sexta-feira, 13 de novembro de 2009

O poeta e a vida


Contra a angústia,
a solidão e o medo
ergo os versos
e não cedo.
*
Quebro-os
– lança imaginária –
na página da Vida.
E é por ela
que os escrevo.
***
(Carlos Carranca)

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

O Pai


Terra de semente inculta e bravia,
terra onde não há esteiros ou caminhos,
sob o sol minha vida se alonga e estremece.
*
Pai, nada podem teus olhos doces,
como nada puderam as estrelas
que me abrasam os olhos e as faces.
*
Escureceu-me a vista o mal de amor
e na doce fonte do meu sonho
outra fonte tremida se reflecte.
*
Depois... Pergunta a Deus
porque me deram o que me deram
e porque depois conheci a solidão do céu e da terra.
*
Olha, minha juventude foi um puro botão
que ficou por rebentar
e perde a sua doçura de seiva e de sangue.
*
O sol que cai e cai eternamente cansou-se de a beijar...
E o Outono.
Pai, nada podem teus olhos doces.
*
Escutarei de noite as tuas palavras:
... menino, meu menino...
*
E na noite imensa
com as feridas de ambos seguirei.
***
(Pablo Neruda)
(Poema lindíssimo que dedico ao meu pai com eterna saudade.)

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Tem de haver um tempo


Tem de haver um tempo
para a vida e para a morte
tem de haver um espaço
onde concentrar
as lágrimas e o riso.
*
Um abismo
onde as árvores cresçam
em esquecimento
e claridade.
*
Uma porta rarefeita
por onde escoar
o que resta da solidão.
***
(Luís Serrano)

Canção do verdadeiro abandono


Podem todos rir de mim,
podem correr-me à pedrada,
podem espreitar-me à janela
e ter a porta fechada.
*
Com palavras de ilusão
não me convence ninguém.
Tudo o que guardo na mão
não tem vislumbres de além.
*
Não sou irmã das estrelas,
nem das pombas nem dos astros.
Tenho uma dor consciente de bicho
que sofre as pedras e se desloca de rastos.
***
(Natércia Freire)

Final


De mãos escassas nuas
a flor frágil renasce sem motivo
senão vê-la tardia nos caminhos
que até aqui me trouxeram,
e a surpresa, a nitidez dos colos tranquilos
onde as searas são o dia-a-dia
já maduras e a estrada que entre os campos
me leva desconheço hoje para onde
nem como nem porquê entre cidades
e plainos navegando e vendo as árvores
e o seu perfil exacto contra o céu.
Digo-me tanto aqui hei-de passar
que um dia o silêncio se abrirá
no rasto que existia na memória
e as lembranças se irão, morto estava
o desejo de flores e as mãos escassas
preparavam o seu fim
sem que a pena ou o medo as desviasse.
***
(Nuno Dempster)

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Anos sem fim, à luz do mar aceso


Anos sem fim, à luz do mar aceso,
te vi nudez quase total, tão grácil
figura juvenil, ambígua e fácil,
e ao longe às vezes totalmente nua
em só relance de malícia crua.
Tudo isso me atraía e me afastava,
embora a vista retornando escrava,
a teus lugares me tivesse preso.
E quase sempre então tua figura,
sentada estátua, ou falsa sesta impura,
lá era, ao sol, o tempo congelado.
Hoje, subitamente, tu não viste
ninguém senão o meu olhar quebrado,
e com lenta inocência te despiste.
Mas quantas rugas no sorriso ansiado!
***
(Jorge de Sena)

A sombra sou eu


A minha sombra sou eu,
ela não me segue,
eu estou na minha sombra
e não vou em mim.
Sombra de mim que recebo a luz,
sombra atrelada ao que eu nasci,
distância imutável de minha sombra a mim,
toco-me e não me atinjo,
só sei do que seria
se de minha sombra chegasse a mim.
Passa-se tudo em seguir-me
e finjo que sou eu que sigo,
finjo que sou eu que vou
e não que me persigo.
Faço por confundir a minha sombra comigo:
estou sempre às portas da vida,
sempre lá, sempre às portas de mim!
***
(Almada Negreiros)

domingo, 8 de novembro de 2009

A última lágrima


A chama arde.
O coração bate.
A cera escorre.
A lágrima desce.
O calor morre,
E a vida de esperança carece.
A cera evapora.
O suspiro vai embora.
Outra alma padece,
E para o além ela corre.
O calor se expande,
Esquenta a face,
Molhada diante
Da mais dura perda.
E a vela se esvai.
A última lágrima cai.
Todos os seus sentimentos,
Todos os seus pensamentos,
Tudo se mistura,
Num momento de tortura
Que explode e perdura.
Os olhos reluzem.
Os gestos traduzem
Os segredos de um amor
Convertido em dor.
E o choro irrompe,
Gritos surdos de sofrimento.
E uma voz interrompe
A solidão do momento.
Um suspiro repentino,
Como se toda a vida se esvaísse.
Um sussurro inaudível,
Mas que revelaria para quem o ouvisse
O amor escondido,
Não correspondido.
E a dor se torna terrível,
Impossível.
E a última cera escorre,
E a última lágrima desce,
E o último sangue jorra,
E tudo que era vivo morre,
E tudo que era feliz entristece,
E todo o fogo vai embora,
E só há escuridão.
Afoga-se em sua própria solidão,
Fica apenas a memória
Da tortura e da decepção
Causadas por um amor mútuo,
Não correspondido
Por ambos os lados.
Viveu escondido
E morre enterrado
Na mais profunda escuridão.
***
(Jannerson Xavier)

Pensar em ti


Pensar em ti é coisa delicada.
É um diluir de tinta espessa e farta
e o passá-la em finíssima aguada
com um pincel de marta.
*
Um pesar grãos de nada em mínima balança
um armar de arames cauteloso e atento,
um proteger a chama contra o vento,
pentear cabelinhos de criança.
*
Um desembaraçar de linhas de costura,
um correr sobre lã que ninguém saiba e oiça,
um planar de gaivota como um lábio a sorrir.
*
Penso em ti com tamanha ternura
como se fosses vidro ou película de loiça
que apenas como o pensar te pudesses partir.
***
(António Gedeão)

sábado, 7 de novembro de 2009

As Primeiras Chuvas


As primeiras chuvas estavam tão perto
de ser música
que esquecemos que o Verão acabara:
uma súbita alegria,
súbita e bárbara, subia e coroava
a terra de água,
e Deus, que tanto demorara,
ardia no coração da palavra.
***
(Eugénio de Andrade)

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Eros e Psique


Conta a lenda que dormia
Uma Princesa encantada
A quem só despertaria
Um Infante que viria
De além do muro da estrada
*
Ele tinha, que , tentado
Vencer o mal e o bem,
Antes que, já libertado,
Deixasse o caminho errado
Por o que à Princesa vem.
*
A Princesa Adormecida,
Se espera, dormindo espera.
Sonha em morta a sua vida,
E orna-lhe a fronte esquecida,
Verde, uma grinalda de hera.
*
Longe o Infante, esforçado
Sem saber que intuito tem,
Rompe o caminho fadado.
Ele dela é ignorado
Ela pra ele é ninguém.
*
Mas cada um cumpre o Destino
- Ela dormindo encantada,
Ele buscando-a sem tino
Pelo processo divino
Que faz existir a estrada.
*
E, se bem que seja obscuro
Tudo pela estrada fora,
E falso, ele vem seguro
E, vencendo estrada e muro,
Chega onde em sono ela mora.
*
E, inda tonto do que houvera,
À cabeça em maresia,
Ergue a mão , e encontra hera
E vê que ele mesmo era
A Princesa que dormia.
***
(Fernando Pessoa)

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Quem Me Quiser

Quem me quiser há-de saber as conchas
a cantigas dos búzios e do mar.
Quem me quiser há-de saber as ondas
e a verde tentação de naufragar.
*
Quem me quiser há-de saber as fontes,
a laranjeira em flor, a cor do feno,
à saudade lilás que há nos poentes,
o cheiro de maçãs que há no Inverno.
*
Quem me quiser há-de saber a chuva
que põe colares de pérolas nos ombros
há-de saber os beijos e as uvas
há-de saber as asas e os pombos.
*
Quem me quiser há-de saber os medos
que passam nos abismos infinitos
a nudez clamorosa dos meus dedos
o salmo penitente dos meus gritos.
*
Quem me quiser há-de saber a espuma
em que sou turbilhão, subitamente
- Ou então não saber a coisa nenhuma
e embalar-me ao peito, simplesmente.
***
(Rosa Lobato de Faria)

O Céu


Assoam-se-me à alma
quem como eu traz desfraldado o coração
sabe o que querem dizer estas palavras.
A pele serve de céu ao coração.
***
(Luís Miguel Nava)

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Coisa Amar


Contar-te longamente
as perigosas coisas do mar.
Contar-te o amor ardente
e as ilhas que só há no verbo amar.
Contar-te longamente longamente.
*
Amor ardente. Amor ardente.
E mar.
Contar-te longamente
as misteriosas maravilhas do verbo navegar.
E mar.
*
Amar: as coisas perigosas.
Contar-te longamente
que já foi num tempo doce coisa amar.
E mar.
*
Contar-te longamente
como doi desembarcar nas ilhas misteriosas.
Contar-te o mar ardente e o verbo amar.
E longamente as coisas perigosas.
***
(Manuel Alegre)

Soneto CV


Não chame o meu amor de Idolatria
Nem de Ídolo realce a quem eu amo,
Pois todo o meu cantar a um só se alia,
E de uma só maneira eu o proclamo.
É hoje e sempre o meu amor galante,
Inalterável, em grande excelência;
Por isso a minha rima é tão constante
A uma só coisa e exclui a diferença.
'Beleza, Bem, Verdade', eis o que exprimo;
'Beleza, Bem, Verdade', todo o acento;
E em tal mudança está tudo o que primo,
Em um, três temas, de amplo movimento.
'Beleza, Bem, Verdade' sós, outrora;
Num mesmo ser vivem juntos agora.
***
(William Shakespeare)

Assim eu vejo a vida


A vida tem duas faces:
Positiva e negativa
O passado foi duro mas deixou o seu legado
Saber viver é a grande sabedoria
Que eu possa dignificar
Minha condição de mulher,
Aceitar suas limitações
E me fazer pedra de segurança
dos valores que vão desmoronando.
Nasci em tempos rudes
Aceitei contradições lutas e pedras
como lições de vida e delas me sirvo
Aprendi a viver.
***
(Cora Coralina )

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Dever de Sonhar


Eu tenho uma espécie de dever,
dever de sonhar,
de sonhar sempre,
pois sendo mais do que um espectáculo de mim mesmo,
eu tenho que ter o melhor espectáculo que posso.
E, assim, me construo a ouro e sedas,
em salas supostas, invento palco,
cenário para viver o meu sonho
entre luzes brandas e músicas invisíveis.
***
(Fernando Pessoa)

A Mulher Mais Bonita do Mundo


estás tão bonita hoje. quando digo que nasceram flores novas na terra do jardim,
quero dizer que estás bonita.
entro na casa, entro no quarto, abro o armário, abro uma gaveta,
abro uma caixa onde está o teu fio de ouro.
entre os dedos, seguro o teu fino fio de ouro, como se tocasse a pele do teu pescoço.
há o céu, a casa, o quarto, e tu estás dentro de mim.
estás tão bonita hoje. os teus cabelos, a testa, os olhos, o nariz, os lábios.
estás dentro de algo que está dentro de todas as coisas,
a minha voz nomeia-te para descrever a beleza.
os teus cabelos, a testa, os olhos, o nariz, os lábios.
de encontro ao silêncio, dentro do mundo,
estás tão bonita é aquilo que quero dizer.
***
(José Luís Peixoto)

domingo, 1 de novembro de 2009

A um ausente


Tenho razão de sentir saudade,
tenho razão de te acusar.
Houve um pacto implícito que rompeste
e sem te despedires foste embora.
Detonaste o pacto.
Detonaste a vida geral, a comum aquiescência
de viver e explorar os rumos de obscuridade
sem prazo sem consulta sem provocação
até o limite das folhas caídas na hora de cair.
Antecipaste a hora.
Teu ponteiro enlouqueceu, enlouquecendo nossas horas.
Que poderias ter feito de mais grave
do que o acto sem continuação, o acto em si,
o acto que não ousamos nem sabemos ousar
porque depois dele não há nada?
Tenho razão para sentir saudade de ti,
de nossa convivência em falas camaradas,
simples apertar de mãos, nem isso, voz
modulando sílabas conhecidas e banais
que eram sempre certeza e segurança.
Sim, tenho saudades.
Sim, acuso-te porque fizeste
o não previsto nas leis da amizade e da natureza
nem nos deixaste sequer o direito de indagar
porque o fizeste, porque te foste.
***
(Carlos Drummond de Andrade)

sábado, 31 de outubro de 2009

A Flor Que És


A flor que és, não a que dás, eu quero.
Porque me negas o que te não peço.
Tempo há para negares
Depois de teres dado.
Flor, sê-me flor!
Se te colher avaro
A mão da infausta esfinge,
tu perere Sombra errarás absurda,
Buscando o que não deste.
***

(Ricardo Reis)

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Sonho e não realidade!


Quando estou sozinha
Eu canto danço, eu choro
Sob o peso do pranto eu me curvo
Sob o peso da tristeza
Eu me levanto
Sob o peso das lembranças felizes
Eu rodopio e danço
*
De olhos fechados,
a felicidade me chega
Bailo e flutuo com uma pena no ar
Nos braços invisíveis me aconchego
Sinto seus lábios me beijar
*
A alegria toma conta de mim
A realidade não quero lembrar
Dançando, dançando em um belo salão
Eu continuo a sonhar
*
De repente e lentamente de repente
Vejo que a música está a parar
O violino que tão romântico tocava
Parece que agora ele começar a chorar
*
Abro os olhos acordando medrosa
Vejo o chão como a me olhar
Chega a minha realidade
E vejo que curvada continuo
A chorar...
***
(Rita Maria Medeiros de Almeida)

Sintonia


Na superfície do meu corpo
palmilhada pelos teus dedos
reluzem cristalinos ainda
os sinais de tuas mãos
que são de sal e suor
*
Das paredes e dos móveis
e até dos espaços vazios,
nos lugares por onde andamos,
na retina, e na memória
ressurge a tua presença.
*
E esse estares em mim
é o tempo da colheita
o tempo de tudo ter,
é o banquete da vida
que nos devolve ao principio
de sentir que tudo volta
a ser na sua inteireza.
*
E nesse estado de graça
não busco fundo nem longe
o nirvana dos ascetas,
me basta a luz que emana
se sentir que a batida
no meu peito é igual
à pulsão que te anima.
***
(Ângela Santos)

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Retrato de uma princesa desconhecida


Para que ela tivesse um pescoço tão fino
Para que os seus pulsos tivessem um quebrar de caule
Para que os seus olhos fossem tão frontais e limpos
Para que a sua espinha fosse tão direita
E ela usasse a cabeça tão erguida
Com uma tão simples claridade sobre a testa
Foram necessárias sucessivas gerações de escravos
De corpo dobrado e grossas mãos pacientes
Servindo sucessivas gerações de príncipes
Ainda um pouco toscos e grosseiros
Ávidos cruéis e fraudulentos
Foi um imenso desperdiçar de gente
Para que ela fosse aquela perfeição
Solitária exilada sem destino
***
(Sophia de Mello Breyner Andresen)

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Lágrimas tristes tomarão vingança

Se somente hora alguma em vós piedade
De tão longo tormento se sentira,
Amor sofrera, mal que eu me partira
De vossos olhos, minha saudade.
*
Apartei-me de vós, mas a vontade,
Que por o natural na alma vos tira,
Me faz crer que esta ausência é de mentira;
Porém venho a provar que é de verdade.
*
Ir-me-ei, Senhora; e neste apartamento
Lágrimas tristes tomarão vingança
Nos olhos de quem fostes mantimento.
*
Desta arte darei vida a meu tormento,
Que, enfim, cá me achará minha lembrança
Sepultado no vosso esquecimento.
***
(Luís Vaz de Camões)

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Serenata


Permita que eu feche os meus olhos,
pois é muito longe e tão tarde!
Pensei que era apenas demora,
e cantando pus-me a esperar-te.
*
Permite que agora emudeça:
que me conforme em ser sozinha.
Há uma doce luz no silencio,
e a dor é de origem divina.
*
Permite que eu volte o meu rosto
para um céu maior que este mundo,
e aprenda a ser dócil no sonho
como as estrelas no seu rumo.
***

(Cecília Meireles)

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Tenho na mão a rosa


Tenho na mão a rosa
Recebida como prova
De um amor do passado.
O tempo tirou-lhe o frescor,
As pétalas foram murchando
Depois que o amor terminou.
E para cada pétala que cai
Por entre os dedos da mão,
Rola-me dos olhos uma lágrima
Chuva que vem de minh’alma,
Para que ela reviva tão rubra
Como o fogo da antiga paixão.
Que seu perfume seja o sinal
Da volta do ausente
Depois de apagadas as marcas
Da hora da despedida.

***

(Maria Hilda de J. Alão)

Minha Desgraça


Minha desgraça, não, não é ser poeta,
Nem na terra de amor não ter um eco,
E meu anjo de Deus, o meu planeta
Tratar-me como trata-se um boneco...
Não é andar de cotovelos rotos,
Ter duro como pedra o travesseiro...
Eu sei... O mundo é um lodaçal perdido
Cujo sol (quem mo dera!) é o dinheiro...
Minha desgraça, ó cândida donzela,
O que faz que o meu peito assim blasfema,
É ter para escrever todo um poema,
E não ter um vintém para uma vela.
***
(António Álvares de Azevedo)

sábado, 24 de outubro de 2009

Húmido de beijos e de lágrimas

Húmido de beijos e de lágrimas,
ardor da terra com sabor a mar,
o teu corpo perdia-se no meu.
(Vontade de ser barco ou de cantar.)
***
(Eugénio de Andrade)

Recado


Ouve a luz
Como ainda tem o sabor das algas
Deixei-lhe escrito um recado
Das nuvens
Não te esqueças de ouvir a luz
Não te esqueças que ao sol pôr
Também eu morro
Não te esqueças
***
(Daniel Faria)

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Folhas soltas entre as flores



"Meto as mãos nos bolsos e trago-as carregadas de noites de amor: penso que isso basta para encontrar o mundo"
***
(A. Lobo Antunes)

Há uma música do Povo


Há uma musica do Povo
Nem sei dizer se é um Fado
Que ouvindo-a há um ritmo novo
No ser que tenho guardado…
Ouvindo-a sou quem seria
Se desejar fosse ser…
É uma simples melodia
Das que se aprendem a viver…
Mas é tão consoladora
A vaga e triste canção…
Que a minha alma já não chora
Nem eu tenho coração…
Sou uma emoção estrangeira,
Um erro de sonho ido…
Canto de qualquer maneira
E acabo com um sentido!
***
(Fernando Pessoa)

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

O meu olhar azul como o céu


O meu olhar azul como o céu
É calmo como a água ao sol
É assim, azul e calmo...
Porque não interroga nem se espanta...
Se eu interrogasse e me espantasse
Não nasciam flores novas nos prados
Nem mudaria qualquer coisa no sol
De modo a ele ficar mais belo...
(Mesmo se nascessem flores novas no prado
E se o sol mudasse para mais belo,
Eu sentiria menos flores no prado
E achava mais feio osol...
Porque tudo é como é e assim é que é
E eu aceito e nem agradeço,
Para não parecer que penso nisso...)
***
(Alberto Caeiro)

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Metamorfoses


Faça-se luz
neste mundo profano
que é o meu gabinete
de trabalho:
uma despensa.
*
As outras dividiam-se
por sótãos,
eu movo-me em despensa
com presunto e arroz,
livros e detergentes.
*
Que a luz penetre
no meu sótão
mental
do espaço curto
*
E as folhas de papel
que embalo docemente
transformem o presunto
em carruagem.
***
(Ana Luísa Amaral)

A Política do Dia


Hoje a vida tem o sorriso
dentífrico dos candidatos
e pelas ruas nos aponta
o céu, em múltiplos retratos.
*
céu não póstumo ou merecido
em cruel sala de espera
mas entre parêntesis de fogo
festiva véspera de guerra
*
Teor de montras a vida
com democrático humor
a todos deixa viver
a sua dose de flor
*
Publicitária a vida faz
sua campanha eleitoral
prato de vida apetitosa
temperada com humano sal
*
Televisor férias de verão
tira a vida do seu discurso
e um amor provençal
que nos domestica o urso
*
Popular a vida é toda
pétalas de apertos de mão.
Que meus versos me vinguem
de cair nesse alçapão
***
(Natália Correia)

domingo, 18 de outubro de 2009

Crepuscular


O teu olhar entra em meus olhos
Com tão perfeita obsessão
Que julgo ver a face tua
Pálida, ingénua, fria e nua
Inteiramente em minha mão
Há tantos olhos sonhadores
Dentro da luz crepuscular
E sinto além da realidade
No céu, nas luzes, na cidade
A obsessão do teu olhar
***
(Clark Guimarães)

A Flor do Amor

Germina lenta,
silenciosa,
semente branca.
Pura magia!...
Enquanto cresce,
suas raízes profundas
vão tomando conta
do coração...
Abrindo as pétalas,
perfuma a alma,
transforma tudo...
Abafa as mágoas,
seca o pranto.
Leva a paixão...
Deixa o encanto.
***
(Andra Valladares)

sábado, 17 de outubro de 2009

Gaivota


Se uma gaivota viesse
Trazer-me o céu de Lisboa
No desenho que fizesse,
Nesse céu onde o olhar
É uma asa que não voa,
Esmorece e cai no mar.
*
Que perfeito coração
No meu peito bateria,
Meu amor na tua mão,
Nessa mão onde cabia
Perfeito o meu coração.
*
Se um português marinheiro,
Dos sete mares andarilho,
Fosse quem sabe o primeiro
A contar-me o que inventasse,
Se um olhar de novo brilho
No meu olhar se enlaçasse.
*
Que perfeito coração
No meu peito bateria,
Meu amor na tua mão,
Nessa mão onde cabia
Perfeito o meu coração.
*
Se ao dizer adeus à vida
As aves todas do céu,
Me dessem na despedida
O teu olhar derradeiro,
Esse olhar que era só teu,
Amor que foste o primeiro.
*
Que perfeito coração
Morreria no meu peito,
Meu amor na tua mão,
Nessa mão onde perfeito
Bateu o meu coração.
***
(Alexandre O'Neill)

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Ilusão Perdida


Florida ilusão que em mim deixaste
a lentidão duma inquietude
vibrando em meu sentir tu juntaste
todos os sonhos da minha juventude.
Depois dum amargor tu afastaste-te,
e a princípio não percebi.
Tu partiras tal como chegaste uma tarde
para alentar meu coração
mergulhado na profundidade dum desencanto.
Depois perfumaste-te com meu pranto,
fiz-te doçura do meu coração,
agora tens aridez de nó, um novo desencanto,
árvore nua que amanhã se tornará germinação.
***
(Pablo Neruda)

Infinito


Vidas, passadas, presentes e futuras,
Dias, semanas, meses, anos, décadas,
Tudo gira no pêndulo do relógio vital, ciclos
Seres, estrelas, populações, constelações
*
Oh mundo belo e cruel,
Ao lado do mel, o fel,
À frente da nascente, o poente,
Atrás do monte, o horizonte.
*
Nos dilemas do contraditório,
Nos conflitos do necessário,
No pulsar deste coração libertário,
Nas armadilhas do tempo que se escoa, temerário
*
Viver no limite do finito
E contrastar com a amplitude
Das possibilidades do infinito
Ao alcance de uma tomada de atitude
*
No Deus jardineiro da sementeira do universo.
De vidas ceifadas na sanha guerreira dos perversos
Nas crianças brotam esperanças de outros tempos
Em gritos que ecoam do deserto aos campos,
do terço ao verso...
***
(AjAraújo)

terça-feira, 13 de outubro de 2009

As Minhas Asas


Eu tinha umas asas brancas,
Asas que um anjo me deu,
Que, em me eu cansando da terra,
Batia-as, voava ao céu.
– Eram brancas, brancas, brancas,
Como as do anjo que mas deu:
Eu inocente como elas,
Por isso voava ao céu.
Veio a cobiça da terra.
Vinha para me tentar;
Por seus montes de tesouros
Minhas asas não quis dar.
– Veio a ambição, co'as grandezas,
Vinham para mas cortar
Davam-me poder e glória
Por nenhum preço as quis dar.
Porque as minhas asas brancas,
Asas que um anjo me deu,
Em me eu cansando da terra
Batia-as, voava ao céu.
Mas uma noite sem lua
Que eu contemplava as estrelas,
E já suspenso da terra,
Ia voar para elas,
– Deixei descair os olhos
Do céu alto e das estrelas...
Vi entre a névoa da terra,
Outra luz mais bela que elas.
E as minhas asas brancas,
Asas que um anjo me deu,
Para a terra me pesavam,
Já não se erguiam ao céu.
Cegou-me essa luz funesta
De enfeitiçados amores...
Fatal amor, negra hora
Foi aquela hora de dores!
– Tudo perdi nessa hora
Que provei nos seus amores
O doce fel do deleite,
O acre prazer das dores.
E as minhas asas brancas,
Asas que um anjo me deu
Pena a pena me caíram...
Nunca mais voei ao céu.
***
(Almeida Garret)

Fugaz


Fugaz passagem por uma paisagem,
lugar do onde, do ontem, do quando,
quantas palavras ficaram faltando
na boca cheia de imagens.
o outro é aquele que ficou à margem,
no espanto de um pronome,
no corpo de uma brisa suave;
o outro é como uma fome
pluma à deriva, à distância, ou quase.
estranho em sua própria viagem,
garrafa com uma mensagem,
olhar durando numa flor,
sem nome, secreta, selvagem.
Desterro, água bebida num trem,
peça incompleta, festa adiada, vertigem,
a cabeça sempre em alguém,
eu outro, eu todos, ninguém.
***
(Rodrigo Garcia Lopes)

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

O Verbo Flor


O verbo flor
é conjugável
por quase todas as pessoas
em certos tempos definidos.
a saber:
quase nunca no Outono
no Inverno quase não
quase sempre no Verão
e demais na Primavera
que no coração
poderá durar
e ser eterna.
quando o verbo conjugar:
quando eu flor
quando tu flores
quando ele flor
e você flor
quando nós
quando todo mundo flor.
***
(Renato Rocha)

sábado, 10 de outubro de 2009

A Vida Vivida


Quem sou eu senão um grande sonho obscuro
em face do Sonho
Senão uma grande angústia obscura
em face da Angústia
*
Quem sou eu senão a imponderável árvore
dentro da noite imóvel
E cujas presas remontam
ao mais triste fundo da terra?
*
De que venho senão da eterna caminhada de uma sombra
Que se destrói à presença das fortes claridades
Mas em cujo rastro indelével repousa a face do mistério
E cuja forma é prodigiosa treva informe?
*
Que destino é o meu senão o de assistir ao meu Destino
Rio que sou em busca do mar que me apavora
Alma que sou clamando o desfalecimento
Carne que sou no âmago inútil da prece?
*
O que é a mulher em mim
senão o Túmulo
O branco marco da minha rota peregrina
Aquela em cujos abraços vou caminhando para a morte
Mas em cujos braços somente tenho vida?
*
O que é o meu Amor, ai de mim,
senão a luz impossível
Senão a estrela parada num oceano de melancolia
O que me diz ele senão que é vã toda a palavra
Que não repousa no seio trágico do abismo?
*
O que é o meu Amor,
senão o meu desejo iluminado
O meu infinito desejo de ser o que sou acima de mim mesmo
O meu eterno partir da minha vontade enorme de ficar
Peregrino, peregrino de um instante, peregrino de todos os instantes
A quem repondo senão a ecos, a soluços, a lamentos
De vozes que morrem no fundo do meu prazer ou do meu tédio
*
Qual é o meu ideal senão fazer do céu poderoso a Língua
Da nuvem a Palavra imortal cheia de segredo
E do fundo do inferno delirantemente proclamá-los
Em Poesia que se derrame como sol ou como chuva?
*
O que é o meu ideal senão o Supremo Impossível
Aquele que é, só ele, o meu cuidado e o meu anelo
O que é ele em mim senão o meu desejo de encontra-lo
E o encontrando, o meu medo de não o reconhecer?
*
O que sou eu senão ele, o Deus em sofrimento
o temor imperceptível na voz portentosa do vento
O bater invisível de um coração no descampado...
Que sou eu senão Eu Mesmo em face de mim?
***
(Vinicius de Moraes)

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Amor Amante


Raios de sol brilham ao recordar...
Ah, quão saudoso é amar e ser amado.
Imensos são os sentimentos vividos,
Momentos singulares e sem repetições.
E será possível reconquistar um amor já vivido?
*
Resplandece nas lembranças sem explicações.
Alvorada surge feito criança, cheia de esperança;
Imergindo da terra toda a descrença e a injustiça.
Maravilhando o cintilar da verdadeira felicidade,
E não deixando dúvida para a incredulidade.
*
Reinvento versos no papel em branco...
As almas se comunicam a distância.
Inesquecível momento preto e branco,
Mesmo que estejam tanto tempo separadas.
E, contudo, se aproximam já enamoradas.
*
Ressurgem as labaredas do amor,
Anunciando que o coração se tornará refém;
Inundando-se sem controle de um amor faiscante.
Move-se toda a antiga história que se refaz em minutos,
E dá-se início a nova relação, um amor amante.
***
(Graciele Gessner)

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Poema Em Linha Recta

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cómico criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado,
Para fora da possiblidade do soco;
Eu que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu que verifico que não tenho par nisto neste mundo.
Toda a gente que eu conheço e que fala comigo,
Nunca teve um acto ridículo, nunca sofreu um enxovalho,
Nunca foi senão - princípe - todos eles princípes - na vida...
Quem me dera ouvir de alguém a voz humana,
Quem confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó princípes, meus irmãos,
Arre, estou farto de semideuses!
Onde há gente no mundo?
Então só eu que é vil e erróneo nesta terra?
Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que tenho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.
***
(Álvaro de Campos )

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Desejo Primeiro


Desejo primeiro que você ame,
E que amando, também seja amado.
E que se não for, seja breve em esquecer.
E que esquecendo, não guarde mágoa.
Desejo, pois, que não seja assim,
Mas se for, saiba ser sem desesperar.
Desejo também que tenha amigos,
Que mesmo maus e inconsequentes,
Sejam corajosos e fiéis,
E que pelo menos num deles
Você possa confiar sem duvidar.
E porque a vida é assim,
Desejo ainda que você tenha inimigos.
Nem muitos, nem poucos,
Mas na medida exata para que, algumas vezes,
Você se interpele a respeito
De suas próprias certezas.
E que entre eles, haja pelo menos um que seja justo,
Para que você não se sinta demasiado seguro.
Desejo depois que você seja útil,
Mas não insubstituível.
E que nos maus momentos,
Quando não restar mais nada,
Essa utilidade seja suficiente para manter você de pé.
Desejo ainda que você seja tolerante,
Não com os que erram pouco, porque isso é fácil,
Mas com os que erram muito e irremediavelmente,
E que fazendo bom uso dessa tolerância,
Você sirva de exemplo aos outros.
Desejo que você, sendo jovem,
Não amadureça depressa demais,
E que sendo maduro, não insista em rejuvenescer
E que sendo velho, não se dedique ao desespero.
Porque cada idade tem o seu prazer e a sua dor
E é preciso deixar que eles escorram por entre nós.
Desejo por sinal que você seja triste,
Não o ano todo, mas apenas um dia.
Mas que nesse dia descubra
Que o riso diário é bom,
O riso habitual é insosso e o riso constante é insano.
Desejo que você descubra,
Com o máximo de urgência,
Acima e a respeito de tudo,
que existem oprimidos,
Injustiçados e infelizes,
e que estão à sua volta.
Desejo ainda que você afague um gato,
Alimente um cuco e ouça o joão-de-barro
Erguer triunfante o seu canto matinal
Porque, assim, você se sentirá bem por nada.
Desejo também que você plante uma semente,
Por mais minúscula que seja,
E acompanhe o seu crescimento,
Para que você saiba de quantas
Muitas vidas é feita uma árvore.
Desejo, outros sim, que você tenha dinheiro,
Porque é preciso ser prático. E
que pelo menos uma vez por ano
Coloque um pouco dele
Na sua frente e diga `Isso é meu`,
Só para que fique bem claro quem é o dono de quem.
Desejo também que nenhum de seus afectos morra,
Por ele e por você,
Mas que se morrer, você possa chorar
Sem se lamentar e sofrer sem se culpar.
Desejo por fim que você sendo homem,
Tenha uma boa mulher,
E que sendo mulher,
Tenha um bom homem
E que se amem hoje, amanhã e nos dias seguintes,
E quando estiverem exaustos e sorridentes,
Ainda haja amor para recomeçar.
E se tudo isso acontecer,
Não tenho mais nada a te desejar.
***
(Victor Hugo)

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Quero Ser O Teu Amigo

Quero ser o teu amigo.
Nem demais e nem de menos.
Nem tão longe e nem tão perto.
Na medida mais precisa que eu puder.
Mas amar-te sem medida e ficar na tua vida,
Da maneira mais discreta que eu souber.
Sem tirar-te a liberdade, sem jamais te sufocar.
Sem forçar tua vontade.
Sem falar, quando for hora de calar.
E sem calar, quando for hora de falar.
Nem ausente, nem presente por demais.
Simplesmente, calmamente, ser-te paz.
É bonito ser amigo, mas confesso é tão difícil aprender!
E por isso eu te suplico paciência.
Vou encher este teu rosto de lembranças,
Dá-me tempo,
de acertar nossas distâncias...
***
(Fernando Pessoa)

Tu


Tu
entre as palavras,
na solidão dos versos
ou na pressa das frases,
encontro-te e
sei, finalmente, o pronome
que está entre mim
e nós.
***
(Cátia)

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Recomeça


Recomeça
Se puderes,
Sem angústia e sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
do futuro,
Dá-os em liberdade
Enquanto não alcances
não descanses.
De nenhum futuro queiras só metade.
***
(Miguel Torga)

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Sonhos Adormecidos


Magnetizada pelo aroma das flores,
sobrevôo os mais silenciosos recantos...
o meu pensamento vem delineando...
e penetra no ar o meu encantamento...
mais uma vez, me deixo embalar em meu sonho
que mexe e penetra fundo na alma
e busca resíduos adormecidos e indecisos
que repentinamente...dentro de mim...
se desperta em confusos aromas que...
somente eu sinto...
(Lu Lena)