquettes dos cafés.
Eu queria ser mulher para poder estender
Pó de arroz pelo meu rosto, diante de todos, nos cafés.
*
Eu queria ser mulher pra não ter que pensar na vida
E conhecer muitos velhos a quem pedisse dinheiro
-Eu queria ser mulher para passar o dia inteiro
A falar de modas e a fazer «potins» – muito entretida.
*
Eu queria ser mulher para mexer nos meus seios
E aguçá-los ao espelho, antes de me deitar
-Eu queria ser mulher pra que me fossem bem estes enleios,
Que num homem, francamente, não se podem desculpar.
*
Eu queria ser mulher para ter muitos amantes
E enganá-los a todos – mesmo ao predilecto
-Como eu gostava de enganar o meu amante loiro, o mais esbelto,
Com um rapaz gordo e feio, de modos extravagantes…
*
Eu queria ser mulher para excitar quem me olhasse,
Eu queria ser mulher pra me poder recusar…
***
(Mário de Sá-Carneiro)
Feliz Dia da Mulher!

domingo, 7 de março de 2010

Trono

Pus-te num trono,
que é o lugar onde deve estar quem se ama,
esse lugar da alma que, sendo íntimo,
não esconde a aparência de altar
de uma igreja singular.
Mas, como a crença é sempre vacilante
e não se pode ter por adquirida,
hás-de saber que nada nos garante
que eu fique a venerar-te toda a vida.
***
(Torquato da Luz)

quarta-feira, 3 de março de 2010

Sentimental


Ponho-me a escrever teu nome
com letras de macarrão.
No prato, a sopa esfria, cheia de escamas
e debruçados na mesa todos contemplam
esse romântico trabalho.
Desgraçadamente falta uma letra,
uma letra somente
para acabar teu nome!
- Está sonhando? Olhe que a sopa esfria!
Eu estava sonhando…
E há em todas as consciências um cartaz amarelo:
“Neste país é proibido sonhar”.
***
(Carlos Drummond de Andrade)

E de novo a armadilha dos braços

E de novo a armadilha dos abraços.
E de novo o enredo das delícias.
O rouco da garganta, os pés descalços
a pele alucinada de carícias.
As preces, os segredos, as risadas
no altar esplendoroso das ofertas.
De novo beijo a beijo as madrugadas
de novo seio a seio as descobertas.
Alcandorada no teu corpo imenso
teço um colar de gritos e silêncios
a ecoar no som dos precipícios.
E tudo o que me dás eu te devolvo.
E fazemos de novo, sempre novo
o amor total dos deuses e dos bichos.
***
(Rosa Lobato de Faria)

domingo, 28 de fevereiro de 2010

Os silêncios

Não entendo os silêncios
que tu fazes
nem aquilo que espreitas
só comigo
Se escondes a imagem
e a palavra
e adivinhas aquilo
que não digo
Se te calas
eu oiço e eu invento
Se tu foges
eu sei não te persigo
Estendo-te as mãos
dou-te a minha alma
e continuo a querer
ficar contigo
***
(Maria Teresa Horta)

Se eu fosse


Se eu fosse um descascador de canela
deitar-me-ia na tua cama
e deixaria o pó amarelo da casca
na tua almofada.
Os teus seios e os teus ombros cheirariam a canela
nunca mais poderias passar no mercado
sem a profissão dos meus dedos
flutuando por cima de ti. O cego tropeçaria
certo de quem se aproximava
mesmo que tomasses banho
na chuva das calhas, na monção.
Aqui no cimo da coxa
neste macio pasto
vizinho do teu cabelo
ou do sulco
que te divide as costas. Este tornozelo.
Serás conhecida entre os estranhos
como a mulher do descascador de canela.
Só a custo te podia ver
antes do casamento
nunca te toquei
- a tua mãe nariguda, os teus irmãos tão brutos.
Enterrei as minhas mãos
em açafrão, disfarcei-as com
alcatrão de tabaco
ajudei os apicultores a colher o mel…
Uma vez que estávamos a nadar
toquei-te na água
e os nossos corpos permaneceram livres,
podias segurar-me e ser cega de cheiro
Saltaste a margem e disseste
isto é como tu tocas as outras mulheres
a mulher do cortador de relva, a filha do queimador de limão
E procuraste nas tuas mãos
o perfume desaparecido
e soubeste
como é bom
ser a filha do queimador de lima
deixada sem marca
como se lhe tivessem falado no acto do amor
como se ferida sem o prazer de uma cicatriz
Roçaste o teu ventre nas minhas mãos
no ar seco e disseste
sou a mulher do descascador
de canela.
Cheira-me.
***
(Michael Ondaatje)

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

As Pequenas Palavras


De todas as palavras escolhi água,
porque lágrima, chuva, porque mar
porque saliva, bátega, nascente
porque rio, porque sede, porque fonte.
De todas as palavras escolhi dar.
*
De todas as palavras escolhi flor
porque terra, papoila, cor, semente
porque rosa, recado, porque pele
porque pétala, pólen, porque vento.
De todas as palavras escolhi mel.
*
De todas as palavras escolhi voz
porque cantiga, riso, porque amor
porque partilha, boca, porque nós
porque segredo, água, mel e flor.
*
E porque poesia e porque adeus
de todas as palavras escolhi dor.
***

(Rosa Lobato de Faria)
(Obs: Porque nunca é tarde para homenagear quem merece. E esta senhora merece.)

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Acordo Ortográfico


Gosto do teu rosto exacto,
com o cê bem desenhado,
mesmo quando não se vê,
para te pôr, como laço
nos cabelos, o circunflexo
em que nenhum traço há-de
sair, mesmo que um pacto
roube o pê nessa pose
de pura concepção.
***
(Nuno Júdice)


Nas estantes os livros ficam
(até se dispersarem ou desfazerem)
enquanto tudo passa.
O pó acumula-se e depois de limpo
torna a acumular-se no cimo das lombadas.
Quando a cidade está suja (obras, carros, poeiras)
o pó é mais negro e por vezes espesso.
Os livros ficam, valem mais que tudo,
mas apesar do amor
(amor das coisas mudas que sussurram)
e do cuidado doméstico fica sempre, em baixo,
do lado oposto à lombada,
uma pequena marca negra do pó nas páginas.
A marca faz parte dos livros.
Estão marcados.
Nós também.
***
(Pedro Mexia)

Cala-te!

A vida, esse livro do ser
Lê-se em silêncio.
Mestre, oficia o rito
Que eu apenas respondo ao salmo,
E no resto
Nem respiro.
*
O silêncio é uma arma de três gumes
Que usamos diariamente
Para calar amarguras
Ou saltando como pumas:
Cala-te! Porque não te calas?
*
A vida, esse livro do ser
Lê-se em silêncio.
*
E a outros, se falam, um punhal
Corta sem hesitar a garganta:
Ou silêncio ou morte!
Não o sabias? Então de que te espantas?
*
Nada incomoda mais que as ciciantes
Preces, as dos que querem ser lidos
Como revistas de moda,
As dos que sabem tudo, tudo censuram,
A todos desautorizam, em altos gritos de arara.
*
Cala-te! Porque não te calas, charlatão?
*
Silêncio, que estou a cantar o fado…
Muito barulho fazeis por coisa de nada
E nada em boa justiça se aplica
Aos que bem mereciam a cadeia.
*
Nem é a autoridade dos que governam impérios
Com a pressão das armas e do dinheiro
A que mais nos ofende com censura
Sim o seu miniatural espelho
De quem nenhuma obra ousou,
Além de poluir o silêncio com mentira.
À luz da nossa vida pessoal, quem mais nos cala
É quem está mais próximo
Mas esse, porque proclama sem cadeira,
Feitos nem actos,
Por excessiva frioleira, mandemo-lo calar
Pois pouco existe, é só fala-barato.
*
Abençoados os que se calam
A ouvir.
É preciso sabedoria para reconhecer
Que ignoramos
E que outros no seu dizer
Revelam alguma mestria.
*
Falem-me em silêncio, na língua da erva
Ou na mais cantarolante dos regatos
E das aves que fazem estrugir as folhas secas
Quando as fêmeas se enamoram
Ao ver as danças dos machos.
*
A vida, esse livro tremendo,
Representa-se devagar,
Em cenário nocturno
Cortado pelo brilho da lua e pelo
Visionar da coruja.
Mais nada é preciso para tocar o astro
Excepto silêncio e cordura.
***
(Maria Estela Guedes)

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Açúcar


expectativa: um pouco da angústia que o licorne retém.
os primeiros passos sobre um vasto átrio
onde se guardavam rosas mornas como lábios.
os mesmos que diziam: "é na alegria que se constroem ninhos,
aqueles que a vida vive no conforto dos breves sentires,
no amor a branda safra das formigas, como o abraço com que me acolhes".
junto às rosas, um açucareiro azul com casinhas doces
e licor dentro, magenta, alguns duendes dormem sobre cogumelos coloridos.
os primeiros passos foram de açúcar.
***
(João Candeias)

domingo, 14 de fevereiro de 2010

Feliz Dia dos Namorados


"Às vezes, quando o desejo nos impele, amar é espontâneo, mas muitas vezes significa escolher amar, decidir amar. Caso contrário, o amor não passaria de emoção, de superficialidade, ou até de egoísmo, e não aquilo que é na sua essência profunda: algo que compromete a nossa liberdade."
(Jacques Philippe)
***
"O que ama quer a felicidade do outro. Por isso se preocupa com o outro e não com o seu próprio bem estar. O outro transforma-se no objecto dos pensamentos, sentimentos e desejos, da sua esperança e dos seus anseios. Não só vive com ele mas também para ele. Quer que o outro possa apoiar-se em si, fazer-lhe um bem."
(Jutta Burggraf)
***
"Amar não é apoderar-se do outro para completar-se, mas dar-se ao outro para completá-lo."
(Lao-Tsé)
***
"O amor, no seu conjunto, não se reduz à emoção nem ao sentimento, que não são senão alguns dos seus componentes. Um elemento mais profundo, e de longe o mais essencial de todos, é a vontade, que tem o papel de modelar o amor no homem. Na amizade - ao contrário do que sucede na simpatia - a participação da vontade é decisiva."
(Karol Wojtyla)
***
"Não existe o esquecimento total: as pegadas impressas na alma são indestrutíveis."
(Thomas De Quincey)
***

Temos todos a mesma história

Temos todos a mesma história
Várias ondas e um oceano
Vários factos e uma memória
Vários jogos e um só engano
Temos todos as mesmas lendas
E eu achava que era sozinha
Um soneto e várias emendas
Sou mil versos e uma só linha
Temos todos o mesmo medo
Dez mil passos e uma só dança
Dez mil papos e um só segredo
Dez mil dores e uma esperança
Temos todos a mesma história
E hoje a tua passa a ser minha
Meu passado tua memória
E eu passei a não ser sozinha
***
(Oswaldo Montenegro)

sábado, 13 de fevereiro de 2010

Nova Etapa


Sempre que algo acaba
Dá inicio a uma nova etapa.
*
Sabemos que nada é infinito
Se o que vivemos é bom
Vamos valorizar enquanto temos
Com laços de seda a proteger
E muito amor a distribuir.
*
Acabado o ano começa outro
Esperemos que seja sempre melhor
Sem cometer os mesmos erros
E abertos a novas situações
Procurar evoluir com os outros.
*
Por muito difícil que a etapa seja
Há sempre uma saída: Nunca desanimar.
***
(FiloMena)

Poema XVIII

Os dias não se descartam nem se somam,
são abelhas que arderam de doçura
ou enfureceram o aguilhão:
o certame continua, vão e vêm as viagens do mel à dor.
Não, não se desfia a rede dos anos: não há rede.
Não caem gota a gota de um rio: não há rio.
O sonho não divide a vida em duas metades,
nem a acção, nem o silêncio,
nem a virtude: a vida foi como uma pedra,
um só movimento,
uma única fogueira que reverberou na folhagem,
uma flecha, uma só, lenta ou activa,
um metal que subiu e desceu queimando em teus ossos.
***
(Pablo Neruda)

De volta pro aconchego


Estou de volta pro meu aconchego
Trazendo na mala bastante saudade
Querendo Um sorriso sincero, um abraço,
Para aliviar meu cansaço
E toda essa minha vontade
Que bom,
Poder estar contigo de novo,
Roçando o teu corpo e beijando você,
Prá mim tu és a estrela mais linda
Seus olhos me prendem, fascinam,
A paz que eu gosto de ter.
É duro, ficar sem você
Vez em quando
Parece que falta um pedaço de mim
Me alegro na hora de regressar
Parece que eu vou mergulhar
Na felicidade sem fim
***
(Dominguinhos)
(Este poema, apesar de ter motivações diferentes, tem sentimentos comuns aos meus.
É bom estar de volta.)

domingo, 24 de janeiro de 2010

Até breve

É com esta bela imagem que encerro o meu blogue por tempo indeterminado.
Uma imagem que desejo poder ver um dia, ao vivo e a cores, com vida e protagonizada por uma das muitas crianças que sofrem neste momento.
Farei a minha parte, o que me for possível para a tornar uma realidade.

Gosto desta partilha, gosto de ter este blogue e foi e será sempre um prazer mantê-lo, mas, por agora, outros valores falam mais alto e me levam para longe daqui.
Daqui, onde a maior parte de nós se queixa ser difícil viver e critica tudo e todos, mas se pensarmos bem, se olharmos à nossa volta e prestarmos atenção ao que se passa lá fora, perceberemos que talvez nem tenhamos sequer o direito de nos queixarmos de nada, tal é a desgraça, a miséria e a tristeza que se vê por este mundo fora.

A todas as pessoas que seguiram este cantinho de Poesia em Flor, o meu obrigada e o meu desejo de que sejam muito felizes.
Até breve...

Os dois horizontes


Dois horizontes fecham nossa vida:
Um horizonte, — a saudade
Do que não há de voltar;
Outro horizonte, — a esperança
Dos tempos que hão de chegar;
No presente, — sempre escuro,—
Vive a alma ambiciosa
Na ilusão voluptuosa
Do passado e do futuro.
*
Os doces brincos da infância
Sob as asas maternais,
O vôo das andorinhas,
A onda viva e os rosais;
O gozo do amor, sonhado
Num olhar profundo e ardente,
Tal é na hora presente
O horizonte do passado.
*
Ou ambição de grandeza
Que no espírito calou,
Desejo de amor sincero
Que o coração não gozou;
Ou um viver calmo e puro
À alma convalescente,
Tal é na hora presente
O horizonte do futuro.
*
No breve correr dos dias
Sob o azul do céu, — tais são
Limites no mar da vida:
Saudade ou aspiração;
Ao nosso espírito ardente,
Na avidez do bem sonhado,
Nunca o presente é passado,
Nunca o futuro é presente.
*
Que cismas, homem?
– Perdido
No mar das recordações,
Escuto um eco sentido
Das passadas ilusões.
Que buscas, homem? – Procuro,
Através da imensidade,
Ler a doce realidade
Das ilusões do futuro.
*
Dois horizontes fecham nossa vida.
***
(Machado de Assis)

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Lágrimas


As lágrimas que rolam no meu rosto
são sinais
da tristeza e do desgosto
por não aguentar mais.
*
Se o sal das lágrimas temperasse
as mágoas do dia a dia
e houvesse quem as secasse
mais feliz me sentiria.
*
Se as lágrimas fossem flores
tudo ao meu redor estaria florido
perfumando as minhas dores
e tudo que tenho sofrido.
***
(Micá)

À procura


A palavra solta-se alada
Correndo para além dos limites.
Tangível,
Tocante
Provocadoramente imemorial.
Na volta do tampo,
No rodar da saia
Vai
À procura do som do vento
À procura de uma boca para morar
No sorriso,
Para varrer as sombras da noite
Relembrando o canto do rouxinol.

A palavra dança na boca do sonho.
O sonho sonha com o riso da água,
A água sente o chapinhar do menino
Na borda do rio.
A palavra ancorada no fio da luz
Solta gemidos sentidos,
Leva recados do tempo
Vai até ti.
***
(Maria José Areal)

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

20 Aniversario Palabras




20 años de estar juntos
esta tarde se han cumplido
para ti flores, perfumes
para mi, algunos libros
No te he dicho grandes cosas
porque no me habrian salido
ya sabes cosas de viejos
requemor de no haber sido.
Hace tiempo que intentamos
abonar nuestro destino
tu bajabas la persiana
yo apuraba mi ultimo vino.
Hoy en esta noche fria
casi como ignorando el sabor
del la soledad compartida
quise hacerte una cancion
para cantar despacito
como se duerme a los niños
y ya ves,solo palabras
sobre notas me han salido
que al igual que tu y que yo
ni se importan ni se estorban
se soportan amistosas.
mas no son una cancion
que helada esta casa !
sera que esta cerca el rio
o es que estamos en invierno
y estan llegando,estan llegando...
los frios.
20 años de estar juntos
esta tarde se han cumplido
para ti flores, perfumes
para mi, algunos libros

***

(Patxi Andion)

(Dedico este lindo poema ao meu irmão Duarte e minha cunhada Esmeralda)

As máscaras


Piedade para estes séculos e seus sobreviventes
alegres ou maltratados, o que não fizemos
foi por culpa de ninguém, faltou aço:
nós o gastamos em tanta inútil destruição,
não importa no balanço nada disto:
os anos padeceram de pústulas e guerras,
anos desfalecentes quando tremeu a esperança
no fundo das garrafas inimigas.
Muito bem, falaremos alguma vez, algumas vezes,
com uma andorinha para que ninguém escute:
tenho vergonha, temos o pudor dos viúvos:
morreu a verdade e apodreceu em tantas fossas:
é melhor recordar o que vai acontecer:
neste ano nupcial não há derrotados:
coloquemo-nos, cada um, máscaras vitoriosas.
***
(Pablo Neruda)

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Lúbrica


Mandaste-me dizer,
No teu bilhete ardente,
Que hás de por mim morrer,
Morrer muito contente.
*
Lançaste no papel
As mais lascivas frases;
A carta era um painel
De cenas de rapazes!
*
Ó cálida mulher,
Teus dedos delicados
Traçaram do prazer
Os quadros depravados!
*
Contudo, um teu olhar
É muito mais fogoso,
Que a febre epistolar
Do teu bilhete ansioso:
*
Do teu rostinho oval
Os olhos tão nefandos
Traduzem menos mal
Os vícios execrandos.
*
Teus olhos sensuais,
Libidinosa Marta,
Teus olhos dizem mais
Que a tua própria carta.
*
As grandes comoções
Tu, neles, sempre espelhas;
São lúbricas paixões
As vívidas centelhas…
*
Teus olhos imorais,
Mulher, que me dissecas,
Teus olhos dizem mais,
Que muitas bibliotecas!
***
(Cesário Verde)

Soneto Antigo


Responder a perguntas não respondo.
Perguntas impossíveis não pergunto.
Só do que sei de mim aos outros conto:
de mim, atravessada pelo mundo.
*
Toda a minha experiência, o meu estudo,
sou eu mesma que, em solidão paciente,
recolho do que em mim observo e escuto
muda lição, que ninguém mais entende.
*
O que sou vale mais do que o meu canto.
Apenas em linguagem vou dizendo
caminhos invisíveis por onde ando.
*
Tudo é secreto e de remoto exemplo.
Todos ouvimos, longe, o apelo do Anjo.
E todos somos pura flor de vento.
***
(Cecília Meireles)

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Primeira água


Apaguei os olhos e me deitei no luar
aprisionando algumas estrelas em mim.
O canto dos ventos nas rochas era lento
assim como uma cantiga de ninar criança
estendida além das horas, além do tempo.
Na boca ainda guardava o sabor carmim
do vinho que sorvi com a alegria que buscava.
Pude ouvir a chegada do silêncio devagar
no navegar asas abertas dos meus sonhos.
Pude sentir o frescor da fonte e enchi
meu copo vazio. Primeira água da manhã.
Bebi gole longo e com ele veio o sol
emergindo do horizonte como a bola de
sabão se solta do canudo,vagarosamente,
se libertando na brisa acordando o dia.
Abri meus braços com preguiça, como fazem
as gaivotas com os papos cheios de peixes.
Abri as cortinas do meu olhar e percebi
que o mundo havia virado poema novamente
Então cantarolei como nunca antes e sorri.
***
(António Miranda Fernandes)

Caminho de uma vida


Vida tão concisa,
Sentida na sua futilidade,
Segue seu rumo e nunca avisa,
Traça e desenha a minha personalidade.

Alma só e tão vazia,
Vive rodeada de existência,
Um sorriso oferecido dia após dia,
Irreconhecível na sua essência.

Neste caminho sem sentido,
Arduamente percorrido,
Pedaços de mim deixo ficar,
Sinto-me mudar.

Uma mudança gélida e forçada,
Que molda lentamente,
Esta alma triste e cansada,
Tornando-a frígida e descrente.

O Presente é demoroso,
Sente-se ofegante,
Nervoso e saudoso,
Por um Futuro que é distante.
***
(Patrícia Santos)

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Olho a sua boca


Olho a sua boca.
Tanto que vem
o punhal da luz
levar-me os olhos.
O carvão, a cinza dos
meus olhos.
Os seus.
A sua boca,o sulco
onde me pergunta
e eu respondo.
A morrer,
a olhar anavalhado
o seu brilho bravio.
Sons de sirenes, uivos,
estrondos, desabamentos,
ravinas donde rompe o amor.
A sua boca.
***

(Joaquim Manuel Magalhães)

Até ao fim


Mas é assim o poema:
construído devagar,
palavra a palavra,
e mesmo verso a verso,
até ao fim.
O que não sei é como acabá-lo;
ou, até, se o poema quer acabar.
Então, peço-te ajuda:
puxo o teu corpo
para o meio dele,
deito-o na cama da estrofe,
dispo-o de frases
e de adjectivos até te ver,
tu,
o mais nu dos pronomes.
Ficamos assim.
Para trás,
palavras e versos,
e tudo o que
não é preciso dizer:
eu e tu,
chamando o amor
para que o poema acabe.
***
(Nuno Júdice)

domingo, 3 de janeiro de 2010

Feliz 2010


Votos de um 2010 repleto de alegrias, boas surpresas, muito amor e, claro, muita poesia... para os que gostam.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

Receita de Ano novo


Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor de arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação
como todo o tempo já vivido
(mal vivido ou talvez sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser,
novo até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanhe ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens? passa telegramas?).
Não precisa fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar de arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar que,
por decreto da esperança,
a partir de Janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados,
começando pelo direito augusto de viver.
Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo de novo,
eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.
***
(Carlos Drummond de Andrade)

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Feliz Aniversário (*)


Durante a noite viajei até ao cume mais alto da estrela polar.
É onde se encontram as flores mais frescas e luminosas jamais vistas pelo homem.
Comigo levei um bando de libelinhas, coordenado pelas fadas do mundo interior.
Disseram-me elas que esta é a forma mais terna de transpostar a verdadeira essência de um perfume, cuja pureza é sorvido pelo esvoaçar das suas asas...
Carregamento efectuado!
Pelo caminho ainda peguei num punhado de estrelas e moldei-as em jeito de caixinha...
Chegados ao meu jardim, a azáfama foi tremenda.
Todos vestidos a rigor preparavam a festança que se avizinha!
Na minha caixinha de estrelas coloquei duas tulipas brancas e pulverizei-as com o mais puro dos perfumes vertido pelas asas das libelinhas.
Os duendes bordavam um tapete de seda com letras multicolores...sorriam e catarolavam!
Fui ao lago das sereias buscar a mais linda e cristalina melodia e impregnei-a na caixinha...
Quando regressei ao vale, onde se situa o meu jardim, estava tudo pronto e sorridente.
Elevei a caixinha aos céus e uma espiral de luz desceu, abraçando-a num gesto terno e de muito carinho...
É hora e chegou o dia!
O tapete eleva-se...as letras irradiam uma luminosidade translúcida...
" Parabéns, Cristiana! "
Cerro a caixa e enlaço-a com a via láctea!...
Um anjo descerá e depositará em ti esta caixinha mágica...sempre que a abrires, escutarás a melodia das sereias, sentirás a dança das tulipas e inalarás o perfume que emanam...
Feliz aniversário!
***
(Nuno)
(*) Não é um poema, mas está recheado de poesia. Não foi escrito por um poeta, mas foi escrito por uma pessoa que me é querida, o que por si só, e se mais razão alguma não existisse, já justificaria deixá-lo aqui exposto.
É um texto lindíssimo e por isso mesmo nunca deixaria de publicar neste meu jardim.
Faço-o não por vaidade, embora me sinta muito lisongeada, mas sim porque merece este destaque.
Merece o texto e merece o autor. Obrigada, Nuno)